Sexta-feira, 5 de Outubro de 2012

FORAM ELES

Anne Bascove

 

Há atrasado, publiquei o “Foram elas”. Nadesha, companheira de Ossip Mandelstam, Maria Bassova heroína numa narrativa do russo Boris A. Lavrenev, foram uns entre mais exemplos da importância das mulheres na história da literatura. É chegado o momento de abrir o veludo do palco sobre os homens que as trouxeram à ribalta.

 

Mandelstan, primeiro dos primeiros do ‘Acmeísmo’, poeta genial, apoiou com entusiasmo a ‘Revolução’. Por escasso intervalo de tempo, diga-se, ao não ter digerido a censura artística do regime, bem como a injusta execução de Gumilev. Opta pelo jornalismo, viaja e testemunha a miséria cruel das gentes do seu povo. A realidade vivida detonou a sua revolução íntima. Coerente, escreve, prenhe de ironia, o poema “Epigrama de Stalin” onde escorre ódio ao regime.

 

"Vivemos sem sentir..."


 

Vivemos sem sentir a Rússia em baixo,

não se ouvem nossas vozes a dez passos.

 

Mas onde houver meia conversa

– sempre se há de lembrar o montanhês do Kremlin.

 

Seus grossos dedos são vermes obesos;

e as palavras – precisas como pesos.

 

Sorri – largos bigodes de barata;

e as longas botas brilham engraxadas.

 

Rodeiam-no cascudos mandachuvas;

seu jogo: os meio-homens que subjuga.

 

Um assobia, um rosna, um outro mia,

só ele é quem açoita, quem atiça.

 

E prega-lhes decretos-ferraduras na testa ou no olho,

na virilha ou nuca.

 

Degusta execuções como quem prova uma framboesa,

o osseta de amplo tórax.

                                                              

1934

 

Lido a amigos, indiscretos alguns, é salvo da pena de morte por Bukharin, conquanto não escape ao desterro siberiano. Nadesha acompanha-o. Assiste à destruição da obra de Ossip e ao seu final. Ressuscita os poemas ao reescrevê-los baseada na memória rigorosa que deles possuía.

 

Boris A. Lavrenev, através da ficção “O Quadragésimo Primeiro” escrita em 1924, inaugura a literatura soviética. Não isolado, é certo, mas surge como referência primeira. Na obra, a guerra civil entre o ‘Exército Vermelho’ e o ‘Exército Branco’. História de amor fadada à tragédia devida ao enamoramento de Maria Bassova pelo capturado tenente Nikolavevich dos «brancos».

 

Maria, atiradora dos «vermelhos» e famosa pelos quarenta mortos correspondentes ao número de tiros disparados, é destacada para controlar o inimigo. O tenente, portador dum segredo de guerra sobrevivera ao quadragésimo primeiro tiro de Bassova, é destinado a chegar inteiro ao quartel revolucionário. Entre dramas muitos, a posteridade romântica herdou cena de amor da militar referida no “Foram Elas”.

 

Nota: publicado no "Escrever é Triste"

 

CAFÉ DA TARDE

 

http://www.fazbot.eu/watch.php?v=102_3650321 " O QUADRAGÉSIMO PRIMEIRO"

publicado por Maria Brojo às 15:23
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Segunda-feira, 3 de Setembro de 2012

FORAM ELAS

Georgy Kurasov

 

Na história da literatura, as mulheres foram protagonistas. Não como escritoras, raras obtiveram do mérito e da fama os proveitos, mas como leitoras. Em idos e no presente, a palavra escrita fascina-as, enredam-se nas teias crescidas nas histórias, nas de seda das cartas de amor - hoje, dispensados o romantismo dos papéis aromatizados, a letra desenhada com pena a escorrer tinta de emoção, o mensageiro e o seu duplo toque. O alvoroço de quem recebe manteve-se. Mais curta a espera pela velocidade da luz nos polímeros que levam e trazem novas.

 

A Inquisição escolheu como vítimas, fundamentalmente, mulheres com saberes e os livros. Uns e outros atirados às fogueiras do ódio. Nem assim extinto o desejo do conhecimento, mesmo se folhas de jornal onde um poema de Rilke veio a propósito numa crónica andarilha e tem a serventia de forrar soalhos enquanto paredes e tetos são pintados. Ignorância? Desleixo? Crime? _ Qual quê? Pior faz regime totalitário que soe cair na tentação de condicionar ou exterminar a palavra escrita «mai’lo» autor. Cidadãos que pensam, mulheres em particular para que não se ergam acima das chinelas do saber e destruam núcleos familiares submissos, são risco social, julgam os ditadores.

 

É contado que Ossip Mandelstam foi aniquilado e os poemas destruídos. A companheira memorizara-os e escreveu-os. Negou ao tempo a borracha. Oposto aconteceu com a heroína literária russa Maria Bassova, atiradora reputada do “Exército Vermelho” e o seu enamoramento por um oficial da fação oposta. Venceu a obediência de Maria à política orientadora. Elimina o oficial. Mas a narrativa tem um entremeio: ele quer fumar, faltam mortalhas. Ela escrevia poemas num caderno onde derramava tesouros íntimos. Dele, até à última, rasga folhas que enrolem o tabaco.

 

O medo, a morte, o amor, sempre o amor elevado pela escrita a beleza maior do que no real, todavia sem o arrepio da pele que só a vida autoriza.

 

Nota: publicado no "Escrever é Triste". 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 16:52
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