Quarta-feira, 13 de Novembro de 2013

FRANCIS BACON, LUCIAN FREUD, EDWARD MUNCH E A DINHEIRAMA NOS LEILÕES

 

Francis Bacon – Three Studies for a Portrait of  Lucian Freud

 

Do ontem tardio, costumo saber pela alvorada. Bebericando chá verde, vigio o amanhecer e ouço as primeiras atrasadas. Intervalo o estado de sentinela com café doméstico ao abrir-me para as novas do mundo. E soube. Entre muitas que de repetidas cansam. O tríptico “Três estudos de Lucian Freud” do pintor irlandês Francis Bacon mantido em privado durante 45 anos fora arrematado no leilão da Christie's, em Nova Iorque, por 142,4 milhões de dólares (106 milhões de euros). Após seis minutos de licitação emotiva que deitaria a perder transmontana pacífica, ultrapassou o recorde atingido pelo “Grito de Munch” (119 milhões de euros). Lembrei o meu naufrágio nos sentimentos contraditórios na exposição de Bacon em Serralves correndo o ano de 2003.

 

Francis Bacon, descendente colateral de Francis Bacon, filósofo que deu brado no período «Elisabetano», na infância, era garoto asmático brutalmente educado(?) por um pai que entendia enxertos de chicote como método pedagógico para do petiz ‘fazer homem’. Não surpreende o desprezo que desenvolveria pela Irlanda onde nasceu em Dublin, a 28 de outubro de 1909. Neste desdém, muito bem acompanhado por Oscar Wilde e James Joyce. A brutalidade de que foi vítima e própria do mundo da época, conferiria ao seu trabalho rápida passagem da influência de Rembrandt para uma pesquisa grotesca, audaz, austera. Tendo a mania de destruir muitos das suas obras primeiras, pouco exemplares existem, maioritariamente em museus americanos e europeus.

 

Parte substantiva das pinturas de Bacon exibem figuras desoladas, enredadas em construções geométricas e cores violentas, sugerindo na fluidez dos óleos sentimentos exacerbados como a raiva, o horror, a degradação. Nos últimos retratos, alivia o colorido, se bem que extremos de distorção persistam.

 

Informa uma «Wiki»: “A sua primeira exposição individual na Lefevre Gallery, em 1945, provocou um choque e não foi bem recebida. Toda a gente estava farta de guerra e de horrores, só se falava da "construção da paz" e as imagens de entranhas dos quadros de Bacon, com os seus tons sanguíneos, provocaram mais repulsa do que admiração. Como homem do seu tempo, Bacon transmitiu a ideia de que o ser humano, ao conquistar e fazer uso da sua própria liberdade, também liberta a besta que existe dentro de si. Pouca diferença faz dos animais irracionais, tanto na vida - ao levar a cabo as funções essenciais da existência como o sexo ou a defecação - como na solidão da morte; representando o homem como um pedaço de carne.”

 

Bacon, finado em 1992, e Lucien Freud eram amigos e cúmplices. Poucos eram os dias em que se não viam, ora jogando, bebendo no Soho ou pintando-se mutuamente.

 

Neste leilão, porque superado o valor de “O Grito de Munch”, apetece saber além da pintura mais vezes roubada no mundo (...)

 

Nota: texto publicado na íntegra aqui

 

CAFÉ DA MANHÃ

  

publicado por Maria Brojo às 11:01
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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

VESTIDO DE NEGRO

Timothy Kou, Bruce Huffman

 

Somente hoje, consigo referir o caso. De «psi» nada tenho e também por isto me custa digerir o acontecido. Até onde o desequilíbrio humano chega, é inquietação que me perturba. Tolhe-me o pensar e as teclas se interpretar quisesse.

 

“Vestido de negro da cabeça aos pés, entra no snack-bar de paredes garridas do casal ucraniano e pede um bitoque para almoço. Meia dose, que não está com muito apetite. Por esta altura já os corpos de Benvinda, a mulher, Cátia, a filha de 28 anos, e Maria, a neta de cinco, jazem há vários dias sem vida na vivenda que lhes tem servido de casa nos últimos anos. Como não o conhecem por aqui, ninguém lhe estranha a cor da farpela. Francisco Esperança insiste em comer ao balcão em vez de se sentar à mesa e vai emborcando cervejas umas atrás das outras. Um cliente habitual da tasca, Carlos Paquete, conta seis. Um dia depois ainda lhe martelam na cabeça as palavras do outro: "Sabe quanto tempo tenho de vida? Três meses. Tenho um cancro nos intestinos que alastrou aos pulmões. É por isso que estou a beber. Prefiro viver dois meses à minha maneira que os três que os médicos me deram de vida". Não fala nunca na família.

"Teve um comportamento normal, simpático", recorda Carlos. Só quando vê as imagens televisivas de Francisco a sair de casa em tronco nu, algemado pela polícia, Carlos Paquete descobre que o desconhecido que meteu conversa com ele escassas horas antes é o principal suspeito do crime mais macabro de que Beja tem memória. Os corpos das duas mulheres e da menina de cinco anos foram desfeitos com uma catana. Nem os animais domésticos, o cão e um gatito, escaparam à fúria do homicida. Só quando vê as imagens Carlos percebe que as calças, as camisas e o blazer negro do antigo funcionário bancário eram, afinal, de luto.


Família problemática


À porta do tribunal de Beja, algumas dezenas de pessoas esperam a chegada de Francisco, que passou a noite nos calabouços depois da descoberta dos três cadáveres. A cidade está em estado de choque - não se fala noutra coisa. Toda a gente viu o homem de 59 anos a cirandar por ali nos últimos dias, a fazer as coisas que sempre tinha feito. A beber demais como nunca tinha conseguido parar de fazer, por muito que tivesse tentado. Era o seu pecado - até agora só lhe conheciam esse e mais o do desfalque, e esse tinha passado tanto tempo que até quase já se havia tornado motivo de galhofa.


Há 20 anos, quando trabalhava no Crédito Predial Português, fugira com 35 mil contos (175 mil euros). Acabou por se entregar depois de andar anos escondido, e até o curso de Direito conseguiu tirar na cadeia. Quando o libertam, a filha já se tornou adolescente. Bonita e namoradeira, acaba por ser mandada estudar para Lisboa. Anda cá e lá. Também viaja com o pai até ao Algarve, onde a família tem uma loja. Engravida. A família resguarda-se, não dá confiança a ninguém, mas os testes de paternidade acabam por ser motivo de falatório: "Deram todos negativo".

Homem de poucas falas, excepto quando bebia, Francisco não era tido como maupai de família. Uma sobrinha sua que mora na Amadora, em casa de quem ficou várias vezes quando ia fazer tratamentos ao Instituto Português de Oncologia, dá uma resposta enigmática quando se lhe pergunta sobre o tio: "Toda a vida tem sido uma peste. Era bom marido e bom avô".

Quando lhe nasceu a menina de paternidade incerta, Cátia voltou a morar com os pais na pacata vivenda da Rua de Moçambique, onde todos se recordam de ver Francisco a passear com a neta no ameno jardim pegado às moradias. "Sempre apoiou a filha solteira", recorda um vizinho, Ricardo Maio. Também por isso, a vizinhança nunca soube as razões de a rapariga se ter atirado da janela do segundo andar abaixo, vai para pouco mais de um ano. "O pai embebedava-se, a filha tentava matar-se. Era uma família um pouco problemática. Mas nunca notámos nenhuns sinais de violência", diz o mesmo vizinho.”

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 11:19
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