Segunda-feira, 9 de Junho de 2014

CORREIO SENTIMENTAL

Alphonse Mucha

 

«Sedução no feminino. Sem receita unívoca. Desabrochando à luz da ocasião.»

 

Vinícius que me desculpe, mas beleza não é fundamental.
Mulher sedutora é rodopio dos sentidos,
Seduzida por condição,
Espírito desenovelado,
Corpo solto.
Sensual desde o raiar da manhã;
Água que escorre pelas colinas alcantiladas,
Os vales e o sopé da vida
afagando as curvas de mulher.

 

Mulher sedutora precisa de amar.
Mais que ser amada, porque nos afetos é rainha.
Neles se sacia,
Deles nasce fome por mais e diferentes.
Pontes e gosto por travessias.
Ir além da margem dos outros.
Do regaço verter ternura como rosas,
Perfumando com elas os passos.

 

Seduzir um homem decorre do desejo pela vida.
Do gostar.
Do peito cheio,
Intumescido pelo colostro que sente latejar.
E que homem não confunda o gosto de gostar com paixão.
A sedução nem sempre (…)

 

Inspirado em Receita de Mulher” de Vinicius de Moraes

 

Nota – na íntegra, aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:23
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Sábado, 8 de Dezembro de 2012

SOBRE A BELEZA

 

Ilaria Roberti

 

John Keats na "Ode a uma Urna Grega", escreveu:

Beleza é verdade, verdadeira beleza, - isso é tudo.

Sabeis na terra, e todos precisam saber.

 

Procuramos a beleza que se esgueira e cada um inventa. Num rosto, num perto ou num horizonte. Indiferentes aos critérios e cânones dos estudos que investigadores sobre a beleza fazem tese. Talvez os humanos lhes obedeçam e confirmem créditos à ciência que os gera.

Ou não.

Pela subtileza de traços discordantes que induzem fantasias, lábios cheios como os da Angelina Jolie são fascínio para muitos. Boca insubmissa às regras clássicas e outras graníticas nas normas.

 

O quê/muito da inocência que transparece da inquestionável beleza da Marilyn é a sensualidade abrangendo mitos sem tempo no tempo. De Eugénio de Andrade, no “Coração do Dia, Mar de Setembro”, a constatação:

Branco, branco e orvalhado

O tempo das crianças e dos álamos.

 

Eugénio de Andrade, na mesma obra, torna a escrever sobre fundos humanos. Servem como luva à beleza senhoril de Audrey Hepburn.

Mãe…

Na tua mão me levas,

Uma vez mais

Ao bosque onde me sento à tua sombra.

 

É contra a solidão

Que levanto o meu grito

Reclamando um rosto

Por sobre o vento

Um rosto no deserto

Uma água que não se escoe na areia.

Na precariedade,

Eu queria árvore que resistisse

Aos temporais de fim de Outono.

 

Nota: texto acabado de publicar aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:19
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Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011

VAGAMENTE PRIMAS

Autor que não foi possível identificar

 

A mãe era vagamente prima e não interessa se pelo lado do avô ou da avó. As duas filhas continuaram tão vagamente primas como a mãe, rotunda senhora sempre de negro vestida e com pêlos no queixo como a tia Rosa que, atenta à aparência, mais tarde usaria a «depiluva» ao vê-los espigar. Anos e anos antes, os pêlos das mulheres cresciam viçosos estivessem à vista ou não. Saias e vestidos roçavam a metade da barriga da perna - calças numa mulher era impensável como ir à rua em combinação – e dela permitiam ver a penugem, quantas vezes farta e escura. Para os homens era fetiche. Excitava-os imaginar o trepar das mãos até à catedral donde partiam. Descobrir a nave central e seus meandros. Nela, se derramarem.

 

As duas irmãs, vagamente primas, herdaram da mãe rostos sem graça, os abundantes pêlos no queixo e noutras partes que o visível denunciava, a coscuvilhice, o maldizer de tudo e de todos. No poleiro central onde viviam, davam fé de idas e vindas das gentes, a que horas, quantas vezes, do trajar, da postura, o que mais chegasse olhos adentro. E tricotavam lãs e o visto. Para aqueles três espíritos qualidades alheias iam às malvas; centrado o interesse do ser humano nos defeitos. Incongruente com o temperamento era a dedicação extrema a quem lhes caía no goto. Capazes de generosidade incomum, de mimar, de laços de ternura para toda a vida a que aliavam prendas domésticas, perspicácia e inteligência; neste particular, muito dotada a mais velha.

 

Verdade, verdadinha, é aquela trindade feminina reunir poucos amigos, sendo as vagamente primas mais temidas do que gostadas. Chegada a idade casadoira, pretendentes viste-los! Lá aparecia um corajoso de raro em raro que, de pronto, era investigado: quem era, donde vinha, que fazia, qual a história da família até à terceira geração antepassada. Tanto vasculhavam que, inevitavelmente, os «podres» apareciam; por tal o candidato despedido num ápice. Assim continuaram até passarem os trinta. A mais velha, focada, primeiro, na licenciatura, depois, na meteórica ascensão profissional, odiava homens e aturar um até que a morte os separasse era impensável. Já a mais nova aspirava a vestido branco e grinalda que fizesse deslizar a compasso da marcha nupcial no corredor do meio da Igreja de São Pedro. Mas onde encontrar homem com bravura suficiente para dela fazer noiva, esposa e mãe? Já o desespero assentara arraial no coração, quando surge um pasmado, silencioso, submisso, idade próxima, a quem nunca fora conhecida namorada. Saltaram a investigação minuciosa – naquela altura, a trindade desejava descendência e a continuar assim o estado dos dias, melhor era aceitar o homem como dador de esperma oficializado. E casou a mais nova das vagamente primas. Ao ficar grávida, depois ao nascer uma menina, foi o auge da felicidade. O acontecimento teve outra virtude: amaciou o estar das três mulheres.

 

A menina recém-nascida não podia fazer ideia mínima do que a esperava. Dizia o povo com razão:

_ Coitadinha! Irá ver-se da cor da abelha com aquelas três.

O pai nem era falado. A criança, alvo de amor absorvente, compostura isenta de senão, sempre muito enfeitada e vestida à moda de tempo que já não era, passeava pela mão da mãe na Praça, ia ao Central para ser exibida e gabada. Herdara das três mulheres a imperfeição dos traços excepto os pêlos no queixo. Aluna exemplar, licenciatura obtida com distinção, viria a casar e a ter par de filhos. Que seja sabido, também o marido não é visto, tal como acontecera com o sogro. Ambos distintos de missionários pelos meios e procriação autorizada.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:01
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