Jan Bollaert - Nostalgic Seduction Jan Bollaert – Tantfiori
O mesmo é dito dalguns homens. Todavia, expressão maioritariamente aplicada ao género feminino. De mim, o mesmo foi/é dito.
Jamais entendi o significado do adjetivo. Pessoas que o vulgo considera equilibradas? Normais(?) e, por isso, conotadas com banalidade vezes demais infeliz? Emprego estável, acompanhados(as) por parceiros(as) «sacramentados»? Objetivos definidos e perenes na matriz pessoal? Na ausência de companhia quotidiana, assente no sexo e/ou no afeto, estão por «resolver»? Ou, nesta condição, se em paz com o íntimo o sentimento é bovino ou expoente de conquista interior?
_ Não sei, não gosto da ambiguidade do termo, da passividade implícita, não aceito rotular o espírito de cada um.
Gentes «resolvidas», curiosas, idealistas e batalhadoras não existem. Humanidade implica evolução. Crescer. Mudar. Ser outro no mesmo à medida das experiências trazidas pelo girar terrestre. Aprendizagem contínua. Filtrar acontecidos e aprender. Sem que se «resolva», mas abra janelas ao advir.
Pessoa aliciada pela corda bamba do tempo é, necessariamente, instável? Cata-vento orientado para o lado donde vêm os empurrões atmosféricos? E mesmo que a mudança de opinião ou prioridades ocorra, foi, obrigatoriamente, soprada por vento ou anjo mau?
Creio no acreditar da mudança como necessidade. Antes por «resolver» que rotineira irracional. Desminto quem me classifica «resolvida». Evitarei ser tão pouco enquanto sopro exalar dos pulmões.
CAFÉ DA MANHÃ
Haviam sido aroma distante. Quando a glicínia surgiu como Norte de bússola, mais enrodilhou emoções como, dela, os troncos enlaçados no ferro/grade. Espessos pelos anos, corredores de seiva nunca perdida, os cachos lilás pendiam impressivos. Majestosos. Impossível arredar os olhos do verde novo que luzia cerca deles e os protegiam de ventos contrários ao crescer do momento. Do alto, folhagens ciciavam brisas que os sentidos davam conta e, sem o mostrarem, ondulavam com elas.
Os rebentos brotados dos troncos ainda por encascar condiziam com falas novas e de sempre quando o sentir é lume. O dia meado, soalheiro, tudo via e ouvia sem pestanejar nuvem que fosse como cúmplice astral.
Frente ao pavilhão dito chinês cujas portas escancara mais adiante nos meses, balaustrada em pedra esculpida, recanto atapetado por cerâmica, vergas que pedem assento. Quem julga apenas atravessá-lo, a sedução do lugar pede intimidade, exaltação no florir de sentimentos.
Esculturas/ícones acompanham escadaria simétrica da primeira. E do pensar surgem as palavras do ‘comboio descendente’ do Zeca Afonso sendo que quem as pisava nem vinha de Queluz nem rumava à Cruz-Quebrada, conquanto não importasse avançar de Palmela a Portimão. Desejo que a fala omitiu.
No palácio, os frescos, os dourados, pastéis nas cores, o luxo do restauro, as mil luzes redobradas por espelhos e salas muitas em corredor romântico. Destoam os reposteiros que desvendam gloriosas portas-janelas – organzas medíocres, em vez de brocados ou veludos ou cetins. Sem detença, os olhos avançaram.
O labor do ferro forjado em mostra trabalhada de acordo com o uso do tempo é portão. Por ele saíram corpos enlaçados sem mãos que pela mútua força nos dedos apertassem o que já dilatava emoções nas veias e artérias latejantes. Último olhar para o frontispício talvez em lioz talhado em rosas que são e colunatas que não.
Mais lioz, amores-perfeitos cor-de-fogo, de chama que também, assim as almas o queiram e queriam, incandescem fala e sentires. O exterior das cavalariças, pertença do palácio no lado fronteiro ao portão, oculta do século dezanove azulejos e madeiras nobres, clarabóias e jardins. Subindo a escada de caracol vedada a curiosos, Lisboa e rio e outra banda. Deslizando para dormida o sol no horizonte, que imagem, que pintura, que memórias!…
CAFÉ DA MANHÃ
Michael Mobius
"Sabia a roupa e compusera o traje, o verniz preto de uma sandália, o branco transparente de um tecido. Na altura, fábricas de capa e paisagens de disco cresciam abruptas na janela metálica dos comboios. Mesmo se trauteasse as letras, seria nas placas anónimas que descobria a luz. Freguesias íngremes eram destinos de quase pobres, e nos centros humildes maquinavam-se conjuras de sonho com rio em fundo. Escolhera aquelas cores como se fosse fé, mas no couro macio das pulseiras residia um lado nédio de abastada falha. Estancos e comércios de vidro e folha, até num aroma de clandestino vício, um redondo de sebe em tremura de apenas quase. A parede e as letras, agora outras, quadras jorrando numa água fria de poço. Um voo e um caminho estreito em bosque, cancelas e casas de cenário ou seu inverso, a lenta fila parada na espera de uma luz. Era madrugada mas o frio não se colava em ferida, apenas o rebuço e um de despojo na manhã da rotina que deixara então. Ouvia em cada esquina um esquiço de fado, mas era norte e não tocava a linha. Olhava numa melancolia estranha a catedral que conduzia além, vultos azuis numa risca rubra. Colava e recortava e suas fadas eram apenas isso, desenhos impotentes de vara em riste. Numa mulher um cinto, noutra a sombra que lhe tapava a face. De costas, tão nua na sua voz de areia, o azul na pele dos olhos brilhando não lado lascivo da saudade."
Nota - para o SPNI, Fernando York. Katie Melua neste vídeo foi sugestão que também lhe devo.
CAFÉ DA MANHÃ
Da querida Isa, magnífica fotografia e texto, “Tango à Chuva”, aqui.
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