Quarta-feira, 9 de Outubro de 2013

O “MÉTODO MARYLIN”

Marilyn lendo "Ulisses" - fotografia de Eve Arnold

 

Joyce. Dia 16 de Junho de 1904. Dele, em “Ulisses”, as horas parodiadas de Leopold Bloom, Molly Bloom e Stephen Dedalus nem sempre estimulam leitura continuada. Eve Arnold, a mulher pioneira do fotojornalismo, reteve imagens várias da capitosa loura de Hollywood, Marilyn Monroe. Algumas, ignorando poses, revelam-na entretida com um calhamaço que a alheava do redor: “Ulisses”. Daqui, a pergunta: “Ela leu ou não leu?” Acrescento: atriz até nos momentos de repouso entre sessões fotográficas?

 

Décadas após, Richard Brown quis romper o mistério. O professor de Literatura escreveu a Eve Arnold. Que sim, que Marilyn já o lia quando a conheceu. Em voz alta, confessara-lhe, por gostar do estilo, conquanto difícil. A loira mítica assim desmentiu o (pré)conceito de ser apenas um belo corpo exposto generosamente e desprovido de pensar lógico convincente.

 

Facto é o professor Brown transpor para a atividade letiva o aprendido na investigação: “Ulisses” não deve ser lido com a persistência da água que corre até furar pedra. Abri-lo ao acaso, ler um trecho, depois outro, é a recomendação de Brown aos alunos. “Método Marilyn”, chama-lhe.

 

O mais curi­oso é o con­se­lho de Brown ter alguma vali­dade. Na fase em que lia quase tudo do recente apa­re­cido nas livra­rias — houve cura, feliz­mente! -, des­bra­vei o “Lin­guado” do Gun­ter Grass seguindo o método. Após meia obra dige­rida no modo tra­di­cio­nal, não resisti: inter­va­lei pági­nas. Foi o melhor.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:51
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Terça-feira, 14 de Junho de 2011

À MÍNGUA DE BOTÕES

Peter Driben, Elvgren

 

Lugar-comum: cinco dias fora do mundo noticioso e, à chegada, nem respigo de novidade (à laia de novela, soe o dizer). Em tão curto intervalo de tempo, não esperava mudanças substantivas, convenho, mas nova de causar espanto que me arregalasse o olhar, afora aumento do número no rol de catástrofes, seria bem-vinda. Antes da partida, uma houve prestes a consegui-lo: criminalizar como assédio sexual piropos, encostos nos transportes e assobios endereçados às mulheres passantes. Entidade promotora: UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta).

 

Exercício contrário: está um homem postado em seu sítio e mulher arrisca o piropo ou o roço. A suposta vítima de assédio não calaria uma de duas reacções: acedia alegremente ou ripostava com vigor. Se a mulher em idênticas circunstâncias não reage e se dá por presa coitada sujeita ao predador, culpa dela - é exemplo a resposta pronta e rápida, apanágio de dignas peixeiras que sabem pôr no lugar abusadores. Estes afastam-se, encolhidos, e elas nem um segundo mais dedicam à frivolidade.

  

Se a menina foi educada para silêncio que lhe preserve o pudor, se, mais tarde, a mulher não cresce no entendimento do seu papel social e é incapaz de defrontar com igualdade leves atrevimentos masculinos ou femininos, que também os há, não se lamurie, actue. Um tédio a mulherzinha sofredora! Que vá aos mercados e aprenda com as maiores. Que acabe com o estereótipo que lhe coage o estar: “odeio peixaradas!”. Faz mal - mão na cintura e língua afiada até vem a propósito sentida ofensa no espírito e na pele.

 

Depois, há a hipocrisia do ar enjoado quando arriba piropo sendo que a maioria de nós acha graça aos bem engendrados. E rimos por dentro ou ostensivamente como ontem me aconteceu. Frigorífico esvaziado, pousei malas e fui ao minimercado afavelmente aberto em dia feriado. Neste bairro que harmoniza extremos sociais, passei por idosos jogando damas no empedrado, bandos de homens à solta. Ouvi:

_ Ainda bem que não ganha o suficiente para comprar botões.

Lerda, percebi, era o instante passado. Saíra com a fatiota da viagem, túnica pelo joelho e generosas aberturas laterais que o vento alevantou.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:11
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