Segunda-feira, 8 de Setembro de 2014

COBERTA PELA NOITE A CIDADE

  

Karin Jurick

 

Esbofeteá-lo era pouco. Demais para o gelo que sentia. A (des)conversa colada ao ouvido deixara-a assim: fria e ferida. Enrodilhada no sensível, na sétima nota da escala diatónica. Tom inteiro que os cinco semitons, separados pela distância, a fúria ignorava. Silenciara o jazz das noites suaves em que delas geria o fluir e um corpo era ausência.

Não o queria sempre. Que viesse, que fosse, que lhe deixasse tatuado na pele um arrepio louco. Que, após a partida, fosse tempo de anular vestígios, as máculas ansiadas, depois inúteis. Retomaria, então, a ela outra que rejeitava espartilhos.

   

Nos pés nus sentiu a madeira do soalho _ macia, genuína, indulgente. O contrário da fraga arrogante que acabara de ouvir. Um nada fora o rastilho que fizera arder a pólvora sem fumo. Na partilha do dia quase extinto, descrevera, ligeira, o almoço de trabalho. Por via da mesa conhecer o possível duma alma que o rosto e a fala sempre denunciam. Intrigara-a o pintor. Traço gráfico definido pelo óleo. Explosão de sentidos. Telas com arrojo e falo falado. Curvas e renda, talvez ligas, talvez intrincado labor debruando sutiã ou combinação antiga.

 

Resistia à crueza do comércio. Teima que encontrara abrigo no Largo do Picadeiro. Estilhaçava a alvura nas paredes do retângulo modesto com o amor/vício pelo sentir. Luzia cor e coragem nas pegadas suspensas. Antes de lhes ceder o branco vertical, carecia de entender quem o pincel manobrava. Quais as partes de enxofre e salitre, a qualidade do carvão mineral que dela e doutros fariam explodir os espíritos. Por isso o almoço. Outro entre muitos que a desviavam da galeria. O Mário como novidade e companhia.

 

A meio, ele ligara. Pelo relógio, supunha-a absorta na galeria, imersa na luz fria, os troncos despidos e a calçada e o limite de São Carlos como fundo. A porta por moldura. Mas fora ruído que ele ouvira, a voz dela, prática, esquecida da doçura costumada. Vira, sem o ver, brilho cortado em diamante nos olhos, sorriso bailarino nos lábios cheios donde vertia mel que (...)

 

Nota - Artigo publicado integralmente aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:45
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Segunda-feira, 19 de Novembro de 2012

A TEORIA DO ELOGIO

 

Karin Jurick

 

Neste mundo caraterizado por guerras imbecis, pela humilhação dos outros, por enganos que de ledos nada têm, por conjugações exploradoras dos cidadãos, das novas que o percorrem à velocidade das luzes, o acontecido quando é já foi – a viagem dos fotões, pelas idas aos longínquos satélites e regresso aos meios divulgadores, não apaga fósforo em menos de um sopro. E se a informação está democratizada, de tamanha ser apetece dispensá-la, alargar as grades que aprisionam múltiplos de gigabits e respirar ideias pessoais.

 

Ignoro se a algum observador especializado em comportamentos e pensares humanos já ocorreu teoria assim batizada. Todos experimentámos ideias que batem à porta dos meandros cerebrais e não os largam até adquirirem consistência mínima – ‘ponta por onde pegar’, soe dizer. Ora, aconteceu. Nem foi precisado extenso matutar. Questão e resposta simples: omitir crítica azeda e substituí-la por elogio vero do que de bom existe em cada um. Sai valorizado o outro, refreamos instintos primários - de malvadez todos temos um pouco.

 

Elogio pragmático aliado à tolerância apela ao melhor do que possuímos. Indo do pequeno ao infinitamente grande, se tem êxito nas relações interpessoais, por restritas que sejam, quais as consequências a nível planetário? Pranto dúvidas que o mundo continuasse igual.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:25
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