Terça-feira, 19 de Abril de 2011

TRÔPEGOS EM CASA, AIROSOS NA CALÇADA

Leonard Wren, Jane Brewster, Dona Surprenant

 

Adeus diferenças substantivas entre habitantes da cidade capital e das recolhidas em interior do mar afastado meia hora. Foi-se a cor local nas vestimentas e hábitos e nos mercados e nos tascos, como justifica a corrente global. Mantém-se o hábito das tertúlias matinais nos cafés estratificados pela clientela: senhores dons e senhoras donas nuns, senhoras e senhores noutros, em poucos, homens e mulheres que têm mais a fazer que botar na mesa com os bolinhos e galões suados longas «faladuras» sobre família, casas segundas, livros, últimas das «têvês» e damas de companhia.

 

Pelas dez e meia da manhã, começa o ajuntamento. Quem falha no picar do ponto diário é bom que avie justificação pela saúde ou atraso da Alicinha que vem de Penalva ganhar a vida e paga cerca de noventa euros mensais em transportes. Os «stôres» e as «stôras», os ‘dons’ e as ‘donas’, todos reformados e sem engulhos financeiros, nas «conversetas» e atitudes revelam predicados apreciáveis: são informados, omitem maleitas, desgostos, uracrasias que os obrigam a ir dali fazer listas de fraldas para o ‘super’ – em sussurros domésticos, chamam-lhes pensos; solidariedade e preocupações mútuas estão assentes e nem lhes passa no estar serem comportamentos que a moda dita obtusos. Adoráveis orgulhosos pelo sincero ‘não se incomode’!

 

O café tem encanto estendido para a rua. Dentro, outro, à parte o barulho das chávenas, a tendência beijoqueira do Sr. Raul à laia de boas-vindas para a ausente e regressada que pode incluir, esquecida distância prudente, toques peregrinos nas costas. Divorciado e trintão, bem-apessoado, pergunto-me se não despertará suores e suspiros nas damas que atende amável. Enciclopédico no que respeita a vícios/manias da clientela preferida, um tudo-nada trôpega em casa, airosa na calçada. Não foram memórias e sabedorias ali partilhadas, chegariam duas presenças semanais nos encontros. Assim, não: alargo a três o número. Quatro, configura dor pela rotina, cinco, missão impossível.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Cortesia de Acúcar C.

 

publicado por Maria Brojo às 08:35
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Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010

COM A CABEÇA QUAL BICHO ANDA?

Jane Brewster, Pat Dugin, Graham McKean

 

Na volta, o real. Criança, uma. Idosos, quase todos. Grávidas, algumas. Pacientes oncológicos, diabéticos, menos. Sentados em cadeiras azuis ligadas por plásticos e metal. É de espera a sala para quem, papel e senha na mão desde antes das oito, é obrigado a extrair sangue e encher seringa com urina, depois entregue no gabinete de recolha. “Análises” informa a tabuleta sofisticada que da finalidade informa os utentes.

 

Assentos esgotados. Senhas divididas consoante urgência pré-determinada. Ecrãs com números sempre longínquos do obtido, menos pela inequívoca eficácia do pessoal especialista do que pela gente a mais. Mas estão e chegam conformados – sabem o seguinte por alturas outras. Casais acompanham-se mutuamente, filhos(as) fazem o mesmo com a mãe ou o pai ou a tia cuja idade e debilidade justificam cuidados - o ouvido e a visão já foram melhores, por arrasto o entendimento também, as seringas para recolha de urina na única casa de banho com fila permanente são difíceis no desenroscar da tampa por onde o líquido excretado subirá. E cresce a espera. A fome pelo jejum. E a insulina adiada. E os remédios da manhã por tomar. E a procissão além da porta.

 

No durante, há o ‘louco de Lisboa’, cinquenta e pós, limpo e cortês, que cumprimenta um a um os empilhados. Deseja bom dia. Tem laracha endereçada e assertiva para cada um. À criança pergunta: _ Qual o bicho que anda com a cabeça? O menino sorri, olha o pai e assume o não saber. O homem responde: _ o piolho que tu não tens por seres rapaz asseado. Ao menino luzem as pupilas. Adiante, indaga dum casal a mulher: _ Qual a palavra com 40 acentos/assentos? Perplexa, conferencia com o marido, reconhece a ignorância. Esclarece: _ O autocarro! Esboço de sorriso, riso mesmo, nas faces até ele tristes. À mulher mais nova recita quadra tão popular quanto romântica; sem permissão, passa, ao de leve, dedos no rosto. Inquire senhora postada no extremo da carreira: _ Numa mulher, o que mais cheira a banana? _ O nariz! Pagelas debitadas em amanheceres esgalgados. Mal acaba o périplo, a cada um: _ Pode dar-me um euro se não lhe fizer falta? Ao vê-lo, insiste: - não recebo caso lhe faça diferença.

 

Ritual/desassossego completo, os «vampirados» esticam o pescoço na cafetaria fronteira para decidir medíocre pequeno-almoço que não lhes coma euros acima de dois estando na frente a caixa de pré-pagamento, o sorriso brasileiro tão plástico como as cadeiras largadas. Talvez consulta a seguir ou volta inteira para casa. Talvez madrugada/cópia após dias ou meses medidos com a régua do desespero.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 16:16
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