Sábado, 16 de Março de 2013

META ESOTÉRICA

Norman Rockwel, Yong Chen

 

Não acredito em reencarnações e vidas futuras post mortem. Creio na conservação da massa de Lavoisier, confio nos acrescentos introduzidos à Mecânica Newtoniana pela Relatividade Restrita - a massa de um corpo em movimento não se mantém constante em qualquer condição, ficando na dependência do valor da distância percorrida por unidade de tempo. Não resisto a encadeado lógico: se maior velocidade acresce massa a um corpo, quem se deslocar a 180 km/h, numa viagem acresce em miligramas de miligramas o efeito de dietas e suores do ginásio. Sendo muita a ignorância dos portugueses no que à ciência concerne, fosse isto divulgado, cairiam para metade excessos e acidentes nas estradas. Configuremos: _ Rosarinho, vá mais devagar. A menina não vê que assim engordamos? À chegada, não enfiamos os vestidos/pele.

Esta (des)conversa para meta esotérica: em futura encarnação quero ser personagem de anúncio publicitário. As razões fazem lençol. Para começo: são todos lindos, eles, elas, os rebentos, pais, sogros, amigos e empregadas. Elegantíssimos, peles imaculadas, sempre encantadores, mesmo quando fritam batatas ou aspiram a casa. Eles são gentis, ronronam, oferecem flores, tratam dos filhos e cozinham como rematados «fados-do-lar». As casas nunca cheiram a peixe frito - cheiram a Seychelles ou a floresta tropical. A lida da casa é feita numa dança inebriada como a da Julie Andrews no inefável Música no Coração. Pais, sogros e amigos são sorridentes, isentos de maus fígados, neuras monumentais, rabujices várias ou bicos-de-papagaio. As crianças portam-se divinamente e brincam sorridentes. Os bebés não têm viroses, nem gritam a plenos pulmões ou cospem a sopa - dormem como anjos e são gordinhos. Eles e elas acordam penteados, os pijamas assentam bem e seda para elas é mato. Sedutores, num virar de olhos ou trejeito de lábios, deixam no ar da manhã inventada sugestão de lascívia.

Nós, os mortais que nada publicitamos salvo a vida real, comparados com eles nem pingo de idílicos temos. Que maçada!

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:40
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Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

FALHAS E FANTASIAS

 

     Norman Rockwel

          

           Assim fora, assim nunca seria. Ela, que «sempre» e «nunca» rejeitava, usava-os vezes demais. A incoerência reclamada como defesa e arma para advires etéreos. Não conjugava futuros. Ou conjugava pelo gozo da negação seguida. Sabia da pequena esfera recolhida junto ao nervo/comando da visão. Talvez morte, talvez vida. Esquecia-a. Lembrava-a se entretinha a tentação do prever. Ceifava-a como na infância vira nas terras fecundas pela natureza e regas.

            Montanha ao alto, vale em música de cantares/alívios de corpos doridos. Os lobos à espreita, as raposas rapinando poedeiras que supriam faltas míseras. Recontos aconchegados nos colos das matriarcas, foram. A menina, ao tempo, das labaredas conhecia as das lareiras confinadas à pedra, castanho velho por remate. Já não assistia às queimadas nos campos nus onde o Outono descia manto de cinza fria.

           A urbe, do centro capital, era dez meses de existir, escola, liceu, faculdade. Na geometria parental, a criança era o terceiro vértice. Vazio o outro que desejava ocupado por laço fraterno. Sem ele, ficava a menina debulhando leituras e, pelo carvão, no «cavalinho» registando falhas e fantasias.            
           O quarto de brincar, excessivo, recolhia a criança só. Sem primos na rua de baixo ou de cima ou na cidade que pelos afectos e birras habitassem a irmandade possível. E lembrava da casa beirã o baloiço pendurado no braço robusto da nogueira velha e formosa. O tecto de folhagem e frutos verdes. O vaivém que, nas férias serranas, o primo de Lisboa arrojava rápido e alto.

             _ Voa!

Voava. Sem medo. No Jorge, constelava universo de confiança. Como no pai, cúmplice e autoridade. Como no tio franciscano. Como no avô que musicava os dias em pautas de alegria, primeiro nos acordes da viola afagada na tarde quase extinta. E havia fogo e turquesa no recorte do vale descido da Estrela até ao Buçaco que os malvas dissolviam. 

             Dos homens e mulheres entendeu o que via entre paredes de amor. Eles laboriosos, providentes e previdentes, ternos, base e fundo da confiança. Elas companheiras, voluntariosas, pondo e dispondo com autonomia sob o tule do véu que levavam à missa de incensos e altares de tranquilidades floridas. Só na aparência submissas. De facto, senhoras donas da família.

            Da crisálida no seu casulo, mais cedo do que o previsto, houve mulher com criança dentro. Porque da dormência das sestas adultas, na infância, constituíra reinos e da precária liberdade experimentara a magia, aprendeu a deter-se. No silêncio, jogar ao faz de conta. Uma e outra e outra figura. Personagens múltiplas que viria a integrar enquanto despia e vestia sedas da mãe copiando gestos de filmes antigos que o preto e branco coloria. 

              Desequilibrada nos saltos, encenava graça e langor no palco que o espelho devolvia. A sedução da mãe, das mulheres de Hollywood repetidas no descalçar da meia e na alça caída do ombro por suave estremecer. Um dia, sua. Egoísta pela relevância do querer, houvesse ou não quarto cheio de homem que a visse.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 16:24
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Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012

JÁ RAUL SOLNADO DESMENTIA

Anne Bascove, Norman Rockwel

 

Se telefonema ou e-mail, supostos actos médicos, dirigido a um médico do Serviço Nacional da Saúde custa, agora, ao utente 3 euros – a suprema hierarquia acaba de desmentir, embora os factos provem o contrário - se as taxas moderadoras, a coberto de descongestionamento dos serviços hospitalares, passam a escandalosas por tanto pagar rico como pobre como soíam maus costumes, se a contenção dos gastos com Centros de Saúde obriga a fechar muitos das oito da noite em diante, se a Universidade Técnica de Lisboa baseada num questionário a dois mil e alguns dos seus licenciados, garante que no final do ano seguinte ao diploma 95% têm emprego embora com salários oscilando entre setecentos e mil e quinhentos euros após cinco anos de sacrifício no investimento das respectivas famílias cobrados sem piedade ou dó, se as desigualdades agravam injustiças sociais a cada dia passado, se bem fez a Jerónimo Martins ao procurar o fisco mais favorável na Holanda, se cada um de nós é espezinhado pelo «sistema» no quotidiano, se os Presidentes de Câmara e de Junta de Freguesia vêm limitados os mandatos enquanto na Assembleia da República somam e seguem até à choruda reforma pelos serviços prestados - presumidos bons, na verdade, genericamente medíocres -, se o trabalhador é humilhado pela negação de direitos elementares, se e se e se mais poderiam ser apontados, uma de duas: ou a nossa obediente atitude é devida a genes que a tradição inscreveu nos genes lusitanos, ou contra maluqueiras encolher ombros é sensato. Já no início dos setenta, Raul Solando desmentia.

 

CAFÉ DA MANHÃ

                                                                                                                          Para recordar e aliviar

publicado por Maria Brojo às 10:09
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