Domingo, 1 de Setembro de 2013

DALI, REINA SOFIA, BOTIN

 

 

Em Madrid, larguei o meu vício de testemunhar cada madrugada. Amanheci com vagar, mantive o hábito do sumo de laranja e um café - o "americano" foi a escolha. Deambular sem pressa pelos jardins do hotel, perder-me nos vitrais genuínos, as uniões em chumbo provam-no, as formas do arvoredo que filtram. Depois, sair e redescobrir uma cidade que, pela visita anual durante toda a infância e adolescência - ali era adquirido material e vestimentas para o ano letivo a iniciar -, jurara aos vinte e cinco anos, não mais voltar. Assim foi nas duas décadas seguintes. Atravessar Espanha, sim, mas somente pelo ar. A norma interior seria quebrada cinco anos atrás, conquanto mantivesse Madrid arredada do percurso cujo objetivo era Poitiers. Porque sempre amei o País Basco, deste não prescindi. Com Biarritz o mesmo. Entesouro memórias lindas dessa travessia. Par de anos depois, houve regresso a Madrid para visitar as exposições temporárias de Picasso no Reina Sofia, de Modigliani no Tyssen. Viagem soberba pelo visto e porque feita deliberadamente em carris - sair de Lisboa ao fim do dia, dormir em couchette e acordar na estação de San Martin de La Vega. Regresso idêntico. Para a mulher que ama comboios, melhor era impossível.  

 

 

 

O resto da manhã e princípio da tarde até ao almoço tardio, passado em lojas de arte. Já na véspera, a loja do Tyssen me tinha feito cair em deliciosas tentações. Mas foi na "Arte Stilo", logo a seguir à Toledano das magníficas montras (ver acima) mas com recheio feito «pra turista ver», ambas no Paseo del Prado, que me deixei levar pela qualidade das peças expostas - Klint, o checo Alphonse Mucha, Hopper; Dali, Miró, Picasso inevitavelmente. 

 

 

As imagens traduzem o entusiasmo na espera da visita às onze salas dedicadas à temporária de Dali. O "Pássaro Lunar" de Miró suportou-me o peso.

 

 

Visitada a mostra, recompus-me da desilusão no terraço do 3º piso. De facto, apenas seis obras emblemáticas constam, as restantes são de períodos menores ou indefinidos do artista, excetuando as dos primeiros anos na caminhada. Nestas, sim, matéria, traço perfeito, investigação bem patentes. Nas seguintes, é o «lambido», a facilidade dos contornos a preto, ausência de matéria. Usar ou não o óculo, tanto faz - a perspetiva mantém-se, frequentemente, numa bidimensionalidade pobre. Os hologramas são banais, as esculturas melhores sem que espanto seja consequência. Maravilha em Dali a rutura com o até ele feito em pintura, com o domínio do traço se o tratado é o corpo humano. Remata a exposição uma patética tentativa de voltar à técnica impressionista. De tão má, julgo difícil esquecê-la.

 

 

Ia a tarde mais que meada, de volta ao hotel para balanço do espírito assoberbado com o visto. Horas após, saída para a janta no restaurante mais antigo do mundo - o Botin. Entre outras, a especialidade rainha é o leitão de vinte e um dias. Deixa longe o de Negrais que odeio, o da Mealhada, empata com o do Mugasa aqui na maravilha da aldeia de Fogueira, Sangalhos. É repetido que Hemingway do Botin dizia ser o melhor, que Goya nele havia lavado pratos enquanto aguardava ser admitido na Real Academia das Belas-Artes. A ligação que sugiro merece exploração adequada, embora surja a página dedicada à origem e influência artística do Botin.

 

 

 

 

 

Não tenho por hábito ser exuberante em lugares que desconheço. Mas se a tuna do Botin, vestida segundo a tradição medieva e composta de excelentes vozes e tocadores, me dedica o "Coimbra é uma Canção" a emoção extravasou.

 

 

 

No regresso para a deita - na memória, a pintura do recanto escondido que acolhe o Botin -, outro vitral me esperava no hotel.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Vídeos a não perder. No primeiro, critérios para a seleção das obras no Reina Sofia; no segundo a decisiva influência de Gala em Dali.

 

publicado por Maria Brojo às 07:32
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Quinta-feira, 15 de Novembro de 2012

FOI ONTEM, MAS A TEMPO

 

Não quero, resisto à primeira, mas, quando da arte é o tratado, resigno-me e cedo. O Google, esse tentador, assinala o que deve e não. Ontem foi o ‘bem lembrado’ a acontecer.

 

Amadeo de Souza-Cardoso no Google

 

Imperdoável seria a omissão do aniversário de Amadeo de Souza-Cardoso, nascido em Manhufe em 14 de Novembro de 1887 e que a ‘pneumónica’ levou aos trinta e um anos. Aliás, a zona pertença de Amarante, foi também berço doutros que importam na cultura e sociedade portuguesa, quiçá mundial: Teixeira de Pascoaes, Eça de Queiroz, Carmen Miranda, António Mota, Agustina Bessa-Luís.

 

 

 Na estada em Paris, deambulando por Montparnasse e noutros lugares de perdição para o «guesinho» na, à época, capital das artes, tomou contato com o Impressionismo. Mais tarde, aceitou os acenos expressionistas e cubistas. Largou o caricaturista cuja pele vestia. Pintura, daí em diante, seria estar na vida. Cubismo Analítico, modo de expressão.

 

Amadeo de Souza-Cardoso (Procissão Corpus Christi e Cozinha de Manufe)

 

Em escolas e mostras internacionais, conheceu, entre outros valores pictóricos, Modigliani e Antoni Gaudí. Na mesma altura, arrojou exposições motivadoras de novidade e algum escândalo em Portugal (uma no Porto, outra em Lisboa). Do Expressionismo, partiu para colagens conjugadas com outras experimentações plásticas.

 

Amadeo de Souza-Cardoso (Retrato de Paul Alexander e obra sem título), Almada Ngreiros (Retrato de Amadeo)

 

Amadeo de Souza-Cardoso – o ‘bem lembrado’ d’ontem.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Fernando Tordo & Stardust Orchestra

publicado por Maria Brojo às 10:16
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Quinta-feira, 8 de Julho de 2010

PROSA ESTICADA

Siloete e Modigliani

 

No “De Azeitona Jamais Visto”, foi referida casualidade que misturou sinas, mãos lidas, baralhos «taratonianos». Nem requeria mais dizer, não fora coincidência singular nas deliciosas sugestões/comentários a relação entre a mulher descrita e a etnia cigana.

 

Dos estereótipos alojados no subconsciente geral – quem estiver de fora que se acuse! -, consta a cigana insistente em augúrios, pedinchona, mergulhada em negro e saia varrendo o chão. Não faltando por aí oráculos com lábia que da crendice fazem vida sem que raça os distinga, salvo fardas outras, associar etnias a comportamentos é lastro fundo.

 

Porque os roma (ciganos), são minoria étnica por tantos malquista como faz prova a vox populi quotidiana, nem esticaria mais a prosa. Pelo apogeu alcançado na petição "Ciganos em Portugal... só os Honestos!" – recuso-me a publicitar o endereço da peça - transcrevo fatia do conteúdo, embora dê no mesmo.

 

“Ao contrário do que se possa pensar, esta petição não é de cariz racista, mas sim um ponto de revolta e de dizer basta ao que se passa neste Portugal.
Chega de ter gente que se faz de coitadinha, exige casas às Câmaras, luz, água e gás gratuitos, rendimentos à segurança social, pede, pede, pede... E trabalhar honestamente? E descontar para a segurança social? Nada! Andam de Mercedes, BMW e até Porches e Ferraris. Todos nós conhecemos histórias dum cigano que roubou para depois vender na feira. São uma fonte de violência. O engraçado é que mais uma vez se fazem de coitadinhos e queixam-se que são discriminados e não integrados pois a comunidade não os aceita, engraçado que façam tudo para não se integrar. Que tal fazer como o Primeiro Ministro ucraniano que expulsou os ciganos do território ucraniano? Querem continuar cá? Sim senhor, mas trabalhem honestamente, descontem e paguem IRS. (…)cambada de sanguessugas. Ajudem a pôr os ciganos a trabalhar e a torná-los honestos. Assinem esta petição.”

 

Ao invés, pensam muitos e o comissário dos Direitos Humanos do Conselho da Europa, Thomas Hammarberg. Após visita a Lisboa, alertou o Governo para as deploráveis condições de alojamento e aceitação social dos roma. Exigiu respeito pela Carta Social Europeia. Reconheceu possuirmos serviços de acolhimento dos imigrantes, sublinhou "a falta de eficácia da denúncia" por discriminação racial. Tragédia comum neste Portugal que se reclama ‘desenvolvido’.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

De Veneno C. e Anónimo

 

publicado por Maria Brojo às 09:06
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