Quarta-feira, 5 de Junho de 2013

DA VOX POPULI AOS ARROTOS GASTADORES

 

Mati Klarwein

 

Vox populi difunde que o Verão próximo será o mais frio dos últimos duzentos anos, intervalado por picos de quarenta e tais graus Celsius. Nos últimos dias, lugares da Índia sofreram os horrores de brasa climática atingidos que foram os cinquenta e tais. No atrasado pouco distante, o Brasil sofreu o mesmo. Por aqui, penámos com Inverno pingão e céu plúmbeo, Primavera irascível que ora traz neve e encerra estradas de montanha, ora surpreende com dias de braseiro.

 

Tantas desfeitas temos sofrido que a raiva atmosférica ao acrescer mais uma é como sardinha extra a desequilibrar a pesada carga do burro. Melhor refletindo, talvez os céus tenham vindo em auxílio da bolsa vazia dos portugueses – com chuva e frio não apetece sair do espaço doméstico, adiados Algarves e companhia, praia somente a que estiver ao alcance de fuga rápida levantado seja o inferno dos ventos ou das neblinas geladas. Economia em portagens, gasolina, na compra de calçado e trapos estivais.

 

Que regressem os piqueniques familiares, caseiras aventuras gastronómicas, que se imponha a vontade de peregrinar em museus e parques, de ler novidades literárias ou reler espólio abandonado nas estantes, que o cinema em casa ocupe o devido lugar, que festivais com entrada livre não passem ao lado da atenção.

 

Não ter mais olhos do que barriga é pedagogia benéfica. Decorre fruição de lazeres simples em vez de arrotos gastadores.    

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:03
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Domingo, 23 de Outubro de 2011

ARTE DESCE À RUA

 

Foi surpresa que Coimbra me reservou voltar às marionetas dos meus amores. E moviam-se com mestria, encantadoras pelos personagens criados, pelo detalhe do cenário e dos figurinos. Havia prazer no homem que pela dança manuseada lhes conferia vida. A música de fundo surgia sem donde conhecido. Ora, se nem pneumonia brava me impedira, há muitos anos, de assistir na Gulbenkian a um espectáculo das “Marionetas de São Lourenço”, como poderia distracção e passar ao lado sem me quedar embevecida? Apaixonei-me cedo pelas oferecidas na infância. A partir daí comprava-as nos lugares andarilhados. Em Florença, um pierrot veneziano, imponente pela beleza e pormenor, pela altura também, viria na bagagem acompanhado por pinóquio distinto dos vistos até então. Altura semelhante à do pierrot, faziam parelha belíssima. Tantas adquiri que o termo colecção descrevia o conjunto. Achei injusto ser uma adulta a gozá-la - ofertei-as a crianças nas quais o fascínio transbordava. A última foi o pierrot.

 

 

Chegada à Igreja de Santa Cruz, descoberta a fonte da música. Era um virtuoso à altura da monumentalidade do largo. Numa esplanada fruí do inusitado prazer, comum fora de portas, ainda raro em cidades portuguesas que não as capitais do trabalho e do país. Arte também nas castanhas assadas a preceito, no simbolismo sazonal que representam.

 

 

Nas ruelas que de Santa Cruz partem rumo à Baixa Velha, foi imposto, pela pressa, ir adiante do muito a registar. Mas não há celeridade que resista a cerâmicas, aos velhos símbolos do “aqui há comes e bebes”. As prostitutas circulam misturadas com outros passantes nem mais nem menos impudicos do que elas. A cada um seu ofício e caminhar.

 

 

Já na área verde ribeirinha, pela Aguieira e pelo açude o Mondego no seu melhor, é apuro o design que embeleza a margem. Reminiscências estrangeiras e míticas na arte do vender e consumir.  

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Sugestões do Cão do Nilo.

 

publicado por Maria Brojo às 08:12
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Domingo, 9 de Outubro de 2011

NA DAS FLORES

 

O namoro com a “Grande Alface” pode recomeçar ali bem junto a São Bento, na primeira à esquerda para quem chega ao Largo vindo do Rato e desceu o empedrado. Chamam-lhe Praça das Flores e nome mais a propósito não poderia ter - cruzada por caminhos que separam gradeamentos de parcelas onde, no Outono, árvores antigas derramam pétalas delicadas que juntas e no tempo do viço são flores. Agora, atapetam escadas e carreiros. Sobram para o passeio que contorna o jardim e quase atrevem entrada na beleza dos prédios modestos.

 

 

Nos restantes dois lados do quadrado que a Praça quase delineia, a arquitectura permanece despojada, feita excepção ao edifício encantador forrado a cerâmica com tons tipicamente portugueses, azul e ocre, nesta arte onde temos mestria. E há vozes no lugar, alegrias infantis traduzidas em aniversário denunciado pelos balões à janela, pela porta também enfeitada, pelo entra e sai da pequenada que ri e corre em bandos. Juntam-se ao chilreado que das árvores ecoa e desce e enche de bem-estar almas por ali voando assentadas ou passeantes.

 

 

Mas foi amizade de anos e o brunch que na das Flores reuniu três mulheres. Nos passadiços exteriores e dentro do “Pão de Canela”, servidas delicadezas gastronómicas tão variadas como as conversas repartidas por gentes com o bom gosto de não incomodarem terceiros. As três mulheres, duas gerações, puseram em dia o que o espírito decide verbalizar, lembraram épocas idas, reflectiram o hoje. E houve presentes, pois então!, que uma delas, além da profissão, tem criatividade e talento para dar e vender. Porque generosa, ofertou-me peças originais como todas as que lhe saem das mãos. Pela surpresa e de tão lindas, comove sentir que amizades podem ser traduzidas em objectos feitos de ternura. E que dizer da nossa jovem mulher? _ Que é dada ao belo, que projecta perfeições no que faz, formosa no íntimo e no visível.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:09
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Domingo, 4 de Setembro de 2011

‘LÉ COM CRÉ’?

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Mãos livro, mãos disfarce, mãos. Do trabalho, revelam calos – enxós e enxadas endurecem a pele como uso de pasta com quilogramas em dossiês; diferentes as zonas coriáceas, idêntico o labor como razão. Unhas castigadas são testemunho de vida carregada de esfregões, óleos, terra, giz. E de mais: que lutam e renegam o ficar no regaço em calmaria indiferente se os dias tremem. Quando brilhantes pelo verniz, apenas contam arranjo de véspera. Mas é através da pele que o escondido fala. Se rugosa e manchada conta idade ou envelhecimento prematuro por culpa do esgalhar quotidiano ou da falta de cuidado. Áspera e feminina, delata lixívias, detergentes, roupa torcida com esmero, agulha de quem costura ou cose peúgas, desinfecção frequente que creme não trata. Por tudo, soe mentirem as mãos quando observadas levianamente. Precisam do complemente do olhar e da fala e do pensamento nela expresso para mais dizerem – o trajar é falácia que convém manter arredia. Fossem organizadas duas carreiras, uma com fotografias de mãos desligadas do contexto e noutra, rol de profissões, é de duvidar jackpot no acerto de ‘lé com cré’. O gesticular ajuda a abrir a página certa do dicionário das mãos. Mãos quietas que não condigam com emoções transmitidas alvitram suspeitas da autenticidade no sentir, contenção ou cartesianismo em dosagem elevada. Mãos agitadas quando o relato é sereno denunciam incoerência entre a paz aparente e o turbilhão interior. Suscitam curiosidade sobre o ausente no narrado. Manda o bom senso e o respeito pelo outro evitar perguntas, salvo se evidente a necessidade de aliviar carga que amachuca quem discorre. Ainda assim com cautela, não quebre o cristal íntimo. Motores da «psi» também, escolhidos os instantes, necessitam de empurrão que os façam entrar no andamento preciso ao dono ou ao servo ou a ambos à vez, à vez.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:08
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Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011

CHARUTO, JAZZ E CONHAQUE

 

Arthur Braginski, Michael Godard

 

Ontem, há um ano ou nunca aconteceu? _ Não importa! Que a estória avance. Pelos quotidianos cheios, pelas vontades que vão e vêm, pela saudade de um charuto e conhaque partilhado ao som de jazz, chão atapetado como assento, pelo diálogo vertido e reflectido sobre sinais que do tempo vivido em Portugal e no mundo eram correntes, a urgência na mensagem recebida de pronto. Telefonema posterior e teimoso caído no silêncio programado do aparelho da mulher. Mutismo. Resposta escrita, passados eram instantes ao ter arribado idêntica saudade no outro lado da urbe. A coincidência de um ter visto do outro imagem no Facebook lembrando contacto desaparecido da rede social - o automatismo do sistema ignora e não rotula ausências deliberadas. Olhara, dissera ele depois, uma e muitas fotografias da omissa presença. Adviera o sentimento de falta. Isso fora de manhã, contaria à tarde, horas antes de rebate ter soado e imposto digitar caracteres breves no teclado minúsculo do móvel. Daí o telefonema e a mensagem/resposta pelo meio do dia descido.

 

Ontem, há um ano ou jamais acontecido? Tendo sucedido, um automóvel fez-se à estrada. No apartamento em zona nobre, vozes duas límpidas e alegres como antes. Memórias comuns. As transgressões. A clandestinidade que pica, adormece e acorda sem aviso prévio. O apetite pela conversa única que dois seres, específicos, enreda. Enredou na margem do rio, no tapete que a madeira escura do soalho cobria, no sofá para dois da sala/península porque rodeada de livros por todos os lados, excepto num. Em todos, o novo (des)conhecido de um par que se deseja. E foi. E foram mais uma vez amantes. E saíram ordenados por bússolas diferentes.  

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:41
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