Terça-feira, 3 de Julho de 2012

ELBA

Pierre Farel

 

Estreia num cruzeiro pelo Mediterrâneo. Dúzia de dias de feitiço saberia depois. Vim a conhecer outros navios, mais sofisticados, imponentes, autênticos resorts flutuantes em mares suaves, poucos alterados. Mas foi o primeiro que contou. O sonho alcançado, a viagem mítica, a inexperiência de tudo constituiu novidade.

 

Antes, fora o emalar da trouxa cuidada, vestidos de noite, de cocktail, trajes de dia e de piscina, acessórios requintados e vários. Um «malão» onde nada fora esquecido segundo conselhos de marinheiros de repetidas viagens. Voo e embarque. O deslumbre. Arrebatada como criança a quem fora ofertado brinquedo novo, quis lá saber da bagagem! _ Os camaroteiros tratariam dos pertences. Percorri o navio de lés-a-lés, tentei descobrir numa só assentada os serviços, os meandros, a popa e a proa. E deixei-me ficar contemplando o mar que rodeava a ilha sobre ele.

 

Quatro dias não eram passados, ilha de Elba. Cheiro à Itália desejada. Peregrinei por ruelas e acabei nas compras. Não existindo o euro, provi-me de quantias razoáveis em notas de cada um dos países e cartão multibanco. Cheques, não arrisquei; arrecadados no cofre, alguns valores. Na véspera, a meio da tarde, previdente sacara as liras para a carteira que usaria no dia seguinte. Fascinada por uma mala de mão, decido comprá-la. Libras nem uma. Boquiaberta e sem refletir, entrego o plástico do dinheiro. Gesto automático, a funcionária enfia-o na máquina manual. Partiu-o até mais de meio. Com espontaneidade latina, olha-me espantada e depara-se com a minha infelicidade. Incapaz de balbuciar palavra, entendeu a desgraça, oferece-me a mala e acompanha-me à porta numa ladainha sem fim.

 

Até ao final da viagem, consegui levantar dinheiro por a fortuna ter estado do meu lado: a banda magnética não fora atingida. E as liras? Como haviam desaparecido? De regresso ao navio, encontro o camaroteiro. Peço-lhe que entre e relato o acontecido. Disse:

 _Claro que o culpado não é o senhor.

_ Quem sabe não teria sido eu a mudar de sítio as liras?

_ Ao aparecerem, tudo seria resolvido de forma pacífica e nada reportado ao comandante.

 

No mesmo dia, antes do jantar, as liras apareceram no bolso dum casaco que somente vestira no primeiro dia.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 11:41
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