Amy Kollar Anderson
Quando o ventre de uma mulher é lugar prenhe de vida e amor, desaba o mundo das pequenas coisas. Ao altar nobre da catedral íntima, ascendem afetos. No alvo linho, é deposta grinalda de gestos miúdos como salmo à glória do existir. Bordeja a toalha, entremeio de renda composto de ilusão, receios, mimos, desconfortos e dos «nadas-tudo» enlaçados por instantes, horas e meses. Muitos. Nove. Em semanas, trinta e oito; pouco mais, pouco menos.
Este é o tempo das ecografias arrecadas num CD. Da deteção, às doze semanas, de malformações grosseiras. De um sem-número de exames que esmiuçam o desenvolvimento da maravilha que no e do útero tem alimento e abrigo. O big-brother tecnológico espiolha, desde cedo, parcelas do crescimento celular. E é sabido o sexo do rebento. Se os pés são grandes. Se tem cabelo. Qual o peso médio ao nascer. A mãe, porque o é desde o momento da conceção, programa, assim queira, do parto os detalhes. Chama ao bendito fruto do seu ventre Manuel.
Recuando no tempo, ou tão somente das urbes que no presente centram recursos e informação, lembro as mulheres cobertas pelo pó da terra. Ventre curvado na apanha da batata ou da azeitona. Surpresas por sentirem escorrer nas pernas as águas da bolsa uterina. Mulheres cheias que contavam os dias em falta pela azáfama nas ceifas e nas vindimas. E pariam onde calhava. Embrulhada a criança no trapo à mão. As mamas escorrendo leite sorvido pelos gaiatos sem auxílio de enfermeiras experientes ou chip eletrónico no pulso.
E os garotos cresciam. E as mães engendravam outros. Pela solidariedade dos simples – tu hoje, amanhã eu -, desabrochavam vidas nos campos e lameiros. A cruel taxa de mortalidade infantil em cada seis crianças comia uma. Mas havia amor sobre a mesa e era esticado pão e caldo que a todos enganasse a sobrevivência. Para a mulher que o homem enchera, parir era dolorosa magia que multiplicava uma por dois. Como hoje. Como sempre.
CAFÉ DA MANHÃ
Adoçantes
Peregrinando
Brasileiros