Terça-feira, 7 de Janeiro de 2014

O ELOGIO DOS LICEUS

 

 

 

Christian Birmingham                                                                                           Lori Preusch

 

 

Norman Rockwell, 1967

 

Os nascidos após a última metade dos sessenta perderam a gloriosa era dos liceus. Sítios de muros altos, é certo, antigos conventos, quantos deles, edifícios do regime, outros tantos. Traças várias. As do Estado Novo, entregues a arquitetos descompassados da ideologia vigente. Modo outro do Poder afirmar o que não era: liberal.

 

As escolas técnicas e os liceus não eram lugares inóspitos confinados à transmissão de conhecimentos dos ‘Senhores Professores’ – «stôres» não existiam - aos inocentes pupilos. Possuíam recantos de mistério – as majestosas salas dos docentes, lugares ocultos nos jardins, portas cujo ranger dos batentes ninguém ouvia. Outros havia que maravilhavam os novatos: as bibliotecas, os laboratórios e os museus de Ciências Naturais. Nas primeiras, perfilavam-se obras, muitas desalojadas dos conventos pelo Marquês. Nos segundos, as ardósias polidas aguardavam a sábia mistura dos reagentes alinhados nas prateleiras-ponte. Nos últimos, a par das coleções de mineralogia e geologia, vigiavam as entradas esqueletos, bichos embalsamados ou em conserva no clorofórmio.

 

Nos liceus de antanho, merecem destaque os anfiteatros para projeção de filmes – respeitosa festa de exceção para os alunos que obtinham o almejado e raro estatuto de espectadores. Estavam dotados com funcionários suficientes. Não faltavam ginásios encerados, com espaldares, colchões e trampolins. Os balneários cheiravam a limpo de manhã, a miscelâneas de suores do meio do dia em diante. Havia circulações exteriores, como nos claustros conventuais, protegidas das chuvas e dos ventos. Possuíam árvores frondosas nos pátios. No Verão, eram lugares frescos. Os pavimentos e as paredes lisas brilhavam. Os animadores do rádio/liceu, pela música, esbanjavam sonhos e irreverência nos intervalos entre aulas. Porque femininos ou masculinos na maioria, os sonhos saíam ao tocar a campainha e rumavam, inteiros, até ao leve roçar do aroma e pele de quem, a prudentes metros, esperava e vinha do liceu oposto em género na frequência e no nome. O ensino, rígido, fundamentado na memorização e obediência cega, incluía civilidade e ética segundo os estreitos padrões do tempo. A sexualidade era aprendida por cochichos.

 

Quem nasceu depois de setenta reteve memórias da escola secundária, em tudo diferente de um liceu. Setenta e sete por cento do parque escolar nascido a partir daquele período, é constituído por pavilhões. Arquitetura, as mais das vezes, importada ao metro quadrado. Escolas há, no lado Sul do Tejo, que previram esconsos para alojar os skis. Cada pavilhão está centrado num átrio coberto por claraboia onde o sol, no zénite, incide na perpendicular. 60º Celsius no pino do verão. No descabelo do inverno, para circular de uns para os outros, comuns engarrafamentos de chapéus-de-chuva onde a lama pontifica.

 

Em Lisboa, liceus como o Passos Manuel*, o Pedro Nunes, o Rainha D. Leonor e outros foram mimados com obras estudadas detalhadamente por equipas de arquitetos de nomeada. Tempo houve em que a empresa pública 'Parque Escolar' não poupou no essencial: devolver-lhes a merecida dignidade de património físico com história. Outros vetustos edifícios, que honradamente serviram sucessivas gerações de alunos, aguardam idêntico renascer.

 

* Não será pelo antigo preceito do uso de fato e gravata que o Passos Manuel, fica na história, mas como marco na democratização do ensino liceal lisboeta. Acolhia alunos dos arrabaldes e da margem Sul, por isso não granjeando a fama elitista do Pedro Nunes. Na época, o Passos Manuel era a ponte para outra margem: a da ascensão social.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:50
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