Quarta-feira, 11 de Março de 2015

MURMÚRIOS DE MULHER

Rene Magritte parody.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

René Magritte

 

 

 

Homem que me perdoe, mas sedução é fundamental.

Precisa de carácter e verdade transbordantes como vulcão.

Que o olhar derrame lava e urgência.

Misturar nos gestos tango e valsa lenta.

Ter sorriso de que apeteça descobrir os mistérios, e rir com eles.

Possuir mais que órgãos e pele.

Que ao falar lembre poema de Larkin,

água límpida brotando do espírito,

fonte oculta de que apetece beber.

Espírito com olhos e nádegas.

E mãos. Nunca húmidas.

Serenas e ousando um regaço de mulher.

 

 

 

O olhar tem de ser corajoso e denunciar pitada de luxúria.

Puxar pontas da alma e passear no corpo da mulher.

Com vagar.

Postura ereta, jamais vergada ao peso da vida.

Queixo direito ascendendo de pescoço sólido, capaz de afrontar borrascas.

Costas largas sustendo manto invisível que envolva e inebrie a mulher.

 

 

 

Sedução é simplicidade.

Tem um quê de fugidia.

Enigmática.

É ave sem gaiola.

Quer largueza de espaço perfumado com hortelã e poejos.

Cheiro selvagem da terra vivo no corpo da mulher.

Aberto ao desejo.

Sujeito à lua e marés.

Arribando à praia e recuado, depois, ao mar.

Eterno e efémero.

Homem precisa ser revolto e fundear carícias,

suave ao lamber a pele.

Tem de ser barco, vela enfunada, âncora.

Embriagante como medronho.

Remar em vai-e-vem voluptuoso.

 

 

 

Sedução não vem nos manuais.

Não se alimenta de fantasias de catálogo.

Sedutor cria, não recicla o visto e feito.

Sedutor não é quem quer - não se aprende dom que a nascença esqueceu.

Pululam sedutores de pacotilha,

imitações, cópias de pérolas.

Fancarias para noites de verão,

desbotadas ao raiar da aurora.

 

 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

 

 

publicado por Maria Brojo às 08:00
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Sexta-feira, 31 de Janeiro de 2014

A MINHA FRÁGIL TRASEIRA

 

 

 

Liudmila Kondakova – “Daybreak on Seine”                                                                                      René Magritte

 

Há uns anos escrevi isto. Nem obrigou a revisão minuciosa – continuo a pensar o mesmo. Que siga então.

 

Considero os automóveis os eletrodomésticos mais caros que já possuí. Por eles desembolsei balúrdios para a serventia que lhes dou. Atestados, são em tudo diferentes de um camelo – só têm uma bossa e escoam sem parcimónia o alimento. Piores que um gigolô por conta, presumo, por jamais lhe ter utilizado os préstimos. Perdoado me seja o desvio, mas gostava de saber à conta de quê se valorizam os “acompanhantes encartados” quando canasta sexual não é opção. Serão cultos e galantes? Lindos e polidos? Sendo tudo isso, o que, além do dinheiro, os motiva na «profissão»? Se bovinos de espírito não há «V» do físico cultuado nos ginásios que compense, digo eu. Para satisfazer cliente lasciva, bem podem acartar nos bolsos leite condensado e chocolate líquido – li isto algures e pasmei. Fosse comigo e, ao ver tal fornecimento, levava o homem para a cozinha e punha-o a bater claras após testá-lo na separação das gemas. Mediana mousse dali havia de sair, porque culinária como ingrediente indispensável a «cama boa» pretextam-me farta risota. Sem ofensa, juro!, mas o “Nove Semanas e Meia” já lá vai há um ror de anos e ainda sobrevivem resistentes apegados ao chantilly ou ao iogurte de morango.

 

Como condutora sou sofrível. Dou para os gastos, como soe dizer. Odeio buzinas, sou rabina e expedita, sem mimar por aí além os cavalos e a carroça. Circulando em autoestrada, irrita-me sentir veículo colado à traseira. Vai uma honesta cidadã empenhada numa ultrapassagem a 130km/h – ouvi serem dez quilómetros margem de consentida tolerância -, a via da direita repleta e um energúmeno pressionando a dianteira contra a minha frágil traseira. É lá coisa que se faça? Fartei-me! Adeus aceleração de cedência à pressa alheia. Que esperem. Que aguentem. Que esbracejem. Apenas regresso à direita quando segurança avisto.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:25
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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2012

RESUMO DUM AMOR DESCUIDADO

 

René Magritte, The Lovers, 1928

 

Chegara tarde: as horas extraordinárias no trabalho esticaram-se a mando do mandador. Sabia-a dormida. Outro serão entre paredes cujas manchas e frestas a mulher conhecia de cor ao meditar no casamento em que o seu homem era visita em vez de companheiro. Nem os fins-de-semana partilhavam pelo trabalho em turnos - nesta semana, calhara o dia.

 

Ao deitar-se sorrateiro, não acordasse na mulher a tristeza, também ele tentou embalar o sono afastando do pensar o quotidiano mal pago, a exploração que aos dois castigava. Adiar filhos, consequência. Talvez um dia a vida girasse. Talvez gravidez e família como o desejado. Talvez ganhasse o “euro milhões”.

 

Recusando Morfeu acolhê-lo nos braços, levantou-se. Na cozinha, fruta da época; pouca, que a soma do pré de ambos a mais não chegava. Retirou maçã luzidia, verde na cor; polpa suculenta, parecia. Aconchegado no sofá puído, olhava a maçã. Perfeita. Rodou-a na mão. Tomara que o seu pequeno mundo fosse assim macio e não tolhesse os sonhos que ele e a mulher haviam construído no início. E rolava a maçã. E a paz conquistou-o. O sono chegou com ela.

 

Ao acordar no sofá, já a mulher havia saído para as limpezas no banco - ‘ponto’ não ‘picado’ a tempo obrigava a desconto no salário mínimo. Seis da manhã, informou o despertador aos gritos. Era o duche, a carcaça mastigada à pressa, o café doméstico. No gingar do comboio, impôs-se o sonho vívido. Lembrava detalhes, não o todo. Maçãs como rostos, chapéus de coco, homens de fato e gravata negros pingando do céu, cachimbos. Bizarro, concluiu.

 

René Magritte parody

 

A concentração no trabalho manteve incólumes as imagens. Mais viu: beijo quente trocado com a mulher. Senão: rostos tapados e lábios sem contato direto. Beijo era, mas faltava a suavidade das marés nas bocas. Pela vida e culpa própria, resumo dum amor descuidado.

 

René Magritte

 

Nota: texto publicado aqui por inspiração deste do Diogo Leote.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:16
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Sexta-feira, 2 de Novembro de 2012

DIÁLOGO IMPOSSÍVEL

 

René Magritte (Perspectiva II: O Balcão de Manet), Édouard Manet (A Varanda), Francisco Goya (Majas à Varanda)

 

Personagens: a Varanda de Manet e a de Magritte.

 

A de Manet:
_ Olha para mim tão bem «esga­lhada»! A de Goya, “Majas al Bal­cone”, foi ins­pi­ra­ção, mas nesta tive a cora­gem de pôr o homem de frente.
A de Magritte não se con­tém:
_ E que culpa tenho das Majas esta­rem mor­tas e enter­ra­das quando nasci na pin­tura? Muito bem con­ser­va­dos estão os caixões!

 

Nota: inspirado no texto que publiquei aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:57
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Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

GAIOLA DE VIDRO (I)

Bryan Larsen

Autores que não foi possível identificar, René Magritte

 

Uma casa. Nova. Torres de apartamentos, no todo, encerrados por grades. Jardins em construção. A cova da piscina forrada e vazia. Como as casas cujos compradores ainda não habitam. Porteiro e telefone na recepção a impedir entrada livre da família, de amigos, o simples tocar da campainha e resposta pelo intercomunicador. Porteiro que ao comunicar com os proprietários vira costas a quem espera sob vento gelado, não seja recusada admissão por inconveniência do momento e exigida por resposta “não está ninguém”. Condomínio que de tão fechado engaiola quem lá vive. Liberta de intrusos, mas afasta a realidade quotidiana das paredes de vidro a partir das quais somente luzes e «luziratos» provam existir cidade outra, mais vidas além das resguardadas que ali fazem lar. Nem buzinas exaltadas sobem ao enésimo andar. Foi escolhido e obtido silêncio. Largueza e mármores cujo brilho encandeia. Dentro, madeiras nunca vistas, ambiente produto de estirador e decoradora. Onde ficas Lisboa das cantinas sociais que amparam misérias, dos desvalidos, dos embrulhados por jornais nos vãos que protegem, mal, da chuva?

 

Qualidade de vida(?) e luxo amalgamados. Beleza? Design raro? Impressiva arquitectura? _ Sim! Todavia, assusta a perfeição. Talvez quem assim opina seja campónia habituada a condomínios modestos se comparados àquele. No regresso, a memória dum espaço onde habita, desde há dias, família em instalação, feliz, tornando feliz quem a ama.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:53
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Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011

MEIA-LECA E ‘PIA FORA’

René Magritte, Zhang Qikai

 

Meia-leca - Expressão intrigante. O que será uma «leca» inteira? Metro e noventa? Dois? Sendo assim, o Marques Mendes não é «meia-leca» coisíssima nenhuma, mas sim quatro quintos da «leca». Ou seja, quase «leca» inteira. E no quinto da «leca» que falta parece residir a questão. A actual «leca» só foi atingida nos jovens pujantes à custa de Nestum. Antes, a «leca» era mais curta. Sendo que os criados a papa de farinha Maizena, tal como o Marques Mendes, se distinguem por escassos centímetros, é injusta a avaliação feita ao novo protagonista das 'conversas em família' - oratória sem contraditório. Aliás, foi provado ser o desempenho indiferente à fracção da outra «leca», a genital - a parte verdadeiramente excitante é a extremidade. Ora, sendo assim, mais «leca», menos «leca», não afecta a eficácia dos órgãos, nomeadamente o cerebral. E esse é que conta.

Copos-de-três - Direitos adquiridos não devem ser mexidos. Vendo bem as coisas, não parece correcto o atentado aos farmacêuticos com direito a alvará de farmácia. Ok, partilham alvará com taxistas, talhantes, drogarias e mercearias de bairro. Porém, distintos. Têm programas informáticos de última geração, vendem mais que pão quente e no estabelecimento tudo desliza: gavetas, funcionários e a máquina registadora. E não venham com coisas - lá por venderem perfumes, cremes de estética, bâtons, eyeliner, escovas de dentes e de cabelo, acessórios de moda, é tudo muito saudável e controlado. Bocas perversas insinuam venderem quase tudo excepto «copos-de-três». Retirados da exclusividade das farmácias os medicamentos de venda livre, como aguentaram o rombo e a contrariedade de não mudarem o Mercedes CL ou verem-se privados da escapadela no Burj al Arab do Dubai? Francamente... não se faz!

Coimas - Previa-se um saque ao avançar com semáforo verde-tinto, deitar o cabelo caído na camisa pela janela, ou não memorizar os limites de velocidade em vias rápidas, as menos rápidas e as que parecendo rápidas não são. Estou em vias de organizar post-it discriminado e colá-lo bem à vista. Reconheço ser possível numa rotunda de onde parta via que ignoro quão rápida é, tenha de parar, ler o papel e depois continuar. O cabelo esparramado na camisa branca lá terá de ir para o cinzeiro, ou esperar que pare para lhe dar destino. Mas grave mesmo é o atentado à soberania dos vícios. As coimas enunciadas no apelidado novo "Código da Estrada" mais parecem «tau-tau» no rabiosque de quem apenas demonstra respeito pelo usocapião nacional - claudicar sem culpa ou pena. Lá se vai o gostoso arremesso, tão português, do maço de tabaco vazio ou da ponta do cigarro pela janela. Infelizmente, o peso das tradições quejandas não desapareceu.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Sugestão de Veneno C.

 

publicado por Maria Brojo às 08:20
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