Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2015

"AZUL, BRANCO, VERMELHO" - HOMENAGEM AO CHARLIE HEBDO

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O ano de dois mil e quinze irá assinalar o vigésimo terceiro aniversário de um dos mais interessantes trabalhos do convencionalmente denominado Cinema Europeu. Com efeito, a “Trilogia Azul, Branco e Vermelho”, do cineasta polaco Krzysztof Kieslowski, começou a ser filmada em 1992, tendo sido concluída em 1994, dois anos antes da morte do realizador. Três filmes que, numa primeira abordagem, versam respetivamente sobre igualdade, liberdade e fraternidade mas que, como que navegando pelas suas camadas mais profundas, outros significados desvelam. Numa altura em que, na mesma Europa que Kieslowski filmou, tais valores parecem querer mergulhar na crise das palavras fáceis de certos movimentos políticos, relembrar a “Triologia” é, de um certo e pequeno modo, reafirmar tais valores.

 

 

 

A génese destes filmes é um pouco mais antiga que a data da sua feitura, remontando aos tempos de Decálogo. Em 1988, Kieslowski e o argumentista Krzysztof Piesiewicz interpretam a aplicação dos “Dez Mandamentos” da filosofia cristã nos dias de hoje em dez episódios filmados para televisão. Perante os ótimos resultados obtidos com “Decálogo”, ficou em aberto a possibilidade de desenvolver outras peças deste estilo de exercício narrativo, o que veio a acontecer há trinta e seis anos com a construção de ‘Trois Couleurs: Bleu, Blanc, Rouge’.

 

 

Como é pacificamente aceite, a significação mais comum da Trilogia de Kieslowski cinge-a às palavras que dão cor à bandeira francesa, se bem que o conceito de liberdade, igualdade e fraternidade nestes filmes não se confina ao prisma eminentemente social que deriva da Revolução Francesa de 1789. Não nos é oferecida uma visão, um olhar e uma análise social das três palavras, antes somos levados a uma abordagem que cresce da parte para o todo, estudando os três conceitos numa perspetiva quase estritamente individual, que nos singulariza enquanto seres distintos que somos, e que nos une na nossa vida individualmente comum, igual a todas as outras. Exploram-se estes conceitos através das pessoas e das suas relações. Ao assistirmos a “Azul”, olhamos o confronto de Julie com a sua liberdade individual, com o seu corte com o passado. Em “Branco”, observamos Karol numa procura da igualdade com Dominique. Em “Vermelho”, somos cúmplices da fraternidade que vai florescendo entre Valentine e o juiz Joseph Kern.

 

 

Apesar de serem filmes absolutamente distintos, pontos existem que tornam visível uma forte ideia de comunhão, nomeadamente a aparentemente estranha presença de um vidrão nos três filmes. Perante um problema igual, os três personagens dos três filmes reagem de três modos diferentes. Nesta cena, ante a dificuldade de uma pessoa em depositar uma garrafa num vidrão, vemos que em “Azul”, Julie não ajuda tal pessoa por estar a saborear a sua liberdade interior. Em “Branco”, Karol também não o faz por achar que tal pessoa (um mendigo) está numa condição igual à sua. Só em “Vermelho”, Valentine se predispõe a ajudar, fraternamente, uma pessoa idosa que, com dificuldade, tenta introduzir a garrafa no vidrão. O vidrão une as narrativas e individualiza-as em cada um dos seus significados.

 

 

Explorando uma outra camada temática dos três filmes, para além da liberdade, igualdade e fraternidade, somos levados a descortinar outra semântica: “Azul” poderá ser um filme sobre perda, “Branco” sobre vingança e “Vermelho” sobre destinos. É o próprio autor que nos abre os rascunhos das suas obras quando afirma tratarem-se de "três histórias separadas, ainda que ligadas numa evolução conjunta. (…) Respeito muito os meus espectadores e a eles deixo a liberdade de descobrir os filmes. (…) Para chegar a outras significações, é necessário remover o segundo, o terceiro e o quarto véu. Mas existe sempre o primeiro. E esse é somente uma história." (1)

 

 

Para além da genialidade das obras na sua singularidade e no seu todo, seja no campo da narrativa, do discurso e linguagem cinematográfica (vejam-se alguns pormenores de montagem e alguns planos sequência, sem esquecer, como é óbvio, a fotografia), fica-nos a intenção do autor, quando afirma que "talvez seja a alma que tento capturar, em qualquer caso, uma verdade que ainda não encontrei. Como o tempo que voa e nunca pode ser apanhado."

 

(1) Kieslowski citado por NOLLET, Karine, La Reflexivité dans la Trilogie de Krzysztof Kieslowski.

Fonte – esta.

 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

 

publicado por Maria Brojo às 08:00
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