Quinta-feira, 10 de Maio de 2012

LAMBIDO O SAL DO COPO

Autor que não foi possível identificar

 

   Podia não ter sido cabra. Mas queria. Foi. Havia escrito o guião do a seguir. Odiava a injustiça. Mais ainda quando de si dava o melhor. Que a condenassem por maus desempenhos, aceitava. Não que precisasse do juízo alheio pela consciência, trabalhada com cinzel implacável no desbaste da matéria bruta, que esculpia dura crítica para si reservada.

   Ao snobismo dos emergentes estava habituada. Que se contivessem. Que não fossem biltres. Que não reproduzissem, pior, o André Cavaleiro descrito na “Ilustre Casa de Ramires”. Podiam agitar as crinas das excelentes montadas «bê emes», «audis» ou topos de gama. Surdamente, repetia com o Eça:
_ Que diabo!, não encontram outro lugar para “encaracolar a pileca”?

  Mesmo quando a pileca tinha cilindrada a menos para ego a mais, o encaracolar irritava-a _ a meia-tigela pretensiosa é tão execrável como a tigela inteira desmentida pelo estar. Andrés Cavaleiros abundam nas artes e ofícios. Identificava-os para cima de um par de léguas bem medidas.

   Sabia ao que ia. Era de artes a noite. Ambiente restrito. Jantar sem história. Medíocre _ obviamente pelintras os acenos das postas de pescada. Cavaqueira depois. Haveria copos e charros passando de boca em boca. Haveria arrotos intelectuais. Básicos da Zara na forma de dizeres. Tudo ouviria lembrando a noite em que fora anfitriã abusada por convidados. Supostos polidos inteligentes e que ignorava burgessos. Logo ela, tão reservada no franquear da porta do apartamento, admitira conhecidos amigos de amiga. Desgraçaram-lhe o serão. Às cinco da manhã, Andrés Cavaleiros saídos, ainda enfiava copos na máquina da loiça e desfazia detritos coisas e mentais. Biltres até nos vestígios.

   Colou à pele dourada brilho e, bem acima do joelho, plissado castanho. Enfiou os pés nas chinelas com saltos himalaicos. No saco mais que mala, pesos ociosos, indispensáveis. Também, enrolado, tapa frio mínimo. A disposição guerrilheira da alma na forma de sorriso e cabelo e unhas cuidadas. Máscara deliberada. Odiava-se naquele modo. Mas era chegado o tempo de tirar do frio o copo gelado onde verteria dignidade e orgulho que, no desempenho da anfitriã perfeita, não lhe havia sobrado disposição para encher.

    Improvisou – detestava obedecer a planos de autor, mesmo sendo dela os direitos (i)legais. Falaram de pintura. Com perversidade e meia dúzia de lérias, derrotou a superficialidade dos que recebera com afabilidade genuína. Mencionaram museus. Cidades repartidas pelo mundo. Conhecia-os e conhecia-as melhor. Podiam ter escolhido referências, e tantas havia!, que ignorava. Mas os melros que eles vomitavam punham-se a jeito dos tiros. Dela. Não falhou um. Quando ferida injustamente, afinava a pontaria que no quotidiano esquecia.

   Lambido o sal do copo, abandonou-os. Sabia terem visitado a performance/instalação duma Luísa outra que desconheciam. Que existia.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 12:21
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