Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

ROUBO LEGÍTIMO

Lorenzo Sperlonga

 

Cidadão cumpridor das obrigações fiscais depara com envelope postado em cima da fiada de caixas de correio do condomínio. Olha e lê o respectivo nome. Escrito à mão: “Morada errada!!!”.  Remetente: Finanças do Bairro respectivo. Ainda os elevadores subiam e desciam, abre a, pela certa, má notícia. Não se enganou. Em dívida valor de um qualquer ajuste do IMT relativo a apartamento adquirido havia quatro anos. Abriu a boca, pendeu o queixo de espanto. O caso não era para menos – em Abril do ano corrente, no momento de pagar o imposto de circulação do veículo que o transportava, fora informado do IMT atrasado. Pagara, ao tempo, o exigido. “Ajuste posterior”, explicação. Sem tempo para razões confusas que não entendia, saldou a suposta dívida. “Sistema em baixo” foi-lhe dito na tesouraria. Recolheu o papel e marchou rumo ao quotidiano.

 

Ao ler nova exigência do pagamento da mesma dívida, julgou-a confusão facilmente deslindada. Dia novo, chega ao local de trabalho. Coincidência: recorre à secretaria. Funcionária atenciosa, num sussurro discreto, informa-o ter penhora sobre fracção do vencimento.
_ Não recebeu carta alguma?
Susto renovado. Que não, que era impossível até lembrar o maldito envelope da véspera com D em vez de B. Exibiu-o e entendeu:
_ Estou envolvido numa alhada!

 

Manhã nova, entra pelo portal de vidro regulado por célula fotoeléctrica. Nele escrito: Finanças. Apresenta o papel/envelope. Ouviu:
_ Que sim, que tinha dívida, que o erro da morada era exclusiva culpa dele – assinara impresso confirmando os dados pessoais.

Engoliu a distracção que não chegara ao «D». Pela segunda vez, e perante o pasmo da funcionária da tesouraria que lembrava o caso – na altura, estranhara pagamento dum acréscimo de IMT quatro anos atrasado –, enfiou o cartão na máquina e saiu limpo de dívidas.

 

O cidadão cumpridor passou fim-de-semana revolvendo papéis em busca do recibo. Nada! Malvada confiança que o fez acreditar numa instituição legítima de roubo (des)organizado. Soube depois: os funcionários das Finanças têm objectivos a cumprir para subirem no escalão e haver direito a bónus. Entre eles, cobrança de dívidas. Saldadas ou não, assim haja recanto por onde pegar, o utente está lixado!

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Sugestão do Zeka à qual, a propósito, aderi. Tom Waits é voz que não descuro.

 

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publicado por Maria Brojo às 06:41
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