Sexta-feira, 30 de Maio de 2014

SE ATÉ ELE DESISTIU!

 

Pat Durgin – “A Fine Team”                                                                                            James Knowles – “Cavallos Mar”   

 

Chegam, as mais das vezes, com palas que é suposto a escola retirar. Disciplinar. Explorar toda a beleza interior. Ensinar conteúdos e o valor do trabalho. Devolver, garbosos, à sociedade. Mas não é este o quadro vero da realidade dos docentes e da escola que temos, presente e ausente pelos indigestos burocratas/ordenadores, fariseus alguns, acomodados em gabinetes distantes da verdade quotidiana. Destinada às crianças do 2º ano e do 4º ano do Ensino Básico, hoje é dia da prova intermédia nacional de Matemática que, tal como a de Português da passada terça-feira, tem os intervalos de tempo entre perguntas e respostas temporizados por apitos. Mais parece treino de cavalos de corrida do que processo de avaliação.

 

Recebi esta parábola exemplar.

 

"Naquele tempo, Jesus subiu ao monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem. Depois, tomando a palavra, ensinou-os, dizendo:
_ Em verdade vos digo, bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; bem-aventurados os misericordiosos, porque deles...

Pedro interrompeu:
_ Temos que aprender isso de cor?
André disse:
_ Temos que copiá-lo para o papiro?
Simão perguntou:
_ Vamos ter teste sobre isso?
Tiago, o Menor, queixou-se:
_ O Tiago, o Maior está sentado à minha frente, não vejo nada!
Tiago, o Maior gritou:
_ Cala-te queixinhas!
Filipe lamentou-se:
_ Esqueci-me do papiro-diário.
Bartolomeu quis saber:
_ Temos de tirar apontamentos?
João levantou a mão:
_ Posso ir à casa de banho?
Judas Iscariotes (era mesmo malvado, com retenção repetida e vindo de outro Mestre) exclamou:
_ Para que serve isto tudo?
Tomé inquietou-se:
_ Há fórmulas? Vamos resolver problemas?
Judas Tadeu reclamou:
_ Podemos ao menos usar o ábaco?
Mateus queixou-se:
_ Eu não entendi nada. Ninguém entendeu nada!

 

Um dos fariseus presentes, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada, tomou a palavra e dirigiu-se a Ele, dizendo:
_ Onde está a tua planificação? Qual é a nomenclatura do teu plano de aula nesta intervenção didática mediatizada? E a avaliação diagnóstica? E a avaliação institucional? Quais são as tuas expectativas de sucesso? Tens a abordagem da área em forma globalizada, de modo a permitir o acesso à significação dos contextos, tendo em conta a bipolaridade da transmissão? Quais são as estratégias conducentes à recuperação dos conhecimentos prévios? Respondem aos interesses e necessidades do grupo de modo a assegurar a significatividade do processo de ensino-aprendizagem? Incluíste atividades integradoras com fundamento epistemológico-produtivo? E os espaços alternativos das problemáticas curriculares gerais? Propiciaste espaços de encontro para a coordenação de ações transversais e longitudinais que fomentem os vínculos operativos e cooperativos das áreas concomitantes? Quais são os conteúdos conceptuais, processuais e atitudinais que respondem aos fundamentos lógico, ‘praxeológico’ e metodológico constituídos pelos núcleos generativos disciplinares, transdisciplinares, interdisciplinares e meta disciplinares?

 

Então, Caifás, o pior de todos os fariseus, disse a Jesus:
_ Quero ver as avaliações do primeiro, segundo e terceiro períodos e reservo-me o direito de, no final, aumentar as notas dos teus discípulos, para que ao Rei não falhem as previsões de um ensino de qualidade e não se estraguem as estatísticas do sucesso. Serás notificado em devido tempo pela via mais adequada. E vê lá se reprovas alguém! Lembra-te que ainda não és titular e não há quadros de nomeação definitiva!

 

Jesus, estafado, pediu reforma antecipada aos trinta e três anos."

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:55
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Terça-feira, 27 de Setembro de 2011

E FOI-SE O GATO!

Colleen Ross, Pat Durgin

 

Anda uma pessoa para baixo e para cima feita ioiô, acarta, descarrega, volta a acartar e a descarregar e o lado mecânico dos gestos atrevem comando se a consciência não estiver alerta. No entardecer brando do sopé da Estrela, era a última das viagens do dia. Limite de velocidade: os cinquenta habituais nos mil e poucos metros de estrada cujas margens de floresta, moradias e respectivas quintas ou quintais andamento mais rápido não autorizam.

 

Ruminando sobre o feito e por fazer, desesperada por banho que relaxasse o corpo, conduzia ocupada pelo espírito e pelo rolar. Bichano atravessa a estrada em passos lentos ignorando que pneus no alcatrão implicam risco. Possivelmente, pela hora, ia a caminho da janta que os donos ou a fortuna lhe houvessem preparado. O olhar confiante dirigido ao automóvel manteve-se enquanto o motor se aproximava. E ele atravessava como se o cobrisse manto protector ou fosse elefante de África rumo à savana.

 

Ao volante, escassos segundos para travar. Enquanto isso, como se de dentro para fora alerta espevitasse o pasmado, clamava: _ Sape gato! Sape gato! Detido o automóvel, saí - fora audível pancada. Coração feito ervilha, espreitou mas gato “viste-o!”. Aflição em crescendo, imaginava-o estendido sob a lata. Eis que, ao virar-se, vê o bicho sereno, junto a ela. Antessentida reprovação no olhar. Afagando o pêlo, soube terem feito as pazes. De supetão, meia-volta e “ala que se faz tarde”. Foi-se. A meio, parou, olho assestado na mulher. Depois, corrida pelo apetite da janta mais importante do que ela. Interpelou-a a postura do animal que não arredou patas sem exprimir, firmemente, indignação. Ora, se até os gatos são dignos ao recriminar, porque não fazem semelhante os humanos pisados pelas diversas opressões?

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:07
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Quarta-feira, 31 de Agosto de 2011

ENTRE OS ‘DE LÁ’ E ‘OS DE CÁ’, ‘ALMINHAS’

Pat Durgin

 

À freguesia de Aldeias pertence São Cosmado e Alrote, respectivamente ‘povo de cá’ e ‘povo de lá’. Neste, havia somente capela, maior pobreza, menos população, embora aguerrida. ‘No de cá’, tinham casa famílias de nomeada com direito a solares ocupados quando Setembro chegava: o do Dr. Pedro e o do Dr. Raul. Do primeiro, o tio-bisavô padre Alberto Brojo, homem culto, foi capelão como anteriormente sucedera com os marqueses de Gouveia. Era o tempo da influência da Igreja Católica junto das gentes, fossem de última ou primeira água na hierarquia social. Era o tempo dos apelidos sonantes que serviam de cartão de visita e conferiam primazias várias a quem deles o notário oficializava o uso. As meninas Brojo, pertença da quarta geração anterior à actual, muito fruíram dos inúmeros salões, quartos, pianos e fantasmas inventados pela Carmo Isabel quando pretendia assustar as primas. Postada na base da escadaria de pedra que subia até à escuridão do sobrado, gritava:

_ Foge Rosinha, que vem aí a Ema!

E a benjamim das mais recuadas meninas Brojo, quando adulta bonita mulher que pêlos no queixo não desfeavam, fugia a sete pés tomada de pânico, não vislumbrasse da Ema, antepassada dos da casa, a caveira sob o manto/lençol branco.

 

As relações entre os habitantes ‘de cá’ e ‘de lá’ primavam por rivalidades. O povo de São Cosmado não interferia com o de Alrote salvo quando provocado. E era-o vezes algumas, também nas festas votivas: Nossa Senhora da Conceição e o mártir São Sebastião, lá, São Cosme e São Damião, cá. Eram discutidas com minudência as imponências das procissões, quantos anjinhos e andores, o comprimento das carreiras de gente atrás do padre e à frente da ‘música’ (banda filarmónica contratada), o andamento a compasso. Noutros momentos, não raros, junto às ‘alminhas’ que nos dizeres antigos eram separador geográfico dos povos, confrontos à paulada entre raivosos e divertidos garantiam falatório nos dois lados por muito e bom tempo chegado ao hoje por via da tradição oral. Para não acicatar o espírito conflituoso, a mais velha das meninas Brojo ao falecer com oitenta e muitos, teve de esperar no esquife, junto ao adro da Igreja de São Cosmado, antes de lhe ser permitida entrada no lugar abençoado por não estar acabada a missa que culminava, de Alrote, a festa da Nossa Senhora da Conceição.

 

Em idos, na passagem pelas ‘alminhas’ - bloco de granito com cruz esculpida e enfeitado por flores anónimas - tudo podia acontecer: orações com lágrimas, ataques de surpresa aos rivais ‘de cá’ que ‘para lá’ iam por amores ou obrigação. Bem pensou e melhor fez um de Alrote, enciumado por serenata a moçoila que dele era a luz dos olhos. Escondido atrás do bloco, ouviu do passante concorrente:

_ Adeus ‘alminhas’!

Retorquiu:

_ Adeus ó bêbado!

E o romântico movido a etanol por ali quedou pasmo, esquecido do objectivo.

_ «Atão» falais agora sem nunca antes me teres dado as boas noites? Pró catano convosco!

Amofinado, não passou adiante.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:19
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Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011

‘CHAROLESES’ É QUE NÃO!

David W. Aranson, Pat Durgin, Lisa

 

Estamos gordos. Maioritariamente, não atingimos ainda o estado de ‘charoleses’ como os americanos que num transporte requerem dois lugares para lhes alojar banhas. Se desprezarmos o cuidado alimentar, pais e filhos, a cada bife com batatas fritas mais ovo a cavalo, a «nanha» – massa adiposa - cobrirá os músculos até serem vaguíssima memória. A coisa crise pode ajudar, assim haja inteligência, educação privada e institucional: faltando o «carcanhol» levarão coice bebidas com bolhinhas, bolaria, carne vermelha, por hábito empanzinar nas refeições principais. Com os programas alimentares patrocinados através do Ministério da Educação, da Saúde e outras entidades responsáveis, talvez a honesta sopa de feijão com couve, cenouras e nabo regresse às mesas nacionais. Quem diz esta, diz outras tão nutritivas quanto ela. Gula diminuída - metade da dose comummente ingerida satisfaz.

 

A pressa, há quem pense e pratique, justifica comida de microondas, panados pré-feitos afogados em óleo nas frigideiras. O caldo de entrada nem vê-lo pela demora e trabalho de preparar os legumes. Saladas, esparregado doméstico, grelos salteados omissos por razão parecida. Todos colaborassem e o cenário mudaria - preparar uma refeição em família propicia diálogo conjunto. O peixe, que aos miúdos provoca esgar, com imaginação no cozinhado, aos poucos, é aceite pelo palato. E nem precisa de bater a guelra na banca do supermercado – muito há congelado conservando nutrientes essenciais.

 

A consciência, o exemplo familiar e a autoridade fabricam milagres na educação da pequenada. As escolas colaboram ao servirem refeições completas no respeito da pirâmide alimentar. Se os pais cortarem nas verbas para bolaria e chocolates e sumos e fast-food, enviarem de casa sandes e fruta, vigiarem a aquisição de senha para almoço na cantina do estabelecimento de ensino, talvez os nossos jovens não subam a rampa da obesidade e doenças associadas (diabetes e cardíacas). A par do Desporto Escolar, do praticado em família chegado o final da semana, as banhas cederão. O ganho é de todos: melhor qualidade de vida, portugueses mais saudáveis e equilibrados emocionalmente pelo aumento da auto-estima, mais altos, mais bonitos. Acompanhado por horas de sono bastantes, aposto melhorar a produtividade geral e o rendimento escolar.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:37
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