John Woodrow Kelley
Por que é o tempo masculino? Pelos trovões, pelos relâmpagos, pelos furacões, pelo inesperado mau humor dos ventos, pelo ódio à doce calmaria? A Primavera, a brisa, a neve de imaculada brancura, a limpa madrugada, a manhã, a tarde, a cumplicidade da noite, as doçuras da meteorologia são femininas. O estafado destino das mulheres de há muitas gerações atrás passou pelo lixo, pelo pó, pelo aspirador, pelo balde e esfregão, pelo fogão e pelo ferro de engomar. É deles, o café enquanto lêem o jornal no sofá, à beira da mão o comando da televisão. Para que a tranquilidade enlace homens e mulheres, não seja lido sexismo nos estereótipos descritos. Osexo não possui feminino. O prazer, o orgasmo, os preliminares são masculinos. Porém, o que fariam os homens heterossexuais sem mulher que na roleta prévia criasse apetência pela deliciosa brincadeira?
Dizemos um oceano, um mar, um rio, mas, quando o acidente acontece, a esperança na salvação acompanha o último suspiro. E se a razão do drama foi acaso ou erro humano, sendo a mulher responsável, nós diríamos tudo não ter passado duma pouca sorte fortuita. Homem, desencadearia coriscos, vernáculos e, porque não?, punhos cerrados. É que se a lógica e a intuição são nossas, o casamento ou o divórcio é deles; já a pensão de alimentos, as crianças e a casa ficam, na generalidade, connosco. Convenhamos: a língua portuguesa foi madrasta para os homens.
(Adaptação livre que fiz de “La Grammaire")
CAFÉ DA MANHÃ
Sung Jin Kim Autor por identificar
Maquilhadora britânica, ao serviço de Giorgio Armani, afirma crescer o número de mulheres que pintam de vermelho os lábios. Reação inconsciente à crise social assentada na economia e nas finanças mundiais. Diz que o mesmo aconteceu no após 1929, também chamada Grande Depressão. Depressões, ruína económica ou financeira foram, nalguns países, fatores que insuflaram a ascensão de regimes de extrema-direita. O regime nazi de Hitler, como exemplo. Pelos afundamentos anteriores, milhões de pessoas ficaram no desemprego. Finado o salário, perigou o sustento familiar. As habitações, como hoje, maioritariamente pagas através de rendas aos bancos e a particulares. Consequência: milhares de famílias expulsas das paredes/lar, a subnutrição como denominador comum nos países mais atingidos. Milhares de mortos por falta de alimentos.
Lábios acetinados por batom de cor viva indiciam momentos históricos de viragem. A Estée Lauder lembra aumento nas vendas dos batons carmim após o 11 de Setembro. Equivalente acontecido após a Segunda Guerra Mundial. Nos rubros lábios, a aventura dos versos de José Rui Teixeira, poeta que cruza nas palavras filosofia e teologia. Gesto nostálgico cheio de poesia, lábios sobre os quais morrer.
CAFÉ DA MANHÃ
Carole Perret
Crescer. Continente e conteúdo. Crescimento do espírito tem etapas desfasadas dos alvores da dentição, do controle do esfíncter, da mobilidade, menarca e menopausa (a andropausa é tida como difusa e dela se discute a existência). Tudo muito regulado, científico, estudado, dissecado e analisado. Escapam, ainda assim, as aprendizagens, as emoções e a versatilidade mental, sabidas que são avançadas descobertas nestas fluidas áreas do ser. O António Damásio cartografa, como poucos, os circuitos biológicos regulados por misteriosos reóstatos alojados nas entranhas cerebrais.
Não sei em que momento desisti de ser pintora, "de retratos", acrescia, não julgasse o ouvinte que baldes de tinta e paredes eram a minha tendência. Eu lá sabia, catraia pequena, que a excentricidade das gentes pode ser muita. Não me enganava. Da minha criação, muitas teimavam virem a ser artistas de cinema, cantoras, bailarinas, médicas e até freiras. Esta foi opção que jamais na minha «despassarada» cabeça alguma vez pousou, malgré, o lamento familiar:
_ É a primeira geração em que consagrada a Deus não abençoa a família! Temos de nos conformar.
Cogitava:
_ Homessa! Tenho lá culpa de tanta consagração não ter permitido rebentos além de mim?
Nem nos meus delírios maiores imaginava olimpos a consagrarem-me. Histórias dispersas por contas de vários rosários.
No presente, as crianças querem ser jogadores de futebol e manequins. Mais coisa, menos coisa, a substância é a mesma: riqueza e fama. Os adultos no (des)encanto dos «inta» e «enta», dos sonhos não desistiram. Na verbalização são contidos ou romanceiam ou rodeiam o cerne da questão em tudo semelhante aos sonhos dos mais pequenos. Eles ambicionam ser comentadores políticos ou desportivos na televisão o que vai quase a dar no mesmo, devidas sejam as diferenças nos campos e nas bolas em jogo. Desejam destaque, poder que permita deslumbrar os vizinhos do rés-do-chão e as garotas em idade legal para treinos e debates horizontais.
No feminino, para lá da saúde de todos e dos filhos em particular, o que elas querem mesmo é uma de duas coisas: livrarem-se do marido, se enfastia, ou compatibilizá-lo com romance e frisson erótico. Fora de casa, claro, que portas adentro é a ternura, a lingerie com fios pendentes, a doçura, o pijama e o afecto; são as birras, as férias e os rituais de família, os amuos e as molas no cabelo.
Fazemos quase tudo como quase todos eles. Porém, o erotismo do poder da bola política e do futebol diz-nos pouco. Admitamos faltar-nos pressuposto: tempo no sofá para zapping orgástico .
CAFÉ DA MANHÃ
Adoçantes
Peregrinando
Brasileiros