Quarta-feira, 17 de Abril de 2013

NAS HISTORIETAS DAS VIDAS

 

Ernest Chiriaka 
 

O Paulo está apaixonado pela Isabel que retribui o sentir. Por orgulho, intolerância, arrumaram em lágrimas o sentimento. A Isabel continua só. O Paulo chora a paixão que não chegou a casal feito. Mas lembra os dias em que o pressentiu e quase era. Atualmente, ele penetra quem calha - umas hoje, outras quando sucederem. Que venham e vão. Ou fiquem, ofertando idolatria capaz de lhe nublar o histórico de rejeições. Presentes. Dolorosas. Hesita no afeto que, agora, lhe inspira a Sofia. Imagino, do Paulo, o pensar:

_ “Mostra que me acarinhas e colocas adiante do que é muito para ti. Do teu filho e do ainda marido. «Ex» quando o apartamento com renda proibitiva que o banco, pontual, cobra, tiver comprador. Quando forem rachadas ao meio valias e dívidas. Ganhas pouco. Eu, o dobro. Vida medíocre não alimenta desejos maiores num amor.”

 

Lastimo se tu, Paulo, cogitares assim e o pudor te censurar esta fala. Pelas descrições em confidências nossas porque amigos fiéis, sinto-me próxima da Isabel. Não iludas a Sofia! É mulher/menina que sonha paixão igual à dela. É afetuosa, carente de vida que lhe devolva bondade. Não ludibries quem podia ser tua filha. Esquece de vez dores e lágrimas ou enxuga-as, com lisura, no colo dela. Não podendo, evita a mentira duma paixão que somente endereças, inteira, à Isabel. Respeita-te. És homem e tanto! Vês como não prescindo deste laço fraterno que nos prende ao telefone e é confessionário? Dizes ter-me como 'não amiga' por considerares a amizade sentimento arredado dum homem que deseja aquela precisa mulher. Tem de ser assim? A amizade é elo com facetas múltiplas. Forma outra de amor, mais abrangente, mais livre, isenta de projeto comum, ressalvada a partilha de reflexões e o querer saber.

 

Porque se enreda o Paulo em fados doridos? Porque aquiesce à Sofia quando sabe omissa paixão e o sentir exaltado que lhe confere sentido aos dias? Porque chora pela Isabel e a Isabel por ele? Separados, levam ao palco tragédia que podia ser ópera e já foi e voltará. Digo-lhe:

_ Não engaioles a Sofia num amor de raspão. Mentiroso. Fim à vista. Acabado, o menino sofreria com o olhar e os sorrisos esmorecidos da mãe - quatro anos entendem muito, mesmo ignorando o nome do que lhe muda o horário do jantar, o gargalhar apagado à hora do banho, da brincadeira durante e depois. Deixa-o crescer sem lágrimas que tu faças verter.

 
CAFÉ DA MANHÃ
 
publicado por Maria Brojo às 08:32
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Quarta-feira, 25 de Maio de 2011

A PROVA DO IMPROVÁVEL

Mati Klarwein

 

A Bélgica prova o improvável: desde há um ano, vive de modo relativamente tranquilo sem primeiro-ministro ao comando. Dedução imediatista: as redes políticas tradicionais são dispensáveis para os cidadãos ainda que repartidos por regiões e línguas – flamengo, francês e o minoritário alemão. As estruturas hierárquicas funcionam por si próprias, uma vez que Sua Majestade, o rei, apenas acumula postura decorativa com funções extremamente limitadas de Chefe de Estado. Não pinta, nem manda no essencial.

 

Todavia, a realidade vai além. Na ausência de entendimento entre os partidos mais votados para formação de governo, por tal omissas reformas internas, a dívida belga cresce sem parança – o terceiro país mais endividado da Europa, ocupando a Grécia lugar cimeiro. Maçada que aos belgas aflige sem que o quotidiano reflicta angústia existencial.

 

Lembrando ter a Bélgica participado de modo determinante na fundação da Europa Unida e nela hospedar sede da Comunidade, adivinho sinal que preside ao futuro dos vinte e sete e à organização política do mundo. Sem bola de cristal é tentador deduzir que estando o Reino Unido nas lonas, a Alemanha em desnorte eleitoral, a Itália entalada em dívidas vultuosas, a França como é sabido, ou o Durão se revela duro de roer e engendra arca de Noé que a Europa salve do naufrágio, ou, caso contrário, o mundo económico-financeiro como o conhecemos desaparece num ápice. Alguns dos centros poderosos deslocar-se-ão para outros países/leme: China, Japão, quiçá a Austrália no hemisfério Sul. O Brasil, a continuar o deslumbre pelo acesso fácil ao dinheiro de plástico, não tarda, regredirá - os europeus fizeram o mesmo e deu no que deu.

 

Ciclo da humanidade a cujo dealbar assistimos. Talvez fim das democracias ocidentais, talvez princípio duma nova ordem mundial.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Belgas, pois então!

 

publicado por Maria Brojo às 07:10
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Sexta-feira, 4 de Março de 2011

BOTAS, BOTECO E SANDÁLIAS

Sorayama Hajime, Sally Davies, autor que não foi possível identificar

 

Pelas nove, antes do horário estipulado para trabalho, o uso de há um ano: entrar no quase boteco, quase restaurante, ajeitar uma cadeira, pedir um café bem cheio e um copo de água. Podia tomar a delícia em casa, mas perderia momentos de conversas facilmente audíveis de gentes comuns em frente, ao lado, no balcão. Futebol, se na véspera houvera jogo com um «grande», o estado da nação reflectido nas vidas, temas avulsos que só aos próprios interessavam, estes segredados, cúmplices.

 

Manhã soalheira e fria. À direita da entrada, no chão, um par de botas pretas, saltos íngremes levemente descascados na base, elegantes no conjunto, obedientes à moda. Estaquei. Quem as ali deixara como lixo sem pensar no recipiente ao lado que acumulava desperdícios, sem que a paróquia, centros outros de recolha solidária fossem hipótese? Intrigada, despedi cogitações – era pressa a dose de adrenalina matinal.

 

Estando o Sr. Pereira sozinho, os narizes mergulhados nos jornais não contavam, perguntei:

_ Bom dia! Sabe das botas, praticamente novas, ali depositadas na entrada?

E ele que sim, que delas soubera pela dona em fúria à conta dos pés maltratados após noite de trabalho, que tomara o pequeno-almoço e partira descalça. Lançou provocação às cozinheiras:

_ Porque não aproveitam as botas novas aqui à porta?

De dentro, respostas:

_ São lindas, mas amigas do serviço nocturno. Pergunte amanhã às colegas da dona se as querem.

_ Não enfio vícios em lado nenhum, quanto mais nos pés!

Ouvi e calei o débito de juízos morais e repulsa. ‘Não sou dessas’, seria réplica mais económica. Ponderei se os homens daquelas mulheres impolutas(?) não seriam clientes de quem elas desprezavam. Afinal, ao deitarem-se com os respectivos, sabiam se aquela ou outras acusadas não estariam presentes na cama pelos restos invisíveis neles deixados?

 

Ainda bebericando a mistura fervente e negra, lembrei cena no Julho passado. Temperatura de ananases. Almoço e passeio num parque cerca de casa. Sandálias com nesga de salto e tiras cruzadas que não resistiram a cabriolice num penhasco. Analisei o estrago: sem arranjo. Caminhar semi-calçada, era desconforto. Larguei-as em bom recato. Arrisquei cumprir a distância descalça. O asfalto, o empedrado escaldava. Arribou interpelação: quem me viu naquela figura rir pelo prazer do diálogo e da aventura que terá pensado? _ Excêntrica, desavergonhada, ‘mulher da vida’ que a tudo se habitua? _ E se fossem alinhar pêlos a macacos?

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

O segundo vídeo é devido a cortesia do Cão do Nilo.

 

publicado por Maria Brojo às 07:36
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Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011

PAPOILAS E BATATAS FRITAS

Diane Maxey, Mel Ramos

 

A Bélgica é reino e tanto. Há 250 dias sem governo, bateu recorde que o Iraque detinha. Aos belgas francófonos e flamengos falta entendimento que lhes permita regulação estatal unificada ou separada. “Não Em Nosso Nome” é movimento. Pugna evitar o separatismo. Dinamizado nas redes sociais por estudantes, conduziu a manifestação conjunta levada anteontem às praças por iniciativa de trinta Associações de Estudantes. Após senadora declarar greve do sexo aos políticos cônjuges ou companheiros, abriram luta contra a desvergonha do impasse governamental, a divisão do território belga que diferenças substantivas lhes trazem: o corte do território belga agravará as diferentes condições dos estudantes no que concerne à gratuitidade dos transportes públicos, financiamento, numerus clausus e qualidade do ensino. Tudo em desfavor dos francófonos.

 

Como em 68 aconteceu, hoje, jovens belgas lideram ideais/utopias que em tempo qualquer dos percursos humanos propicia dealbar contestatário. Revolução das Batatas Fritas, chamam-lhe. E vendem-nas em barraquinhas, assim as autoridades policiais o tenham permitido há dias. Dizem-se inspirados na tunisina Revolução do Jasmim. Esquecem a papoila, símbolo/ memória da Batalha da Flandres contra os ingleses. Mas o jasmim é comestível e a papoila não.

 

Nota: texto inspirado nos Sinais do Fernando Alves.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 06:31
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