Segunda-feira, 24 de Junho de 2013

DESASTRES CULINÁRIOS DA MARIA REDIMIDOS PELA QUÍMICA

 

Mati Klarwein

 

Aos vinte anos exatos, era menina/mulher que inaugurava no cenário do casamento o papel de senhora dona de casa. A mãe e demais matriarcas haviam curado de preparar a única descendente nas artes domésticas por via do ver fazer (aulas teórico-práticas): como escolher e dobrar turcos, lençóis e demais roupa branca, como tirar nódoas difíceis (as manchas de «ferrugem» nos linhos eram as piores). As aulas práticas ficavam por conta da Lúcia que enfronhava a jovem na cozinha. Ora, a pequena mais interessada em leituras, pintura e nos estudos, cedo deu provas de total inépcia para a função. Mandada lavar batatas enquanto a Lúcia estendia roupa por categorias e pudor – cuecas e sutiãs do mulherio da casa de férias requeriam discrição adequada -, no regresso, veio encontrar a adolescente de escova de dentes em punho escarafunchando cada pedacinho dos tubérculos. Distinguir água fervente aprendeu em laboratório, e aproximado o casamento era suposto intensificar lições. Retorquia inevitavelmente que se dava conta dos protocolos laboratoriais na faculdade, semelhante aconteceria no seguir das receitas familiares organizadas em livro de cozinha que forrara a pano. Assim chegou ao estado adulto. Porém, briosa como era e após falhanços culinários notáveis mantidos incógnitos, ao celebrar um mês de casada, convidou os pais a virem de Coimbra para jantar que confecionaria: entradas, bacalhau espiritual, salada de couve coração e ‘bavaroise’. Entrou na cozinha com horas de antecedência. Tudo correu de feição até ao momento de ligar o forno a gás. Leu as instruções e a chama surgiu. Enfiou o pirex e, distraída com a preparação da couve, nem deu pelo finar da chama no forno. Conhecedora do perigo do gás orgânico em fuga, dominou eficazmente a situação. O pior era o gás absorvido pelo prato de substância. Deitou-o para o lixo e confecionou outro. Retomou a couve. Já na panela, teimava num verde desconsolado. Lembrou o «bicrabonato de sódio» como dizia a Lúcia. Do bicarbonato, uma pitada na cozedura. Nada de cor vibrante. Química como era, pensou:

_ Se com um sal alcalino não consigo, adicionando ácido fraco, o acético do vinagre, a coisa compõe-se.

Pensado e feito. Surpreendentemente, a couve ficou lilás. Mais bicarbonato. Couve amarelada. Mais vinagre. Couve roxa. O aspeto não era mau, o sabor exótico. Salada de falsa couve roxa fez sucesso durante a conversa animada sob o crepitar das velas, o espanto dos pais e do marido.

 

Afinal, o que fez a Maria à couve? _ Utilizou os princípios do equilíbrio ácido/base fazendo-o deslocar ora no sentido direto, ora no sentido inverso.

Sabendo que um ácido, segundo Arrhenius, produz em solução aquosa iões hidrogénio (H+) e uma base, também em solução aquosa, forma iões hidróxido (OH-), dá-se o equilíbrio aqui descrito na forma simplificada:

 

H+ (aq) + OH- (aq) ↔H2O (l)

 

Possuindo a água quimicamente pura pH (potencial hidrogeniónico/capacidade de libertar iões H+) igual a sete, está garantida a neutralidade. Ácida e alcalina (básica) em simultâneo através da neutralização:

 

H2O (l) + H2O (l) ↔ OH-(aq) + H3O+(aq)

 

O hidrogenião H3O+ surge pela pequenez do átomo de hidrogénio, o menor de todos os elementos químicos, que cedeu um eletrão para outra substância. Pelas forças elétricas geradas com a molécula da água, por exemplo, associa-se e é gerado o H3O+.

 

(...)

 

Nota: texto integral aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:50
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