Quinta-feira, 15 de Maio de 2014

OS NOVOS 7 PECADOS MORTAIS

    

Pablo Picasso

 

Não sejam esquecidas avareza, luxúria, inveja, gula, preguiça, ira e soberba. Mudaram os tempos, acresceram os interditos.

 

Autopromoção - os quinze minutos de fama mencionados pelo visionário Warhol bastam para os olhares se voltarem na nossa direção seja por desgraça ou glória. Julgarmo-nos únicos, especiais, distintos. Incharmos o ego. Quando os holofotes se apagam na precária ribalta, mergulham na obscuridade os seres que nenhum talento especial distingue.

 

Hiperatividade - poucos sabem «preguiçar». A preguiça foi proscrita dos centros urbanos. É ido o tempo em que havia tempo para escutar as cigarras. Que teimo em ouvir. Nos dias correntes,, inatividade é o mesmo que morte social. Sofrer por uma carreira, transpirar no ginásio, ver o filme de que todos falam, ler o que acabou de sair, não ter tempo para amar. Tudo para não esquecermos o mundo. Implacável, o mundo, esquece quem somos.

 

Ironia forçada - o humor é de bom-tom. Obrigatório o segundo sentido agudo e fino. “O sexo e a cidade” e “Seinfeld” tiveram êxito por serem espirituosos. Como os “Gatos Fedorentos”. Tinham graça. E a graça deles preenche o vazio da nossa.

 

Falsa humildade - ser e afirmar-se ambicioso (hoje, chamam-lhe profissionalismo ou competitividade). Alguns monarcas deste milénio dizem-se adeptos de ocasional fast-food (trincarão mesmo um naco de minhocas temperado com molho de tomate e maionese hipercalórica?). Onde reside o mal do gosto pelas coisas boas, de apreciar o fausto, ser um connaisseur e não o esconder?

 

Eterna juventude - ninguém quer ser cota, ter meia-idade, ser identificado como velho. E infelizmente, como dizia a Agustina Bessa-Luís, não é por a um idoso lhe faltar a ressureição da carne que renuncia ao milagre. Tememos não concretizar todos os sonhos que anos a fio preservámos. Ser jovem é possuir o mundo na concha da mão. E julgamos, nas tentativas de apagar os vestígios do tempo, ludibriar a genética.

 

«Snobeira» emergente - parecer snobe é pretensão dos que não têm entrada na casa dos deuses; os verdadeiros snobes, porque a têm garantida, não carecem de exibições. O espírito «snobe-popularucho» é milho que «gentinha» debica (expressão à boa maneira dos emergentes na escada social).

 

Voyeurismo – de quando em vez, tornam as novelas da vida real. Os quotidianos dos concorrentes são banais: acordam, lavam os dentes, discutem, amam, exibem ódios, invejas. Assistimos ao testar dos limites. Assistimos porque nos toca. Por exibirem uma parte de nós. James Stewart tinha a janela indiscreta de onde acedia ao mundo que o excluía pela sua imobilidade. Dali espiava os vizinhos. Via-os despidos da polidez social. Acabaria, ainda assim, por ver a sua vida misturada com a deles, de se ver integrado como personagem e não como mero espectador. Não se passa o mesmo connosco?

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:50
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Quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2014

O TERROR DE «QUINAR»

 

  

Pablo Picasso – Bullfight, 1934                                                                                  Pablo Picasso

 

Morremos por tudo e por nada. Morremos de fome, de sede, de cansaço, de sono, de vontade, de tédio, de calor, de frio, de dor-de-cabeça e do mais que aqui não cabe pelo tamanho do lençol desta redação. Dos verbos, o «morrer» é, provavelmente, dos mais usados em Portugal.

Finos como alhos da horta, ao declararmos tantos passamentos, é conferida à banalidade o tom dramático que tão bem quadra com o temperamento latino mediterrânico. Excetuo os franceses do sul – na barriga cheia de vento, os melhores - geneticamente cartesianos, podres de chique, para os quais morrer de surpresa é atitude de mau gosto. Improviso de que não conste «finesse» e planeamento tira do sério francês de gema. Acabado o ato fúnebre, como servir aos familiares e amigos do morto dignas trufas fatiadas envolvidas em ovos, escargots comme il faut, bouillabaisse fria à marseillaise se o finado não teve a decência de dar tempo para abastecimento de linguados e camarões? 

Na Itália, descendo pela bota, morrer ganha consistência em número e razões – o Vesúvio, o Stromboli e a Sicília ali tão perto, a matriz acalorada dada a paixões compatíveis com ilícitos gravosos legitimam surpresas mortais. Pelo perigo eminente, os italianos habituaram-se ao improviso do post mortem. E saltam dos gavetões lutos como os franceses sacam queijos, tintos e baguetes -  a massa destas pode não ter levado a mão de Cristophe Vasseur no “Pain et des Idées” da rua Yves Toudic, mas, ainda assim, diferem do plástico das nossas. Em síntese: os italianos sabem carpir quase tão bem como nós. Não surpreende o gosto das portuguesas por Itália como destino de férias, enquanto os respetivos escolhem Paris. Entendo: nós somos as mais ligeiras no manifesto de morrermos por desconforto.

Em Espanha, o morrer na arena é trivialidade. Os touros finam rodeados de (…)

 

Nota: texto publicado no "Escrever é Triste".

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

publicado por Maria Brojo às 10:06
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Sexta-feira, 24 de Janeiro de 2014

GAIOLA DE VIDRO (II)

 

      

Pablo Picasso                                               Pablo Picasso - Girl Before a Mirror                               Pablo Picasso

 

Ela entrava, eles também. Vez primeira, aberto o portão e somente o nome como abracadabra do condomínio via porteiro sisudo. A proprietária da fração devia ter, previamente, informado senhor cujos lábios esqueciam sorrisos de quem esperava. Ela com saco na mão, eles ajoujados sob rolos compridos. Ao atravessarem os jardins, o mais carregado perguntou se ela autorizava que retirasse do interior dos cilindros envoltos em plásticos o tubo que os mantinha hirtos. _ Que não sabia, que inquirissem sobre a possibilidade a destinatária. _ Sabe, há maiores e assim temos de ir pelas escadas até lá cima. E olhe que são muitos andares! Duvido que estre entre no elevador. _ Logo vemos, respondeu. Mas couberam para alívio dela e dos homens fardados.

 

No apartamento, porta aberta, duas mulheres esperavam no hall. A dona, uma, a arquiteta decoradora, outra. De novo, a pergunta. Quem respondeu que ‘sim, que os tapetes não ficariam vincados’ foi a mulher loira enfiada em cetim verde, elegante, bronzeada, pendurada em saltos agulha, mais parecendo dona do espaço que contratada para dele fazer obra de arte. Arriba a sócia, versão ‘vou-me daqui para caçar num monte alentejano’, com capote e botas e calças coerentes com o visual escolhido. Tal como a parceira, dama fina, boca muito aberta ao falar, vogais enfatizadas a denunciarem cópia de Cascais ou da Lapa ou doutros lugares que os há muitos.

 

Após as apresentações, as bochechas das especialistas (?) encostadas, como se fora beijo, às da mulher do saco na mão. Esta, rindo por dentro, tirou o fato de passarinho que modista havia alindado. E a dona gostou, achou-o ‘amoroso’. A de cetim condescendeu a um ‘tá demais!’. E os tapetes enrolados continuavam a entrar. E no salão, homem fardado ‘à maneira’, ferramentas sobrando dos vários bolsos, pendurava quadros nas marcas ditadas pela de cetim. E a mulher, já sem saco na mão, a tudo assistia boquiaberta. Para si resmoneava:

_ Onde estais protetor dos aflitos que gaiolas de vidro esconjuram?

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:36
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Sábado, 29 de Dezembro de 2012

UM SÓ

 

Moleskine - autor que não foi possível identificar

 

Conta anos, a desistência da listagem de mudanças pessoais para o novo ano. Escrita com letra miúda em blocos pequenos e modestos com linhas. Generalizada a Moleskine em 1997, a dos cantos arredondados e elástico, uso para outros fins – anotações ocasionais de leituras, de filmes, do filme que a vida é. Nada de pensares grandiloquentes como os de Vincent Van Gogh, Pablo Picasso, Ernest Hemingway, Bruce Chatwin e outros desde par de séculos atrás para diante.

 

Sem desmentido a graça duma Renée Zellweger no “Diário de Bridget Jones” ao alinhar, descabelada no íntimo e em vésperas de Ano Novo, projetos que dela fariam, supunha, mulher ideal segundo estereótipos sociais, para um Daniel Cleaver mulherengo, manipulador, para um Darcy formatado e sobranceiro. A desistência pessoal do rol aconteceu nessa altura. De tão ridícula a falência do ser perante comandos alheios, guardados foram os blocos e as listas dos bons propósitos anuais. Trocadas por críticas diárias. Com vantagem: o futuro é daqui a minutos, o amanhã começa agora. No tempo da resolução, desinteressante antecipar Darcy como romântico de arroubos apaixonados que aceitava a insegura Bridget tal qual.

 

Projetos de Ano Novo?

 _ Sim. Um só: economizar parte da renda mensal para ajustar contas com o fisco lá p’rós fins de 2013.

No resto?

 _ Recusar cristalização.

Este, antigo, sem merecimento para figurar aqui. Por isto, atrás escrito: “um só”.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:08
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Terça-feira, 20 de Novembro de 2012

MozART GROUP

 

Pablo Picasso - Mandolin

 

Música comediante sem perder valores clássicos. À tradução prefiro o original onde o MozART GROUP se apresenta (consta do rodapé do vídeo no CAFÉ DA MANHÃ). Leitura que aconselho para melhor entender este excecional grupo que divulga música clássica e de outros géneros sem pôr em causa o virtuosismo individual e coletivo.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:11
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