Sábado, 28 de Junho de 2014

‘DE PRATA’, DIZIAM

 

Pascal Chôve

 

Vinte e cinco anos. Sem terem galgado o tempo num «ontem» próximo. Antes recuado. Longínquo. A distância insinuou-se afastando-os. Primeiro, na partilha do sofá. Já sentada entre eles, cobriu-os com manto frio. Dobraram assentos e silêncios. A economia da fala e da partilha pretextou, depois, a divisão de serões. Cumprido o ritual do jantar, ela voltava à sala, ele escapulia-se para o escritório. A banalidade conjugal adormecia com eles. Em silêncio.

Bodas de prata. Marcantes. Dolentes. Num impulso, ele largou tudo e saiu. Uma joia, talvez. E flores como há vinte e cinco anos atrás. Mas não. Seria despropósito. Queria clivagem. Rutura com erros e rotinas. Um recomeço. Optou por um vestido. Branco a condizer com uma nova união, diferente, virginal na acidez das memórias. O tamanho era o dela, sabia-o, sentia-o nas mãos - não esquecera as fronteiras do corpo que desejara, desejava e ambos negavam. Desencontrando frieza e dissimulando o amor.

Ela experimentou o vestido. Viu-se de branco. Corpo bem delineado surgindo do viés da seda. Gostou. Mirou-se num sorriso - não distava assim tanto da mulher que fora! - e voltou-se. Deu-lhe um beijo grato e feliz sem o demorar. Sentia-se cansada. O trabalho do dia, naquele exato instante, pesou toneladas. Carga excessiva para reunir forças e ir jantar fora. Ficaram em casa. No silêncio do costume. Estropiaram ilusões. Como de costume.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:04
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Segunda-feira, 7 de Outubro de 2013

NO ENREDO DOS AMORES

 

Pascal Chôve

 

Nem todos os dias são feitos para amar. Nuns, amamos mais do que nos outros. Todos os amores, sejam maternais, paternos, filiais, românticos, aqueles que amigos nos inspiram, ora reluzem como néones, ora são luzes de candeia, ainda assim dirigindo escolhas que rendilham toalha onde é exposto o caminho traçado na vida.

Hoje, como em tantos outros dias, exalto os amores da minha vida. Os que não findaram com o desaparecimento de quem os motivava e continuam inteiros no coração. Os presentes a lembrarem quotidianamente não sermos icebergues solitários vagueando nos oceanos. Oceanos de horas, dias, semanas, meses, dos anos que de cada um fizeram quem é.

 

No enredo dos amores soltamos risos e lágrimas, experienciamos mágoas e êxtases que organizam o arco-íris visível dos tons ardentes iniciados na quentura do vermelho e terminado no frio violeta. Antes do encarnado, sem perceção visual, os infravermelhos aquecem corpos e almas. Além do violeta, sem olhar que distinga, os ultravioletas respondem por transformações químicas que alteram matéria nossa e alheia. Neste diálogo das radiações brandamente sopradas pelo Sol, somos e sentimos.

 

Nos dias feitos para amar, surgem (...)

 

Nota: há intantes, publicado aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:59
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Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011

NA HORA MORTIÇA, GRITOU O BREU

Pascal Chôve 

 

Nem tinha sido diferente o acordar. No breu do quarto, arrebanhou os precisos com o olhar de gato que a escuridão potencia mais o hábito mais o intuitivo saber dos sítios onde o pijama e as meias e os sapatos de casa caíram antes do deitar. Com tudo numa braçada, saiu. Só então, protegeu a pele nua do frio. Lavou o rosto e os dentes, alinhou com os dedos o cabelo; ao espelho, não se viu – conhecia de cor o reflexo pela insistência do nitrato de prata atrás do vidro em devolver imagens fiéis. Impiedosas por vezes. Cruéis nunca, que as coisas ignoram sentires e limitam-se a fornecer os objectivos que presidiram à respectiva criação.

 

Na cozinha, o almoço pequeno e frugal. Ligou a rádio. Nada de inesperado ou que não fosse sobra da véspera, como restos do jantar acondicionados em caixa tapada. Servidos em falta de paciência para novo fazer ou numa pressa comum. Lembrou o escuro e quem respirava sono nele. As razões dos pés nus ao sair da cama. O assim continuarem até à certeza do silêncio preservado. Para quê? _ Apaziguar consciência, descartar culpas incómodas? Não gritar em hora mortiça, nada querer daquele corpo outro, dormido ou acordado? Fumegava o café, gritou razões. Escancarou a janela da alma centrada no coração. Três portas cerradas entre o sítio negro e a luz e a rádio e os olhos fechados e o clamar do mal-querer.  

 

Moveu a perna semi-dobrada. Depois, o rosto imóvel. Sentiu a almofada e a maciez dos lençóis. Estendeu o braço para o lado. Inundou-a alívio por não lhe pertencer o drama. Alagou de prazer incontido a cama. No breu, sorriu.

 

CAFÉ DA MANHà

 

Cortesia de Veneno C..

 

publicado por Maria Brojo às 07:17
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Sábado, 19 de Dezembro de 2009

A FALA NO SEXO


Pascal Chôve

 

Quando se perdem palavras, o património cultural empobrece. Exemplo falado pelas mulheres é a progressiva contenção verbal dos homens no sexo. “Já não existem homens que nos enlouqueçam desde o primeiro momento da intimidade.”  E é concluída a masculinidade perdida se confrontadas com discurso sexual politicamente correcto na cama. O gay eleito como homem ideal – é amigo, fala com naturalidade dos afectos e não equivoca pela declarada opção.

 

Homens e mulheres submetem-se a pequenas/enormes ditaduras sociais. Fica diminuído o espaço das liberdades privadas indispensáveis à felicidade quando, para a conseguir, é necessário protegê-lo. O vernáculo nos jogos eróticos tem o seu lugar e papel na procura do prazer. Dispensá-lo acefalamente pelos novos preconceitos é renovado “macarthismo”. Utilizar «palavrões» sexuais por obediência à tradição, sem que  surgidos espontaneamente, é forma outra do mesmo. Por detrás da rebeldia conversadora, está a doutrina do vocabulário único.

 

O verbo “foder” é para muitas mulheres o melhor para descrever o acto sexual. Elas querem-no. Não conheço uma que não prefira ouvir serem boas e apetecíveis para “foder” do que loas tecidas à sua beleza e inteligência. Homens e muheres descomplexados no estar e na fala entre lençóis fazem e dizem o apetecido. Procuram o seu e o prazer do parceiro. Libertos. Satisfeitos.

 

Dominar a mulher na cama faz sentido se o inverso for verdadeiro, surgida oportunidade. Iguais na desejada diferença. Ser fruída como os velhos galãs do cinema faziam pode ser item do imaginário feminino traduzido em gozo. Opção de ambos – regra básica. E ela usa ou não, como ele, os jargões. Sai dignamente do lugar onde o ultraje verbal mútuo foi desejado e consentido. O estereótipo de ser exclusivo de putas está arruinado.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

publicado por Maria Brojo às 10:21
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Olá Tudo bem?Faço votos JS
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