Quinta-feira, 31 de Maio de 2012

AOS PERUS, NÃO ÀS GENTES

Miguel Tio

       

       A Rute deixou-a boquiaberta. Antes de chegar à galeria, dia meado, fizera pausa na Brasileira para a gulodice de um café sério. Parecia adivinhar o omitido no acordar dolente.

        Atrasou o passo em mancebia despudorada com o reclinado sol de Inverno. Tejo em fundo. Trabalho em frente. A soalheira não compusera a esplanada vizinha. Mesas vagas, turistas olhando, azamboados, a pedra da calçada portuguesa, o largo do São Carlos que a luz e o azul recortavam. Sentados, executivos nostálgicos, gel esculpindo cabelos trintas, fato como embalagem apurada de seres inseguros pelos amanhãs incertos. Talvez na segunda, no regresso ao trabalho, os contratos a prazo não fossem renovados - licenciaturas aéreas não forneciam passaporte para autonomia também simbolizada pelo canto próprio que não tinham. Automóvel, sim, talvez comparticipado pelos pais. Talvez fruto de economia a prestações. Talvez parado junto de bocarra metropolitana suburbana. Símbolo de presente falso. De futuro adiado. Cama ocasional para sexo rápido. E eles ali, na sombra inútil e fria, enganavam a fome numa sanduíche arrebicada. Para entrar e ficar e almoçar no restaurante faltava dinheiro. Folga escassa era desculpa desacreditada.

         Com ela tudo fora diferente. Houvera gosto e denodo na faculdade. Leccionara parcos anos – negou o ramerrame descolorido pelo apaparica marido e adolescentes desavindos com eles, as famílias e a escola. A galeria fora conquista, conquanto suavizada pela generosa almofada dos pais. Independente desde o primeiro ordenado. Por vontade. Gerir tostões e prazeres, quanto mais cedo melhor. Voltaria ao mesmo se o tempo recuasse. Daí a comiseração pelos Ricardos Reis com gel no canto afastado do Pessoa.

        Deixou a lata nas catacumbas do Camões. Estugou o passo. Empurrou o latão polido e ouviu a cacofonia metálica que a irritara desde o primeiro ranger da porta em madeira espessa protegida por grades.

_ Tenho de calar esta geringonça.

       Espaço deserto. Da Rute não havia presença. Avançou até ao privado discreto que a abóbada do nicho, pedra de alto a baixo, disfarçava. No emaranhado do acervo a custo adquirido, viu o corpo recolhido em feto. Ouviu os soluços. Viu as convulsões do tórax. O rolo de papel de cozinha substituindo lenços assépticos. Assoou-se com ruído inabitual. Sofria.

        Em silêncio, puxou da banqueta/escadote. Sentou-se. Braço abraço subia e descia nas costas. Ergueu-lhe o rosto e, calada, inquiriu:

_O que se passa?

A fala jorrou embrulhada em lágrimas:

_O Tiago está com febre desde ontem. Queixa-se do «cocó» ao fazer chichi. A infecção urinária voltou antes de acabar o antibiótico. Telefonei à pediatra. Falou em exames invasivos. Se for preciso, internamento. Não quero o meu filho a sofrer. Só tem dois anos! Tão pequenino…

        Enxugou-lhe as lágrimas. Numa chávena com água escaldante mergulhou a saqueta do chá branco e menta. Mexeu-o até diminuir a quentura. O rosto defronte implorava palavras sábias. Que ela não tinha. Que nem conhecia. Limitou-se a transmitir experiência de mágoa feita:

_ Não sofra de véspera, minha querida. Isso acontece aos perus, não às gentes. O Tiago vai melhorar amanhã, garanto. Nenhuma maldade o seu e nosso menino irá sofrer. Quanto aposta que daqui a horas a febre baixou e ele correrá para si mal a veja entrar? Vá embora, Rute. Eu fico. Ligue. Só para vos saber melhor e confirmar a razão que me assiste.

           Sozinha, lembrou o que não queria e tinha na alma e na memória. Retomou a optimista crente e atendeu o telefone.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:14
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