Quarta-feira, 14 de Agosto de 2013

COMUNIDADE DE AVEIRO, 23 DE AGOSTO DE 2002 (I)

 

 

“Querida Rosinha e Manuel,

 

O telefone não chega para exprimir o que me vai na alma, no coração. É assim um conjunto de gratidão, ternura, um amor de família que desejaria caminhasse para a plenitude. Aí, sim, esse amor seria mais parecido com o amor do nosso Deus. Que ele me ajude a progredir na doação aos outros.

 

As horas que nos separam após a saída da Estação de Gouveia, estão cheias de recordações que aquecem o coração: o gosto, o cheiro das coisas boas que aí comi; o belo vinho que o Manuel teve a delicadeza de servir no último almoço, o gostinho, o cheirinho da farinheira torrada arranjada com aquele amor discreto da nossa Rosinha; o melão fresquinho, a calma, a alegria das Festas do Senhor do Calvário; a presença dos nossos queridos de Lisboa; a ternura de cada um e a dedicação da nossa Céuzinha naquela despedida que revelou o profundo do seu amor por cada um de nós. Tenho saudades de tudo, até do barulho dos saltos da nossa menina e da beleza das cores e harmonia como se vestia. É linda!

 

Recordo os nossos passeios à noite e as gargalhadas de cada uma. Recordo as idas ao café, a gente boa que encontrei, a qualidade das tuas amigas, Rosinha. Dá-lhes beijos meus.” (…)

 

(Continua amanhã o conteúdo desta carta de família encontrada com muitas outras numa secretária esquecida na casa principal da Beira Alta. Foi escrita pela tia Maria do Céu Brojo, religiosa na ordem francesa “Les Frères de La Charité”, num tempo vivido em Portugal em que o pai ainda estava entre nós e a saúde existia. Por testemunhar o espírito de família que desde sempre presenciei e procuro conservar, publico-a.)

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:59
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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012

‘INTERMEZZO’

Jack Vettriano, Klimt

 

Pijama de cetim preto enfiado ao pular da cama. Camisolão por cima. Meias de lã e sabrinas. Estremunhada, abriu o frigorífico. Encheu com leite o copo. Atestou de água e «café das velhas» a máquina. Ligou-a. O chá verde esperava. Ouviu o noticiário da hora certa. Soube do essencial ocorrido, desde a véspera, no mundo enquanto dormia. Retirou da tomada o carregador do telefone - ligá-lo-ia após as trivialidades seguintes ao acordar. Antes, gozaria a solidão de quem madruga quando outros dormem ou se afadigam nas abluções, no vestir, em pegar na pasta, nas chaves do automóvel ou na corrida para o transporte público. Não ela. Manhã por conta até às onze.

 

Confortável, premiu o «on» do computador. Eliminou o inútil do correio, leu o restante. Intermezzo para reforço de cafeína pingada pela ‘nespresso’. Chávena quente na mão, deslizou na leitura enquanto bebericava líquido e espuma. Quase tudo desinteressante a legitimar o «elimine» até ao inesperado. Recostou-se na cadeira e repetiu a leitura não tivesse entendido à primeira. Mas tinha. Releu. Azul em branco, desabafo d’alguém que estimava, lhe merecia admiração, não via há ror de tempo – dois, três anos ou mais que o voltear da Terra é enguia que escapa das mãos.

 

Houvera encontro no lançamento do livro, dois outros profissionais: o segundo deslizaria para intimidade ligeira e circunstancial, o terceiro obediente à formalidade prevista na ocasião. Evitava lembrar o último: desrespeitara diplomacia competente ao sentir-se traída pelo que meia hora antes fora combinado, a sós, com o mandante da empresa. Saíra a meio da reunião. Demitira-se nesse mesmo dia, sufocada pelo sentimento de falsa fé quando a lealdade fora linear da parte dela. Com os dias esquecera o sucedido até à leitura do e-mail. Mentiroso esquecimento, concluiu. E soube que gravara na memória todos os detalhes dos encontros, da malvada reunião, que, agora, sorria, feliz, harmónica com o lido no inesperado e-mail.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:52
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