Saltitava como criança pequena enquanto descia as escadas de madeira. Ao assomar no cimo da duna e vislumbrou os rochedos desenhados com o cinzel marítimo, vieram à lembrança as férias à beira-mar da criança que fora. Vira, sem dele tomar nota, o oceano quando mal contados eram nove meses a idade. Já a consciência tudo via e registava, repartia a temporada de praia entre a Póvoa de Varzim e Vila do Conde, areais com iodo, diziam, benfeitor para os ossos e que fazia crescer. Isto ouviu dos avós do Norte, vezes sem conta, enquanto devorava sopas de substância e pataniscas de bacalhau bem servidas de salsa cortada no quintal.
_ Vês como tens mais apetite desde a chegada? Precisavas de mais tempo antes de ir para a Beira Alta. Mar e montanha a seguir dão-se bem.
Assim foi. Espigou, veio a adolescência e o ritual das férias era o mesmo, aparte algumas escapadelas com os pais até à «estranja». Fosse pela reunião de ondas e pinheiros, pelos genes da herança oculta, com desgosto, sendo a mais nova em idade, sobressaía em altura nas turmas. E logo ela, tímida, que, à época, considerava modelo de encanto as gémeas Guida e Lena – exuberantes, bonitas, estatura média, originais nos enfeites que sustinham a lisura do cabelo loiro.
Descidas as escadas e pisando o areal vazio, os recortes nas rochedos imponentes denunciavam grutas, sombras, recantos virgens. Limos como forro das rochas pequenas espraiadas por quilómetros. Ria enquanto descobria mais uma borda lavrada pelas marés, a gruta depois. Amou, guardou os lugares, os instantes todos daquela manhã terna que o sol, complacente, iluminou.
Tinham razão os avós nortenhos no dizer de abrir o apetite o mar. Outra borda, outra gruta, esta com gastronomia tradicional para alegria do palato. Apatetada pela descoberta do lugar, o riso continuava pronto e solto. ‘Cozido à portuguesa’, como na infância as pataniscas recheadas de salsa fresca, misturou, na fantasia, mar e montanha, Verão e lareiras de Inverno.
CAFÉ DA MANHÃ
Thomas Waterman, Scamato
Mal começou o estio, e a silly season aí está espampanante pelas frivolidades de que faz notícias. Não fossem as especulações e «achares» sobre o governo, o futebol e prevenção dos incêndios, a penúria dos portugueses, a já sabida intenção de emigrarem trabalhadores qualificados com que se encheriam páginas, rádios e televisões? _ De cultura em pousio, novelas feitas de tragédias nossas e mundiais, do pároco que assediou a beata mais apetitosa da paróquia, da mãe que matou o tio e foi assassinada pelo filho, do falecimento da mulher mais velha do mundo, brasileira, 114 anos, cujos familiares garantem ser o segredo da longevidade jamais se ter imiscuído na vida dos outros. Ora, neste último particular, há motivo para reflexão. Não sobrecarregar a consciência, dela o pensamento, com ociosidades, espírito optimista que rejeita afligir-se antecipadamente e morrer de véspera como peru natalício constituem dietas mentais que não entopem artérias.
É também dito da brasileira falecida ter optado por quotidiano alimentar saudável – pequeno-almoço de café, pão, fruta e chá com linhaça. Ora, tenho para mim, que a metade dos portugueses que este Verão, pela falta de pecúlio, não goza férias ou fica em casa ou pede abrigo a familiares doutros sítios para mudança de lugar, luta por alguma saúde económica e longevidade assisada. Razões: falta dinheiro para cervejas, vinhaças e almoços empanturrados seguidos de sesta anestésica que atafulham estômago e o músculo cardíaco, carvão pra grelhados mais barato do que energia comprada à EDP ou que gás encanado.
Claro que o Algarve, malgré promoções tentadoras, ficará mais tranquilo que o costumado – os autóctones melhoram a qualidade de vida sem hordas de turistas nossos e dos carregados em aviões vindos de fora. A economia do sul marítimo e aqueles que dela dependem terão agruras novas; todavia, das agressões ambientais causadas pelo péssimo ordenamento do território algarvio, da pelintrice internacional cedo ou tarde sofreria.
CAFÉ DA MANHÃ
Adoçantes
Peregrinando
Brasileiros