Sexta-feira, 9 de Maio de 2014

NO CALOR DUMA TARDE IDA

  

Théodore Roussel – “Reading Girl”                                                                  Robert C. Kirkpatrick

 

Nos sótãos onde julgamos tudo conhecer, a surpresa acontece em fios de pó; caminho riscado por luz coada pelas janelas esconsas. Do meu, subi a escada de granito e por lá me perdi numa tarde. Abri baús, destapei a cambraia protetora do que fora o meu carrinho de bebé. Abriguei melhor, num merendeiro forrado a chita florida, o mobiliário da «casinha das bonecas». Desdobrei fatos do bebé-chorão, alguns adquiridos na Materna, outros confecionados nos tempos livres da juíza, prima solteira. Nas gavetas e portas da secretária do avô, lá estavam os álbuns filatélicos e numismáticos, mais as partituras das músicas que compunha. Numa estante herdada das tias, desfolhei figurinos de moda do início do século, coleções completas do Reader's Digest, almanaques. Empalidecidos.

 

Pelo ar abafado daquela tarde quente fechei a porta de acesso e despi a musselina. Do vinil em fila, retirei um do Frank Sinatra. Prendi ao alto o cabelo e, mais livre do que vim ao mundo, destapei sofá para aconchego na leitura. Escolhi o almanaque do ano em que nasci. Conselhos domésticos, regras de etiqueta, mãos-cheias de lugares-comuns e primórdios saborosos dos livros de autoajuda.

_ Quando alguém fizer uma pergunta a que não queira responder, sorria e pergunte: 'Porque quer saber?'

_ Diga "Saúde!" quando alguém espirrar.

_ Case com uma pessoa que goste de conversar. Quando a velhice chega, a capacidade de falar e ouvir é o mais importante.

_ Confie em Deus, mas deixe a casa aferrolhada.

 

Dicas intemporais! Escorregaram décadas e as atitudes comummente sensatas, seja lá quais forem e não necessariamente minhas, constam do Larousse das Boas Maneiras – a substituição do irritante “santinho”, o rodeio polido da pergunta inconveniente, o essencial duma parceria amorosa, o amanhã que cada humano rege como motor e produto da engrenagem.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Frank Sinatra e Rita Hayworth em “Pal Joey”. Pela qualidade sonora, versão sem legendas mas aprimorada.

 

publicado por Maria Brojo às 08:30
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Segunda-feira, 9 de Setembro de 2013

A MULHER E A "CONSUMO FELIZ"

 

Autores que não foi possível identificar

 

Impressiona, desde os primeiros passos nas várias salas que expõem “Consumo Feliz”, a qualidade da pintura que serviria para matrizes de campanhas publicitárias britânicas. Adquirido por Joe Berardo o acervo da notável firma James Haworth & Company do Reino Unido cuja atividade teve início por volta de 1900 e continuada até cerca de 1980. Visão europeia da caminhada publicitária e do marketing decisiva para o entendimento do design gráfico contemporâneo.

 

Porque da evolução na área da publicidade na Europa pouco sabia, o meu interesse tem sido orientado para o feito nos Estados Unidos em semelhante intervalo de tempo, experimentei a surpresa do conservadorismo britânico no papel da mulher na sociedade e, por decorrência, na área tratada. Enquanto nos Estados Unidos, é patente a evolução feminina ao passar de objeto sedutor e alvo de sedução, de, pela fragilidade, pertencer-lhe o destino de ser protegido até protagonista na 2ª Guerra Mundial e no pós-guerra, no Reino Unido é ignorada a alteração do estatuto feminino. Ressalvo aqui porque bem patente na mostra, a importância da mulher na substituição do carvão e do petróleo como fontes energéticas pela eletricidade.

 

Na “Consumo Feliz” é omitido que estando os homens ausentes na guerra são substituídos na educação dos filhos, no mercado de trabalho pelas mulheres, as grandes decisoras nas opções familiares relativas à aquisição de bens que extravasam os simples consumos domésticos. Nos Estados Unidos, por esse tempo, as campanhas publicitárias relativas a automóveis são exemplo, ainda que as tabaqueiras promovam a mulher tentada e o homem tentador. Tomem-se como exemplos as campanhas da Philip Morris e de outras marcas. No caso da Philip Morris, a exposição contém o retrato pintado à mão do belo protagonista presente nas várias campanhas da marca (luz a mais ou a menos não me permitiram fotografia nítida). Finalmente, julgava, após inúmeras pesquisas, saberia qual o autor do retrato do personagem. Desilusão: “untitled” informava o guião da sala.

 

Feliz também a exibição de algumas páginas de figurinos de moda Art Nouveau, bem como divas de Hollywood - Katherine Hepburn, Elizabeth Taylor, Rita Hayworth, Grace Kelly, Gene Tierney, (...)

 

Nota: texto integral aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:35
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Terça-feira, 30 de Outubro de 2012

SOBRE NOITES DE VELUDO

Bjorn Richter

 

Não aceitando que do caos tenha surgido este Universo organizado, renovo a cada noite o assombro pela certeza do tempo que a Terra demora no rodar à volta dela e da estrela maior. Experimento a doçura de ter calhado esta forma de vida ao meu planeta. De não terem calhado em Saturno as noites dos meus dias. Vinte e nove anos terrestres para descrever uma órbita seria tempo demais para quem aprecia recomeços. E a lonjura? E o frio pela gigante distância ao Sol? Por isso me quero na Terra que amo e concede ciclos adequados à parte do meu ser que não se vê.

 

Quando a inclinação do eixo encurta os dias e faz maiores as noites, é tempo da rodilha do meu corpo aconchegado no sofá. Do livro no colo, da música sussurrada, do rosto lavado, das calças de algodão que o laço do atilho prende à cintura. De me erguer e, encostada à vidraça, desenhar caminhos das pérolas líquidas que as nuvens deixaram cair. São as noites aveludadas pelas sabrinas brandas que confortam os pés, da pressentida chuva, do frescor na rua. E a languidez distende a pele e os músculos. O espírito regressa ao tempo dos sonhos acordados que o apaziguam. Manso, chega o sono. Mansa, arrumo a noite sabendo que o giro da Terra outras renovará.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Homenagem a divas intemporais - Rita Hayworth, Doris Day.

 

publicado por Maria Brojo às 07:03
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Quarta-feira, 8 de Agosto de 2012

DO LÓTUS E DA CULPA

Lluis Ribas – da coleção “As Cores do Branco” 

 

São os leitos nodosos, turvos e densos, que melhor acolhem as raízes e permitem que a flor de lótus se erga delicada e vigilante. Toda a espera é uma promessa de incerteza e, por isso, ninguém pode saber o que vai dentro do coração de um lótus. Na realidade, são muitos os botões que permanecem fechados, numa obstinação imprevisível.

"Lótus de ouro" era o adjetivo mais generoso dirigido a uma cortesã chinesa; num registo mais amplo, o lótus simboliza a pureza também na união dos amantes.

 

Hollywood criou o mito das louras e os estereótipos a elas ligados. Ao platinar os cabelos, gerou uma nova versão da femme fatale. Marlene Dietrich em “Vénus Loura”, Rita Hayworth em “Dama de Xangai”, Bette Davis na “Floresta Perdida” e Vivian Leigh num “Elétrico Chamado Desejo”, ficaram inesquecíveis em papéis de louras, assim como Marylin Monroe. Depois, há as louras que por não o serem tão declaradamente nos esquecemos que o são: Jessica Lange, Sharon Stone e Liv Ullman. Todas sedutoras, todas protagonizando tórridos affairs.

 

Em idos, os affairs discutiam-se (ou escondiam-se) no recato do lar, na penumbra dos confessionários ou na rigidez dos tribunais. Hoje, o desejo sexual adquiriu alforria, embora ainda se queira precioso e com o perfume de especiaria rara. O homem receou o poder da sexualidade feminina e, por isso, tentou controlá-la ou anular reprimindo-a. A literatura e o cinema, frequentemente, consolidaram esses medos.

 

Herdámos o conceito do que se distancia do lugar almejado tido por «bem» é vivido como imperfeição ou pecado, contamina a liberdade e pesa como culpa, quantas vezes ociosa!, no indivíduo sem permitir que surja, pura, a flor de lótus.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:10
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