Quinta-feira, 25 de Setembro de 2014

A LÍNGUA DELES

 

 

John Woodrow Kelley

 

Por que é o tempo masculino? Pelos trovões, pelos relâmpagos, pelos furacões, pelo inesperado mau humor dos ventos, pelo ódio à doce calmaria? A Primavera, a brisa, a neve de imaculada brancura, a limpa madrugada, a manhã, a tarde, a cumplicidade da noite, as doçuras da meteorologia são femininas. O estafado destino das mulheres de há muitas gerações atrás passou pelo lixo, pelo pó, pelo aspirador, pelo balde e esfregão, pelo fogão e pelo ferro de engomar. É deles, o café enquanto lêem o jornal no sofá, à beira da mão o comando da televisão. Para que a tranquilidade enlace homens e mulheres, não seja lido sexismo nos estereótipos descritos. Osexo não possui feminino. O prazer, o orgasmo, os preliminares são masculinos. Porém, o que fariam os homens heterossexuais sem mulher que na roleta prévia criasse apetência pela deliciosa brincadeira?

 

Dizemos um oceano, um mar, um rio, mas, quando o acidente acontece, a esperança na salvação acompanha o último suspiro. E se a razão do drama foi acaso ou erro humano, sendo a mulher responsável, nós diríamos tudo não ter passado duma pouca sorte fortuita. Homem, desencadearia coriscos, vernáculos e, porque não?, punhos cerrados. É que se a lógica e a intuição são nossas, o casamento ou o divórcio é deles; já a pensão de alimentos, as crianças e a casa ficam, na generalidade, connosco. Convenhamos: a língua portuguesa foi madrasta para os homens.

 

(Adaptação livre que fiz de “La Grammaire")

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:27
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Sábado, 31 de Maio de 2014

ENTREGA OS LÁBIOS AO POEMA

 

Sung Jin Kim                                                                                                                             Autor por identificar

 

Maquilhadora britânica, ao serviço de Giorgio Armani, afirma crescer o número de mulheres que pintam de vermelho os lábios. Reação inconsciente à crise social assentada na economia e nas finanças mundiais. Diz que o mesmo aconteceu no após 1929, também chamada Grande Depressão. Depressões, ruína económica ou financeira foram, nalguns países, fatores que insuflaram a ascensão de regimes de extrema-direita. O regime nazi de Hitler, como exemplo. Pelos afundamentos anteriores, milhões de pessoas ficaram no desemprego. Finado o salário, perigou o sustento familiar. As habitações, como hoje, maioritariamente pagas através de rendas aos bancos e a particulares. Consequência: milhares de famílias expulsas das paredes/lar, a subnutrição como denominador comum nos países mais atingidos. Milhares de mortos por falta de alimentos.

 

Lábios acetinados por batom de cor viva indiciam momentos históricos de viragem. A Estée Lauder lembra aumento nas vendas dos batons carmim após o 11 de Setembro. Equivalente acontecido após a Segunda Guerra Mundial. Nos rubros lábios, a aventura dos versos de José Rui Teixeira, poeta que cruza nas palavras filosofia e teologia. Gesto nostálgico cheio de poesia, lábios sobre os quais morrer.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:04
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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2013

COGITAVA: _ HOMESSA!

 

Carole Perret

 

Crescer. Continente e conteúdo. Crescimento do espírito tem etapas desfasadas dos alvores da dentição, do controle do esfíncter, da mobilidade, menarca e menopausa (a andropausa é tida como difusa e dela se discute a existência). Tudo muito regulado, científico, estudado, dissecado e analisado. Escapam, ainda assim, as aprendizagens, as emoções e a versatilidade mental, sabidas que são avançadas descobertas nestas fluidas áreas do ser. O António Damásio cartografa, como poucos, os circuitos biológicos regulados por misteriosos reóstatos alojados nas entranhas cerebrais.

Não sei em que momento desisti de ser pintora, "de retratos", acrescia, não julgasse o ouvinte que baldes de tinta e paredes eram a minha tendência. Eu lá sabia, catraia pequena, que a excentricidade das gentes pode ser muita. Não me enganava. Da minha criação, muitas teimavam virem a ser artistas de cinema, cantoras, bailarinas, médicas e até freiras. Esta foi opção que jamais na minha «despassarada» cabeça alguma vez pousou, malgré, o lamento familiar:

_ É a primeira geração em que consagrada a Deus não abençoa a família! Temos de nos conformar.

Cogitava:

_ Homessa! Tenho lá culpa de tanta consagração não ter permitido rebentos além de mim?

Nem nos meus delírios maiores imaginava olimpos a consagrarem-me. Histórias dispersas por contas de vários rosários.

No presente, as crianças querem ser jogadores de futebol e manequins. Mais coisa, menos coisa, a substância é a mesma: –riqueza e fama. Os adultos no (des)encanto dos «inta» e «enta», dos sonhos não desistiram. Na verbalização são contidos ou romanceiam ou rodeiam o cerne da questão em tudo semelhante aos sonhos dos mais pequenos. Eles ambicionam ser comentadores políticos ou desportivos na televisão o que vai quase a dar no mesmo, devidas sejam as diferenças nos campos e nas bolas em jogo. Desejam destaque, poder que permita deslumbrar os vizinhos do rés-do-chão e as garotas em idade legal para treinos e debates horizontais.

No feminino, para lá da saúde de todos e dos filhos em particular, o que elas querem mesmo é uma de duas coisas:  livrarem-se do marido, se enfastia, ou compatibilizá-lo com romance e frisson erótico. Fora de casa, claro, que portas adentro é a ternura, a lingerie com fios pendentes, a doçura, o pijama e o afecto; são as birras, as férias e os rituais de família, os amuos e as molas no cabelo.

Fazemos quase tudo como quase todos eles. Porém, o erotismo do poder da bola política e do futebol diz-nos pouco. Admitamos faltar-nos pressuposto: tempo no sofá para zapping orgástico .

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:52
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