Terça-feira, 30 de Agosto de 2011

RETORNOS A FEITIÇOS

Estrela Faria, Abel Manta

 

Inverteram-se afectos - Lisboa de amor passou a amante, a Beira Alta de amor elevada a paixão. Complementam-se por amante e paixão serem formas lindas de expressar impulsos de ânimo. Não há paixão sem par amante, não há amor vero que dispense momentos de paixão. E distinguir entre sentires fortes que enrolam corpo e alma em rama fina de algodão é difícil pelas fronteiras próximas. Deixá-las entrecruzarem-se, oscilar entre uma e outra, alicia amanhãs. Não que a volatilidade dos afectos seja inferida, mas sim que de tão sérios e imprescindíveis simplesmente licenciam permutas de intensidade, mantendo, intocável, a fidelidade.

 

Nesta Lisboa, apetece descobrir mais e mais segredos que aumentem o pecúlio grato. Cidade mulher porque airosa, que joga ao ‘toque e foge’, enamora com recato para depois se abrir, despudorada, a quem dela e com verdade deseja fruir. E entrega-se e revela as colinas firmes, desce para o rio meneando ancas e nos requebros das pernas como se ainda soassem em fundo de música pregões das varinas. Deixá-la para um sempre é ingratidão à sua rara beleza nesta Europa vaidosa sem ter, todavia, onde cair morta. Porque quem ao belo se habitua tende a desvalorizá-lo, é preciso afastamento que cresça saudades e o reencontro por semanas ou meses torne em feitiço novo.

 

A Beira Alta é desafio que alicia urbana dos ‘sete costados’. Volver aos cheiros das urzes, dos pinheiros, da terra cavada, aos saltos dos ribeiros que o degelo engrossa, à proximidade da história lusitana em cada penedia, aldeia ou pelourinho, ao dia que pelo vagar possui mais do que duas dúzias de horas, seduz quem também por lá formou a matriz individual. Com os anos chegam desejos de paz mansa no exterior que permita às emoções a vivacidade de sempre, conquanto não interrompidas pelo correr sem fôlego nos dias.

 

Talvez em Lisboa falte o ‘bom dia’ do vizinho, talvez em Lisboa sobre cimento e torres onde gentes anónimas pernoitam após regresso extenuado a casa, talvez a oferta cultural seja tanta que entristece aquele que nem para o seleccionado consegue tempo, talvez em Lisboa os ciclos da Terra sejam menos pronunciados, talvez cada um esqueça demais quem é, talvez cada um lembre demais quem não foi. Talvez.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:23
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