Segunda-feira, 25 de Novembro de 2013

ANTES DAS OITO

 

      

Graham McKean

 

Mal começado o dia que o sol ainda não ilumina, madrugada, portanto, cinco graus na rua, eles chegam. Caminham devagar. Enroscados nos abafos. Olhos no chão. Coluna inclinada às ordens do vento. Mais homens, que mulheres – elas arribam mais tarde, quase sempre com filhos pela mão. Encostam-se à parede e exorcizam o frio com o bater dos pés no chão, com as mãos nos bolsos ou enluvadas, com golas ao alto e o aconchego dum cachecol puído. Olham com ansiedade o relógio e permutam a informação de quanto falta para as oito. Falas poucas, que o desconforto é muito.

 

Clareado o dia com o avanço dos ponteiros, a língua desata-se. Histórias de maleitas, de sofrimentos, de vidas ingratas. Partilham, antes da abertura próxima, que técnicos, enfermeiros ou médicos entraram. Endireitam a fila desorganizada pela espera, pelo frio, pelo vento – alguns dos idosos que são maioria haviam-se recolhido no vão da entrada do condomínio fronteira. Outros, os mais afortunados que estacionaram em frente da porta do Centro de Saúde, aguardam no automóvel o ajeitar da fila até minutos antes de vir à porta o segurança. Homem possante, fardado como cumpre. A muitos conhece; quer saber como vai a mulher ou o marido. Mesmo que económico no sorrir, há solidariedade no estar. E conforta. Às oito, vai lá dentro: averigua se tudo está apto a receber os utentes. Entram, finalmente. Com eles, a vaga ilusão de regresso a casa mais esperançado do que fora a saída.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:05
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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013

ESCÂNDALO!

 

Autor que não foi possível identificar                                                                                                     Grant Wood

 

Em Portugal, o “Dia Mundial da Rádio” amanheceu, de novo, com notícias de fraudes e incompetências. O futebol como prato de substância. Nada que aos microfones distinga aniversário de quotidianos outros.

 

Ao criar o "telégrafo sem fio” em 1896, o senhor Guglielmo Marconi prestou favor ao mundo da época e do advir – na atualidade, em Timor-Leste a principal forma de comunicação ainda é a rádio pelas dificuldades nos WWW e nas receções televisivas. As estórias da História referem um sacerdote brasileiro, Roberto Landell de Moura, como inventor do rádio. Acrescentam que em 1894, com aparelho semelhante ao do italiano, terá efetuado emissões e receções de sinais até à distância de oito quilómetros – desde o bairro de Santana até à maior altitude da Avenida Paulista. Seja qual for a verdade, é dado como certo que o fanatismo cristão acusou o padre Roberto de pactuar com o demónio, destruiu as suas notas e o aparelho. Tais malfeitorias adiaram para 1900 as demonstrações públicas do invento. Marconi terá, então, ganho a corrida.

 

Em dia de bolo e velas, a rádio debitou escândalo de truz: os inefáveis pensantes que nos regulam para obviarem ao desmesurado aumento de rendas incomportáveis para idosos com reformas que, de pequenas, nem para o essencial chegam, deram início a elaboração de ajuda. Pronta daqui a cinco anos. Ora, em cinco anos, quem sabe quantos dos idosos carenciados viverão ainda? E até lá? Se se finarem neste intervalo de tempo, acaba-se-lhes a miséria. Sobrevivendo, que a aguentem. Um escândalo! Outra prova larápia de matreirice.

 

Nota: a bold o publicado aqui.

 

Complemento: “Maria Emília Teixeira, de 79 anos, saiu esta segunda-feira da casa onde viveu 40 anos para não voltar mais. Foi a segunda idosa a ser despejada pela Câmara do Porto por não responder a um inquérito. Tinha as rendas em dia.”

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

1 - A TSF produziu espécie de jogo de vídeo imperdível para quem sobre a história dos dias da rádio quer saber mais. À disposição, aqui.

 

2

publicado por Maria Brojo às 10:08
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Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

35%, 4% E A SENHORA DONA LOURDES

Richard Whitney

 

Funcionária exemplar. Profissional conscienciosa e sabedora – dos laboratórios conhecia segredos que, discreta, sugeria mal eram verbalizadas dificuldades ou carências. Jamais arredada do lugar – não lhe lembro faltas ao trabalho, mesmo quando instada a dar meia-volta e regressar a casa por maleitas; algumas sérias. Ficava. Sorria e as rugas desvaneciam-se.

 

Vez por vez, surgia com o rosto maltratado. Caíra, batera na porta do armário como explicações comuns. Casamento de muitas décadas. Filhos e netos que a amavam. Retribuía com a dádiva que na (im)pessoalidade laboral a caracterizava. Viu-me crescer como mulher e trabalhadora. Conheceu-me aos vinte e três anos. Meus. Continuou na profissão anos a fio além da reforma. O limite de idade remeteu-a à domesticidade exclusiva. Homenageada. Incensada. Mereceu.

 

Soube agora que, três anos após a saída, está num lar. O marido, culpado da violência que lhe marcava o rosto, finalmente!, fê-la procurar refúgio num sítio tranquilo. Teve sorte – 18000 idosos aguardam instituição que os receba quando a vida conta anos demais para utilidade reconhecida. A paga do lugar é incompatível com o líquido da reforma. Emocional e afectivamente apoiam-na filhos e netos. Reconhecidos pelo feito. Sem possibilidades económicas para tudo.

 

Ignorando ainda dados últimos do Eurostat - 35% dos portugueses não têm sistema de aquecimento apropriado em casa e  4% sem direito a refeição completa de dois em dois dias –, o local de trabalho mobilizou-se. Bateram fortes os corações. Partes dos salários empregues em bens e ajudas de primeira necessidade que à Srª D. Lourdes satisfaçam. Que lhe lembrem afectos/tributos por anos de dedicação honesta. Ninguém reteve 'quentinhos' apaziguadores da consciência pelas ajudas prestadas. Tomaram, não fossem precisas!

 

Perdoada seja a lamechice. Partidas da emotividade deixam-me indefesa.
 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

When I was seventeen
It was a very good year
It was a very good year
for small town girls
And soft summer nights
We'd hide from the lights
On the village green
When I was seventeen

 

When I was twenty-one
It was a very good year
It was a very good year for city girls
Who lived up the stair
And it came undone
When I was twenty-one

 

When I was thirty-five
It was a very good year
It was a very good year for
blue-blooded girls
Of independent means
We'd ride in limousines
And their chauffeurs would drive
When I was thirty-five

 

But now the days grow short
I'm in the autumn of my years
And I think of my life as vintage wine
From fine old kegs
From the brim to the dregs
And it poured sweet and clear
It was a very good year

 

publicado por Maria Brojo às 06:08
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