Sábado, 8 de Setembro de 2012

CARTA

Mary Helmreich

 

"Ontem pelas seis da manhã, ainda escuro como breu e com chuva miúda e persistente, entrou na quinta o colaborador que me acompanharia, em jornada de trabalho pelas terras dourienses.

Perante uma Diana atónita e cheia de moleza, que lhe ladrou, preguiçosa, com o seu vozeirão de mastim e tinha atrás de si dois dos filhotes, ainda cambaleantes mas já "reguilóides" e de rosnadelas "pífias" (voz de falsete nos adolescentes humanos), saímos em direcção ao Norte, tendo eu, o que é raro, cedido o volante ao companheiro de viagem.

Cerrei os olhos e enviei-te um primeiro pensamento, imaginando-te quente, "fofa" e em suave abandono ao pesado sono da madrugada.

Rolámos em silêncio umas dezenas de quilómetros. A hora matinal do dia invernoso, sem sol a romper, escuro, frio e chuvoso não nos predispusera ainda às primeiras conversas de circunstância. Pelo rádio íamos ouvindo, distantes, a situação dos acessos a Lisboa e ao Porto e tomámos conhecimento dos dois acidentes graves, que no troço final da A1 dificultavam o trânsito.

Surgiram os MadreDeus, o Rui Reininho, o Fausto (relembrei o "Por este rio acima") numa colectânea de música portuguesa bem escolhida.

Na passagem pelo desvio de acesso a Coimbra-centro, imaginei com muita ternura a minha companheira cúmplice, nos seus verdes anos, numa Academia prestigiada, de uma Coimbra ainda sonolenta no tempo. Caloira, praxes, sobrevivência académica, momentos únicos de convívio e companheirismo, as angústias, mas a esperança inconsciente da imortalidade.

Mealhada, Águeda, Albergaria, Oliveira do Bairro, Carvalhos, antigos pontos de referência de uma viagem que era longa e onde os singelos marcos de estrada apressavam a alegria da chegada, hoje meras placas de sinalização que colocam esses lugares no recôndito da nossa memória...Como eram as igrejas?, e as tais tasquinhas que só nós e mais uma hipotética meia-dúzia de amigos conhecíamos?

O Porto austero esperava por nós. No escritório local o esmero era maior por óbvias e compreensíveis razões. Acertadas as agulhas e delineada a nossa estratégia para as conversações que iríamos manter durante o dia, avançámos...

Durante o dia estiveste presente na ausência. Enquanto no restaurante das velhas caves "Taylor" ouvia distante as vozes monótonas e ridiculamente graves dos interlocutores, o meu olhar inquieto acompanhava o rio, devassava a Ribeira em frente e imaginava-te a meu lado, serena, senhora do tempo, feliz pela  nossa solidão a dois, acompanhando a redescoberta da paisagem, a velha ponte D. Luís, as  aflorações graníticas, cinzentas e duras e sobretudo recordava a experiência recente de quanto é bom mergulhar na doçura dos teus olhos castanhos e com eles brincar ao amor.

No fim do dia, já noite, a chuva continuava, o cansaço era do tamanho do mundo e havia que voltar. O meu lenitivo eras tu... Pensei, imaginei, contigo conversei longos diálogos acerca de tudo e de nada. Numa breve paragem na estação de serviço de Pombal para um simples café, vislumbrei uma figura feminina, o coração quase que me deu um baque, momentaneamente estavas ali...nem pensei no insólito que tal seria...a silhueta...o cabelo castanho...e a figura desapareceu... ilusão visionária que me deixou, por momentos, tenso e expectante.

Em casa, cansado, sem sono, reflecti longamente até às primeiras horas da madrugada. Apoiando a cabeça nas minhas coxas, com as crias aninhadas junto à barriga soltando débeis latidos, a Diana, companheira nas minhas noites mais longas, dormia aconchegada e feliz por ter o dono a seu lado.

Se fosse no tempo em que os animais falavam e compreendiam os humanos, eu contar-lhe-ia as razões da minha insónia e dir-lhe-ia que tinha inveja dela, porque não tinha a dona do meu coração junto de mim...

Porque já é muito tarde e, finalmente, consegui escrever-te, vou ver se hoje consigo dormir...Até amanhã (até logo?)...Um grande beijo e muita saudade."

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:29
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