“Aerobics with Olga”
“Come filha, come a sopinha toda. A sopa é a tranca da barriga.” Este era dito regional. Uma tranca na barriga é supremo desejo dos que não têm tento no que enfiam pela boca. Entram entradas, entram comezainas diárias que incham e alargam o perímetro abdominal. Dizem indício de obesidade se nos homens ultrapassar 97 cm. Nas mulheres não sei ao certo, mas o que sofrem frente ao espelho é martírio de vida. Para o Vinícius, leve curva da barriga na mulher era essencial. Discordo. Olhamo-la de lado, de frente, e, vislumbrada, voltamos à «fomeca», acrescemos abdominais e penamos e bebemos água e tisanas e engolimos pílulas para, curtos dias após, naufragarmos em sobremesas. A tranca da barriga, hoje, tem nome: banda gástrica. Um horror! Já dei loas pelo peso estável que caterva de abdominais mantinha. O peso aumentou um «nico», mas foi às malvas a caterva.
“Trago-o nas palminhas das mãos.” Outro dito popular. Este não aprecio - subserviência a mais. Sugere lamber botas, amoinar, renunciar à própria opinião. Para isto não sirvo - o nariz trai-me e desata a empinar como o do Pinóquio ao mentir.
“Aquele é do pomar de Jesus...” Chiste de família que uso bastas vezes. Ingenuidade serôdia, crendice tola. Venda nos olhos que a patetice, a teimosia, não raro a paixão que ao indivíduo surripiam objetividade e raciocínio escorreito. Todos, uma vez, por outra, visitamos o referido pomar. O que não entendo é a associação entre inocência tonta e a idealização de Jesus. Olho vivo para o cinismo humano, a tradição preservou-lhe. Será que o princípio de oferecer a outra face a quem numa já bateu tanto enviesou?
CAFÉ DA MANHÃ
Salvador Dali
Inscrição simples – documentos banais do candidato e impressos em dose comedida. Seleccionadas diligências pretendidas, a instituição actua: visita de reconhecimento por técnicos especializados, definidos cuidados a prestar. Tomado como exemplo casal idoso, lisboeta, ele acamado, a mulher, oitenta para cima, ainda ligeira apesar dos anos acumulados e dalguns padecimentos. Difícil mover o diabético, amputado, regular a glicemia, cuidá-lo para que feridas não surjam e alastrem. Por menos de vinte euros, a instituição envia regularmente enfermeiras, acompanhadas ou não de médico, e cuidadoras da higiene do doente.
Na última visita do pessoal de enfermagem, detectada pele seca e uma borbulha na perna restante. Mereceu atenção que olhos desprevenidos julgariam sem importância. No dia seguinte, uma médica desloca-se ao domicílio, inspecciona o motivo de alarme constante no relatório da enfermeira, medica e recomenda o que fazer; do mesmo modo, anota ser necessária consulta da especialidade. Novo dia, a equipa técnica verifica se o tratamento obteve resultados positivos e regista tensão alterada. Marcada consulta outra sempre ao domicílio. Fraldas e resguardos fornecidos mensalmente em número suficiente para não existirem faltas.
Informação repetida ao logo dos dois anos de assistência: _ “Havendo necessidade, basta telefonema a qualquer hora para ter auxílio aqui em casa.” Desde então, os serviços prestados continuam idênticos na eficácia. Nome da instituição: Santa Casa da Misericórdia. Portuguesa, exemplar.
CAFÉ DA MANHÃ
Bart Lindstrom
Após fim-de-semana repartido entre trabalho e lazer, decisões sérias sobre património familiar, um ouvido na rádio, outro captando sons da consciência, apaguei da memória a campanha das sardinhas, bares e chuvadas e maldizeres. Decidida a orientação do voto, persisto na substância que dos folclores se eleva. Escolhi ideias em detrimento de pessoas que nos média as simbolizam. Ainda assim, averiguei se entre pensamentos e postura havia incoerências. Não as achando, optei e, somente pelo termo achar, veio à lembrança estória que testemunhei. Ocorreu numa missa dominical de aldeia e julgo-a por aqui já contada. Em duas penadas, o resumo: avó arrasta o neto pela mão com o sentido no ritual abençoado que ao neto sirva e ensine. Sendo o garoto pequeno e manifestando tédio, ocorre-lhe como motivo de fuga a urgência dum «xixi». Sussurra à avó a precisão. Autoriza. O catraio sai em demora pouca. No regresso, lamento baixo: _ Não o «áxo»! A avó, lesta, verifica se a braguilha está aberta. _ Despacha-te. Na volta, tão enfastiada como o neto, inquire: _ «Axáste-lo»? Responde o petiz: _ «Axei-o». Deo Gratias dizia o sacerdote.
Como antes, como agora, importa a destrinça entre o acessório e o que faz diferença. Fartos estamos de abordagens delicodoces também por via de papelotes com esferográfica anexa. Louvo a míngua de ofertas e recursos que a ‘crise’ justifica para aqueles que, astutos, recusam ficar mal no retrato poupado. O meu «axei-o» tranquiliza-me. Certa estou da sensatez na resposta à pergunta «Axáste-lo»?
CAFÉ DA MANHÃ
Adoçantes
Peregrinando
Brasileiros