Quarta-feira, 24 de Outubro de 2012

ERAM HORTAS, SENHOR!

Lorie Merryman

 

Eram hortas, Senhor, eram hortas servidas por abrigo improvisado de alfaias modestas para agricultura de primícias e outra de sobrevivência. Em quase todas, o zelador instalara em solos desocupados pelo betão memórias do passado rural antes de ser transplantado para o trabalho escravo em Lisboa. Habitando perto e sendo ameno o tempo, três ou quatro dias por semana regava, subtraía ervas daninhas, um nico de adubo que não estragasse a pureza do que terra fértil produz. Na altura da colheita, diria orgulhoso: _ cultivado pelas minhas mãos e sem as porcarias do vendido nos superes. Ao sétimo dia, zelador e «esposa» retiravam da casita feita de chapa e madeiras velhas cadeiras bancas e descansavam.

 

No estio, dos assentos protegidos por guarda-sol enferrujado nas bordas viam o domingo dos outros. Zumbiam automóveis na via rápida a dois metros como se receassem que a praia ou o ‘passeio dos tristes’ fugissem. O casal era feliz gozando a beleza verdejante da horta que espantalho enfeitava mais que cumprir a função de proteger o que crescia empoeirado. Conversavam sobre a vida, sobre o deixado para trás: _ como estará a prima Justina? Será que o neto já nasceu? É verdade que a horta dela no Freixo é maior, mas olha que cuidada como a nossa não deve estar. Hoje, só nos faltam os netos. Gostam tanto de vir para aqui os meninos! Mas deixa lá que também merecemos estar sozinhos depois da semana a tomar conta deles. Chegada a hora de voltar a casa, eram arrumados os pertences, colhidas alfaces e tomates, feijão-verde e ameixas. Dariam para sopas e acompanhamentos.

 

Bill Fogé

 

Nem dois anos passados, o desemprego empurrou o filho, a nora e os petizes para o apartamento na Ajuda onde viviam os pais. Paredes com quarenta anos sem terem visto tinta que as alindasse, uma sala, uma casa de banho em que lavrava a ferrugem, dois quartos exíguos, cozinha para estrelar um ovo de cada vez. Lá se enfiaram como foi possível, misturaram os tarecos das duas famílias. A breve trecho, a coabitação forçada deu em discussões pelo tudo em falta, pelo nada de esperança. Ida a paz, vinda a míngua rezingona.

 

Os pais, temendo o pior na família do filho, pelos netos e por cansaço de fim de vida tão custoso, com lágrimas optaram por habitar a casa da horta. Uns arranjos - telhado mais sólido, duas janelas encontrados nos desperdícios de remodelações, alfaias a um canto, móveis no outro – e o espaço tornou-se habitável. Vizinhos da horta, aos poucos, pontapeados para o mesmo. Nem um ano mais, e, feito de tristeza, bairro de lata viria a nascer no lugar onde felicidade morara.

 

Nota: texto publicado em "Escrever é Triste"

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 11:24
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Quinta-feira, 4 de Agosto de 2011

O SENHOR MÁRIO E A CUIDADORA-MOR

Lorie Merryman, Max Jacquiard

 

O Senhor Mário, cinquenta e três anos em corpo alto e ágil, bem apessoado, é jardineiro da Câmara. Terminado o horário estabelecido, é agricultor em propriedade extensa e alheia da qual recolhe lenha para a lareira, outros produtos do que existe, do que semeia e planta. Acumula com a tarefa de jardineiro da família proprietária do solo agrícola que cultiva, com a de cuidador doutra casa antiga, mesma pertença. Até este ano, era jardineiro segundo. A família promoveu-o a primeiro e único.

 

Porque de ano a ano os donos regressam à casa da Beira, conquanto na dúzia de meses menos um, abundem telefonemas, o Senhor Mário decidiu fazer contas anualmente. Hoje, após instantes pedidos, anuiu ao pagamento. Cinquenta euros, afirmou ser o total perguntando, de caminho, se eram aceites duas sacas de batatas e umas garrafas de azeite, tudo provindo da quinta por conta. Boquiaberta, a pagadora pôs-lhe na mão o dobro sentindo-se ainda em dívida. Reclamou que não, que era excessiva a quantia, Na partida rumo à Grande Alface, outro tanto lhe pagará sob pretexto que não tarda. Pela amizade antiga, o Sr. Mário e a “minha senhora” como gosta de chamar à mulher e companheira de muitos anos, fazem parte da família cujos haveres beirões zela.

 

Anteontem, acompanhou carpinteiro eficiente para tirar medidas a janelas, portas e portadas da casa aldeã há quinze anos desabitada. Gelos e estios extremados, mais a falta de uso, deterioraram irremediavelmente exteriores. O soalho feito de sólidas tábuas que forra jardim de Inverno, sala, escritório, ex-capela e a meia dúzia de quartos continua firme, bem como a escadaria para o andar de cima construída em madeira diferente. Urgência: barrela e cera abundante. Terreno em socalcos, sobe depois em pinhal entremeado por penedos. Os muros mais não são que pedaços de granito amontoados onde musgo habita. Vista deslumbrante sobre a montanha desde o lagar «na loja» até às águas-furtadas.

 

E a cuidadora-mor deleita-se a cada visita, franze o sobrolho perante o escândalo do orçamento apresentado pelo carpinteiro – poucos ‘Mários’ existem sobre a Terra e ainda bem ou a ruína do negócio pairaria –, sonha com permanência de meses não na casa principal, mas na que se propõe restaurar e foi, também, idílico cenário de férias na infância.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:23
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Sexta-feira, 8 de Julho de 2011

ACERCA DE SILVEDOS E GALO COM NOVA CANTORIA

Lorie Merryman, Philip Howe

 

Quem ama a descoberta dos nossos recantos mais ignotos, quem não troca por turismo de plástico exterior descobrir quilómetro a quilómetro Portugal, tem inevitável desgosto pelo abandono dos solos agrícolas onde a vista se perde. A desertificação é facto impressivo; causas conhecidas. O litoral ajouja com gente vinda do interior, expulsa pela pobreza ou à cata de trabalho nos serviços e empresas. Passado o tempo d’ouro em que a Europa nos enchia cofres não aproveitados com racionalidade pela visão lúcida do longo prazo nacional, o desemprego e a pobre qualidade de vida sobrevieram para aqueles migrantes. Entretanto, ficaram improdutivos os campos, pasto para incêndio as florestas por cuidar, instalada a dependência dos bens alimentares importados.

 

Tivéssemos investido na mecanização agrícola, adaptado culturas a cada região, fundado cooperativas fortes nas mãos dos produtores que garantissem o escoamento directo das colheitas para o consumidor, o galo cantaria de outro modo. Feneceriam os intermediários safardanas que se aproveitam do pântano onde se debatem os agricultores.

 

Mas estamos a tempo. Copiar boas práticas é prova de inteligência. Aliando o gosto de reflectir sobre o defendido por quem nas diversas matérias prova saber mais, o exemplo nórdico merece ser pensado. Por lá, inexistentes campos onde o silvedo invade cada metro quadrado. Simples a solução tomada: proprietário que não trabalhe a terra é taxado duramente. Incomportável o pagamento do imposto, é confrontado com a necessidade de vender. Compra quem se dispõe a rentabilizá-la. Apoiados através das cooperativas, vendem directamente às grandes superfícies. Sendo preferencial a produção interna nos abastecimentos, lucra o agricultor, o povo que consome, o país. E, em vez de cemitério de velhos desamparados, penedos carecas, manter-se-ia vivo o interior rural, convenientemente apoiado ao nível da saúde e da educação. Utopia? Nem um pouco! Se com meia dúzia de meses de gelo por ano é possível, porque não neste mediterrânico clima?

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:52
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