Sexta-feira, 8 de Junho de 2012

A CASA DA «DESGRACIA»

John Stone

 

Local
- supermercado de bairro.

Protagonistas
- a Macy, o dono do supermercado, a cigana, a mulher nervosa.

 

Na caixa junto à porta, a Macy queixava-se do frio. «Encamisolada» até mais não poder. Rosto franzido. Contrariado. De resto, é quase sempre assim
independentemente da estação do ano. Chama “meu amorrr” às clientes. É brasileira com anos de Portugal. Cinco, enumero. Dos anteriores nada sei. Dedos ágeis fazem sair, num ápice, a conta/paga. Rabuja, mas enfia à medida que tecla os adquiridos num saco. Encara as filas de clientes como prova de mau gosto pela hora escolhida.

 

Cenário restante – expositores, congelados no frio em arca vertical com a porta transparente para estimular apetite. Rondam-nas compradores. O dono, mal-encarado, vigia funcionárias e quem se apresenta disponível para encher o fundo do saco de plástico num irritante amarelo. Etnias misturadas atraem no lugar.

 

De novo, a caixa registadora. A cigana substituía a Macy no gesto «enche-saco». Totalizada a conta, sopesa conteúdo e euros. Da bonomia faz uso: _ “esta é a casa da desgracia”. E gargalha enquanto o diz. A “senhora dona” atrás e à minha frente resolve também ensacar. Chegado o momento de abrir o porta-moedas, fosse pelo nervosismo acidental ou costumado, derrama no chão as moedas. Ninguém da fila se mexe, salvo eu. De cócoras, cato as que vislumbro e entrego-as à dona. Deparo-me com ela ao alto, esperando a minha recolha. No gesto da devolução, ouço:

_ Nem valia a pena. Acordei a saber que iria perder dinheiro.

_ Mas não perdeu. Julgo estarem aí todas.

A Macy concordou. Os da fila também. Continua a senhora dona crente em predestinações:

_ Não! Que perderia dinheiro sabia desde manhã.

E saiu cabisbaixa sem palavra mais ou olhar para trás.

 

CAFÉ DA TARDE

 

publicado por Maria Brojo às 17:31
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Quarta-feira, 11 de Agosto de 2010

AQUÉM E ALÉM REDONDO

John Stone

  

Diferente do feito. Rondar o desconhecido. Penetrá-lo sem o esgotar, que prometidos regressos obrigam à luxúria por descobrir. Sentir nos pés macieza do musgo, areia fina sob água/vidro. Vislumbrar redondo no horizonte e desejar possuí-lo. De madrugada, partir com bússola no olhar. Na mochila leve, água, maçã, livro pequeno, pensos rápidos, não as urdam tojos ou cactos. Chapéu e bordão. Botas e calças folgadas. Alças e algodão leve. Da lingerie, a inferior. Óculos protectores. Cabelo preso ao alto, pescoço desnudo. Semear pegadas, depois, até o redondo chegar.

  

Entre ir e vir, que o perto recortado no azul se fez longe, quatro horas. Pernas rijas pelo trabalho muscular como noutras vezes, noutros lugares, noutros quadros. Duche e um café no terraço que, pela manhã, a sombra veste. Olhar afectuoso no além redondo sentido sob os pés. E sair. Deambular, talvez mercar em mercado de nomeada. Sendo os turcos fofos, escolha feita, treinar o regateio e comprá-los ao quilograma. Mirar o enlaçado dos vimes, os desenhos ingénuos dos barros, a perícia nos linhos saídos de teares. Na seira, acumular legumes, ervas das minas ou de acaso, fruta antes cheirada – apalpada não, que quem atrás vier merece bem intacto.

 

A tempo do almoço, panela com água, descascar, partir, mexer. Mesa posta no durante do apuro da refeição. Volver ao terraço. Ao redondo. Ao continuado prazer.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

 

 

publicado por Maria Brojo às 08:40
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Sexta-feira, 19 de Fevereiro de 2010

“TODA, SE FAZ FAVOR!”

 

Autor que não foi possível identificar e Nataly Kimmel 



John Stone


Mercados não faltam. Poucos os limitados por ferro forjado. Final do século IXX, e passados ¾ do vigésimo, mercar naqueles mercados era tarefa de mães de família zelosas ou empregadas vigiadas, até ao tostão, no ‘leva e traz’. Na “Grande Alface”, o de Santa Clara é, por ora, lugar ermo; o da Ribeira o que é. Nas cidades do interior e nalgumas dos Algarves, Loulé e Tavira como exemplos, logo depois das matinas, entre ferros e vidros, peregrina clientela em romaria certa - procura o mais barato e o melhor dos frescos. Perdido o aciganado regateio. Tradição e jogo: equivalente a lotaria ou euromilhões, era garoupa a bom preço após o "só levo se fizer desconto", "ai minha rica que não posso", "então fica", "volte!", "ande cá". Na salsada de aromas e cores e prometidas delícias que a vista enxerga, apetece enfiar no porta-bagagens o “mercado inteiro”. Tenho amiga assim:
_ Embrulhe a montra. Toda, se faz favor.

 

Em Madrid, pouco falta para um ano, "reabriu o Mercado de San Miguel. Acrescentou à tradição, massas frescas, sushi, tapas, ostras, lojas gourmet, livraria. Disseminadas, mesas para abancar. Para fruir de cañas e pinchos."
 
Palete de cañas ou similares deve faltar aos dirigentes sitos em Pequim. Má altura para ameaçar Obama com tensões escus(ad)as. Esticadas pelo rendez-vous com o Dalai Lama, mais oceano de acompanhantes. Venda de armas dos EUA a Taiwan e a denúncia de terrorismo virtual contra empresas norte-americanas, não auguram salamaleques vindos dos corações made in China ou in USA. Por ser dito nos mercados e daqueles que os frequentam que pessoa baixada em demasia às vistas expõe o rabo, adiar, vez segunda desde Novembro, conferência com o Dalai Lama seria subserviência insuportável. A Clinton encarregar-se-á do papel diplomata de rainha madrasta. Salva a tradição!

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

publicado por Maria Brojo às 09:22
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