Segunda-feira, 1 de Agosto de 2011

DA A1 PARA A IP3

Abel Manta

 

Do quase Sul, aceder à Estrela. Saindo da A1 para a IP3, bastam vinte quilómetros para que o «lago» da Barragem da Aguieira altere o cenário da Beira Litoral, pré-anunciando outro – o da Beira Alta. Arvoredo misto progride até capitular perante o pinheiro bravo e alguns eucaliptos. Após via rápida até Nelas, estrada curvilínea, trânsito raro, segura a velocidade moderada. Mas bela, cheirosa, com sombras que entrecortam a tarde soalheira do último de Julho. Num troço, o desgosto de incêndio em fase de rescaldo que bombeiros vigiam. E se era magnífico aquele pedaço! Daqui a quantas décadas, pressupondo optimismo, a área ardida regressará ao viço anterior? Novo pinhal talvez nunca se o solo foi exaurido de alimento até ao tutano.

 

Em Nelas, paragem garantida: magnífica cafetaria estende esplanada sob tílias e plátanos; para refeição de substância “Os Antónios” sito nas antigas adegas dum solar, outrora, propriedade dos Jesuítas. Gastronomia tradicional da região, gama de vinhos excelentes. No Inverno, lareira acesa convida a esticar a presença. Serviço atento, custo sensato. Tílias e mais tílias bordejam empedrado e alcatrão onde é fácil estacionar. Porquê interromper o trabalho do motor em Nelas? _ Dali em diante, muda o horizonte, surgirá a imponência da Estrela e das suas faldas que alojam as cidades de Seia e Gouveia. A primeira, industrial com magnólias a enfeitá-la; a segunda, tranquila e bela onde o património, pela riqueza, foi preservado e as hortenses floridas espreitam em qualquer recanto. Duma ou doutra, quinze quilómetros de distância entre elas, acesso directo e curto à montanha. O de Gouveia promete e cumpre a revelação do “Cabeço do Velho”, dos elevados penedos esguios das “Freiras” alinhados em procissão, do “Mondeguinho”, das “Penhas Douradas”, do “Vale do Rossim”. Para satisfazer a arte de bem comer, em Seia, o “Camelo” e o “Solar do Pão”; Gouveia oferece o (re)conhecido “Júlio” e a «boda» no Albertino.

 

Corra estio excessivo, a Estrela e seus próximos arredores garantem frescura nas manhãs e no entardecer. Por tudo, destino sem estação pela abundância de parques e de aldeias históricas, romarias, praias fluviais, outras imitando as marítimas, a neve e os desportos de Inverno.  

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:09
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Domingo, 22 de Maio de 2011

MÍSCAROS E CARQUEJA

 

A rota de amor começara quase trezentos quilómetros antes. Companhia de viagem: música significante e deslumbre pelo novo acrescentado por via do langor exuberante da Primavera. Deslizando linhas do céu conhecidas, foi tempo de alegria. A Teresa C. amou o percurso mil vezes repetido com a Aguieira nas margens da IP3 - manto de água, espelho de povoados, ilhotas dispersas, barcos ancorados. Na chegada, o perto irrompeu majestoso pela simplicidade vetusta, pelo histórico acumulado. Encimando muitas, a casa aldeã.

 

 

Do outro lado da ponte, sobre a ribeira e lameiros/margens, o registo do lado fronteiro que até às faldas da montanha se escoa. Casario sem plano unificador, mas onde o granito ou impera na totalidade, ou em detalhes denunciadores da matéria-prima que foi rainha na região. O enriquecimento durante e no pós-emigração trouxe algumas, poucas, maisons. Do surto migratório, a consequência maior e danosa para a arquitectura tradicional foi o efeito mimético dos que não arredaram pé da aldeia pobre – quem pela tinta não disfarçasse o granito afirmava a real diferença económica com quem arrojou, nos primórdios, “a salto”, fronteiras outras.

 

 

Nas ruas alcatroadas, outrora de terra batida, os plátanos e espécies outras de árvores viçosas são borda. A floresta próxima cresceu. Ida a que fora horizonte alto. Incêndios em sucessivas levas substituíram as matas por carecas disfarçadas com giestas floridas. Amarelas dominam, as brancas escasseiam. É memória o prazer de, chegado meio de Outubro, na base dos pinheiros encontrar míscaros, guardá-los na sacola para mistura com pedaços de cabrito, pão, carqueja aromática que o lume e a perícia da cozinheira transformavam em ensopado.

 

 

O Inverno chuvoso e frio, os nevões, o assobio do vento mais afiado que lâmina, encharcou os campos. Daí o verde do musgo sobre pedra, hoje, alimentado de quase nada. Mas sabe onde ir buscar o nutriente principal, a água, que à beira não falta e a porosidade da rocha também guarda. 

 

 

Fim de tarde, hora da janta, é deixada para trás a aldeia/Aldeias. Ao estacionar na «vila» como ainda chamo à cidade, um de muitos chafarizes que vertem água do degelo na montanha. Simples, pelos limos e amarelecimento do granito por via metálica grita idade. Ao lado, trepam heras. Selvagens. Livres, conquanto o instinto sobrevivente as amarre à pedra.

 

 

No cimo do chafariz, alguma imponência pelo granito trabalhado onde os séculos deixaram marca. Não fossem as cicatrizes das feridas gravadas pelo tempo, parte do encanto e respeito desvanecer-se-iam. Assim, avançam intactos em cada dia corrente.

 

 

Casa, telhado, ferros, sacada sobre a ruela - Rua da Cardia chamam-lhe. Quem a vir tão preservada e adiante passar ignorará quem lá nasceu. Muitos o fazem. Os mais atentos não perderão pitada como o casal croata que por ali passeava. Parou, à máquina ordenou milhares de píxeis, nariz espetado ao alto. Cliques sucessivos. Eu com eles por gosto e para no SPNI mostrar.

 

 

A placa tudo diz. 

 

 

Cortando na primeira à direita, calçada espevitada que de saltos, para quem os ali tem por base, troça, uns passos e restaurante de truz. Granito dentro e fora. É o Júlio a quem já o Quitério reconhecia mérito e não dispensava. Por ali, encontrei realizadores de cinema, músicos, escritores e gentes tão anónimas como eu que do lugar fazem romaria. Prato escolhido? _ Ensopado de cabrito e míscaros, pois então!

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:03
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