Quarta-feira, 28 de Setembro de 2011

GRUPO DE BAILE

Paul John Ballard

 

“Essas miúdas das escolas secundárias
Com cheiro a leite e o soquete pelo artelho
Ficam maradas com o teu charme perfumado, Yeah
O teu perfume patchouli”

 

Exibi o tornozelo acima das soquettes. Foi meu o aroma da inocência. «Marei» com o cheiro dos livros novos e o charme de rapazes. Usei os livros presos em correias. Como menina de bom-tom, discretamente enviesei o olhar quando uma «brasa» me queimava o passar. Aprendi a (des)controlar a exígua liberdade. Aprendi a gostar de aprender. Irreverente, ousei o (im)possível no clube de rádio do Liceu – inundar corredores e pátios como o Je t'aime moi non plus. Velho na altura, propício à descoberta dos sentidos. Porém, não recordo a embriaguez do patchouli.

 

“Essas miúdas das escolas secundárias
Já fumam ganzas na paragem do eléctrico
Conversas parvas com mais buço que pintelho
Não dizem duas quando estão ao pé de ti”

 

Passarinhei em bando de miúdas tagarelas. Usei saias kilt, minis e ultra minis, hot pants com botas de verniz presas por fivela acima do joelho. Falhei as «ganzas», o eléctrico e autocarros – mediando curta distância entre a escola e a casa, caminhei nas manhãs frias, gozei o mistério dos nevoeiros; pingos de chuva escorreram nos meus cabelos soltos e no rosto. Tive conversas parvas, algumas intelectualmente pretensiosas. Não dizia «duas» nas festas de garagem ou nas do clube frequentado pelos pais e famílias amigas. Mal sabia dançar enlaçada, e, quando numas férias em Gouveia, o primeiro delico-doce pousou, demorando, os lábios na minha mão que apertava, esfreguei-a tomando o afago por inoportuna coceira. Mas reforcei no Liceu, depois Escola Secundária, a curiosidade. Mais que rol de conteúdos e conceitos e mnemónicas e fórmulas, ensinaram-me o gozo da descoberta. Afrontar dificuldades. Sentir o aguilhão do erro. Olear a engrenagem racional. Não fugir a desafios, sendo eu a adversária. Fui miúda banal que falhou as «ganzas» e o patchouli.

 

Nota - reposição modificada de texto com anos.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:28
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Quarta-feira, 4 de Maio de 2011

A BITA

Paul John Ballard

 

           A Bita. No ecrã, origem desconhecida; pela hora, certa a origem. Por isso atendeu – de costume, recusava ‘anónimo’. Voz grave. Desconcerto para quem lhe conhecia o saltitar alegre do “A menina como está?”. Intervalava fala com risos. Partilhas que o relógio esquecia ou comprimia sendo imposta crueza normativa do trabalho. Mas fora o “Bom dia!” esquecido e a fatalidade esgueirada sem fios que cavaram sulcos preocupados. Do “que aconteceu?” teve resposta:

 _ Partiu-me o pulso!

           Silêncio. Interrompeu-o. Quis saber mais do que sabia: a partilha, tensa como funda esticada e pedra na ponta, da casa de família com o futuro ex-marido dentro. Os filhos testemunhas e vítimas da agonia conjugal. Das perfídias. Das réplicas violentas. Da agressão mútua. Psicológica até ao momento.

          _ Cheguei do hospital, engessada, mas sem dores. Foi quando saía de casa para as compras de sábado. Puxou-me. Tentei escapar. Agarrada, torceu-me o pulso até o sentir ranger. Os miúdos ainda dormiam. Eu, só. Fugi, chamei um táxi e fui para São Francisco Xavier.

        O tom monocórdico respirava anestesia.

              _ Estou bem.

       Sem lágrimas, soube da polícia que a acompanhara desde a entrada na urgência. Do remedeio clínico, da ida à esquadra, do auto lavrado, do regresso na viatura policial. E as lágrimas e as palavras que não iam nem vinham. _ Vou dormir. Tenho os meus pais comigo. Se precisar ligo, querida.

        Dos dias, gostava todos. A cada um, surpresa. Mas era sábado. Previsíveis seriam remansos, acordares quentes, mãos com tempo para a pele. Amor no sumo de laranja fresco na mesa. Talvez feito da paixão arredada da Bita, mas que dera filhos e anos, pela memória não inscritos no rol do haver bom.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Cortesia de Açúcar C..

 

publicado por Maria Brojo às 07:01
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Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011

LAGARTIXA, CENTOPEIA, OSGA? TALVEZ!

Paul John Ballard, Lhadz, Dren Elbaz

 

Humor rastejante. De lagartixa, centopeia, osga útil? Talvez! Raridade na matriz que me constitui. Ociosidades como razões: capot torcido por colisão idiota, dois dos três computadores mudos - o fixo alia, quando ligado, monitor pintado de cor-de-rosa faça eu o que tentar em malabarismos inúteis -, números de telefone perdidos devido a afogamento de trindade de telemóveis em pouco mais de dois meses. Descuidos últimos, estes. Parvos, está visto! Motivos sérios: dores alheias que tomo por minhas e cujo apropriamento merecem, amiga desaparecida por confusões e mal-entendidos fúteis.

 

Provado está que riso ou gargalhar quinze minutos ao dia prolonga vida quatro anos e meio. Desde há um dia, estou em défice. Dada ao sorriso, ao rir pronto, não me reconheço – mais pareço figura encalhada, fantasma da mulher que sou, ou soía ser. Arriscando dizer-me consciente do sério e do frívolo, é desgosto este afundar. Qual dos diabos em que não creio me subtrai características/armas indispensáveis ao ser alegre, feliz as mais das vezes? Os diabos existem para além das metáforas ou superstições? Não «m’acredito»! Mas porque razão, confluem incidências num sentido único? No lo sé! Adoraria saber.

 

Nova boa que me arredonda os lábios no sorrir: os «bifes» adoptaram Beja como destino turístico em alternativa ao instável Norte de África. E a Costa Alentejana ali tão perto... Sabem eles o ganho? _  Só vendo aquela belíssima fronteira da Europa!  

 

Nota: o mui estimado Pirata Vermelho que se livre de sublinhar a infelicidade das zurrapas matinais. Pois se nem almejo ouvir o que publico, quão mais pedir?

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 06:17
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