Sábado, 8 de Junho de 2013

SEM CUCO A MARCAR HORAS

 

Mariola Bogacki

 

Sei que estás aí e me entendes os silêncios. Adivinho-te perplexo quando abres as minhas contradições. Concentrado quando estendes letras como se foram mãos. Dedos em terno passeio pelos meus ombros. Nas referências breves que fazes ao corpo que me dá forma, a boca nunca constou. Curiosa omissão. Aprazível diferença. Pela boca muito começou e acabou. Quando comecei a tornar-me mulher, reinava o estereótipo da fragilidade feminina. A distância entre os ombros devia ser pequena. Do pescoço até eles, o ideal de beleza estabelecia inclinação. Que não tinha. Por isso a mãe meneava um não se um casaco os revelava direitos. Assentia se o corte os disfarçasse. E eu sem me importar com eles.

 

Ao perguntar “vai um desabafo?”, aceitaste-o com generosidade. Lembro-te o começo: “Que não sou «piquena» para chorar sobre leite derramado, sabes. Que não sofro de vésperas como o peru, também. Mulher de apetites ocasionais? _ Sou eu! Com razão treinada no enquadramento (i)lógico? _ OK, it's me! Que adora permutar mimos, ternura e cumplicidades? _ Je, moi même, aqui deste lado com o coração nas teclas.” Admito que o termo “ocasionais” ligado a “apetites” é ambíguo. Remete para eventualidades várias. Para imprevistos que aceito como a dose de surpresa/alimento. Esta fala contigo era inesperada. Apetite meu e teu.

 

Escreveste: “Porque é a Teresa Maria com quem quero conversar, conhecer, ouvir desabafar, e sei que a Teresa existe para que a Maria seja a Maria e a Maria existe para que a Teresa sejas tu. Daí a "minha" Teresa Maria, que és tão mais tu quanto menos eu pedir. À Teresa pedem não é? Pedem tanto que seja Teresa que a Teresa teria que deixar de ser Teresa para ser quem querem que a Teresa seja.” Resumiste na perfeição. Aqui reside o nó que aperta a rede. Que aceito e rejeito. Pendulo como um relógio a que só falta o cuco que canta horas. E nem sou cuco, nem periquito, nem canário. Apenas rola que gosta de voar.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:56
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Quinta-feira, 18 de Abril de 2013

ENTRE NÓS

 

Mariola Bogacki

 

Não sei se me pertence algum merecimento ou é a saudade de quem está longe do país a pedir alívio. Pouco a razão importa quando constato chegarem a díspares sítios no mundo os elos criados através do fumo desta chaminé. Deste blogue tenho recolhido afeto e retorno que jamais ao rabiscar os primeiros textos idearia. Surpresa boa. Um dos prodígios das «redes». E se nelas encontram abrigo mercadores de almas, larápios, cabotinos ou escroques, nunca os lobriguei quando nesta «rede» bambaleio. Pelo dito, não decorra candura patética. Filtro o possível e do tempo espero decantação fina. O método não me tem traído.

 

Noutras «redes» há o sabido: pornografia, fantasias e sexo, tórridos (des)amores que acabam em dilúvios de lágrimas e furacões de arrependimentos. Outras ainda satisfazem a curiosidade pelo conhecimento novo de que precisa o evoluir do espírito – sem elas, como remediar, no instante preciso, uma ignorância incómoda? Viciantes todas, se a determinação pessoal deixar lasso o freio. Porque o percurso dos humanos não tem nos saberes a prioridade de vida, os afetos e o trabalho que apaixona são, afinal, o que de melhor trazem os dias.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:50
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Terça-feira, 29 de Maio de 2012

RATOS E TECLAS

Mariola Bogacki

 

“O avanço da tecnologia assusta gerações. Por ciclo terrestre, é sabida a cantilena de pais preocupados com os filhos que, cada vez mais cedo, se encantam com as novidades. Atrás dos pais, vêm os psicólogos apregoando os perigos que as crianças correm com as tecnologias. Pode não ter filhos, mas conhece alguém que tem criança pequena e fica espantado com a rapidez com que esses jovenzinhos se mostram habilidosos com as novas máquinas. O iPhone, como aparelho relativamente revolucionário e padrão perseguido por quase todas as fabricantes de telemóveis, é a bola da vez. 

 

Crescendo nos anos oitenta, sou da geração em que a televisão e os videogames eram máquinas que destruiriam a infância transformando-nos em adultos incapazes de nos comunicarmos ativamente. A profecia não se cumpriu e, ironia do destino, acabei tornando-me jornalista.

 

O debate sobre os impactos da tecnologia na educação infantil existirá sempre. Claras as opções: os pais podem escolher deixar os filhos crescerem sem regras – e nesse caso o problema não vai acontecer apenas com o uso do iPhone ou videogames ou computadores - ou podem escolher apresentar as tecnologias de maneira responsável e aprender a impor limites para o seu uso.”*

 

*Fonte que não foi possível identificar

 

CAFÉ DA TARDE

 

Tecnologia ao serviço de uma obra de Manet.

publicado por Maria Brojo às 17:29
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Terça-feira, 13 de Março de 2012

DO ORIENTE

Mariola Bogacki

 

A Bita ligou, mal era chegada do Oriente, bússola de (des)encontros,  o Carlos ausência no vaivém dramático que a distanciava do metal ido. “Leia as mensagens, por favor! Da primeira para a última. Diga-me o que devo fazer.” No táxi, ainda enjoada pela oscilação do Intercidades escolhido pelo horário, li a meia dúzia de mensagens reenviadas. Dela e dele. Proposta de encontro. O sim inesperado. “Marco, ou não?” Ele havia de acordar cedo. Ir para fora de Lisboa. A Bita de voltar aos filhos – não a preocupava o asno/ex-marido que se impunha na casa da família, fora do redil até segunda.

 

Mais de um ano contava desde a última partilha de lençóis e prazer repetido. Ainda no táxi, a fala entrecortada ao saber-se ouvida, pela censura vigilante da casa, pelo pudor, pela infinitude do desejo. Na incompreensão do diálogo, sugeri espera. “Deixe-me chegar. Leio atentamente e ligo.” recisava de entrar no lima e ameixa. De encostar frente ao Ernãni Oliveira o nada de cabina. De escarafunchar o telemóvel, durando o fumo duma cigarrilha, na espera do escalda-chávena para o descafeinado lungo. Marquei Bita.

 _ “Não fale. Diga que a convido para sair. Marque o Don Pedro. A suite, pode ser. Aquelas meias pretas com liga enfeitada por laços encarnados, que disse ter e iguais às que me deu pelo Natal. Lingerie nos mesmos tons. Espere-o com uma túnica. A de seda comprada quando a minha. Saltos altos. Madeira no perfume. Tem tantos! Nua no intervalo. Vá à casa de banho em bicos de pés. No após, ronrone. Evite perguntas. Não gere clima romântico que sabe ele temer. Grite. É estranho, mas eles gostam como carimbo do desempenho. Do seu prazer não duvido, conquanto o masculino precise de evidências supérfluas. Ridículas para nós. Que ele durma como é costume no depois. E vá e venha. O resto é consigo. “Que sim, faço e aconteço. Beijinho, minha querida.”

 

Desliguei. Olhei-me ao espelho. Eu que ao momento largo gestos e emoções, pareci-me cronista de revista feminina na coluna “Como Prendê-lo.” Não fazia a menor ideia do sucesso da receita. Sabia-me espontânea e incapaz de obedecer a normas. Porém, dos anos multiplicados em intimidades decantadas e alheias, retivera sins e nãos. Com amigas e confidentes, o sexo não era falado. De filhos, engravidar, gerir rotinas malquistas, inovar amores, empregadas, doenças infantis muitoouvira. Pouco de amantes, além dos filtrados que inscrevia no rol.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 11:38
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