Sexta-feira, 13 de Junho de 2014

SE FOSSE ‘NOIVA DE SANTO ANTÓNIO’

 

Robert McGinnis                                                                                                                                          Nancy

 

Sendo moça casadoira não se me dava ser noiva de Santo António. Gostaria do ajuntamento de mais quinze vestidos brancos como companhia. Gostaria dos noivos alinhados em seu fato de «ver a Deus». Gostaria da cerimónia religiosa com pompa e circunstância na Sé de Lisboa. Gostaria de, após a função, ser aplaudida à saída pelas gentes curiosas. Gostaria de ser transportada com o já marido em ‘tuk tuk’ pela Rua da Prata até ao cimo do Parque Eduardo VII. Gostaria da comezaina animada na Estufa Fria sem nada ter organizado. Gostaria da presença dos ‘oito casais de oiro’, jovens nubentes em 1964 nas “Noivas de Santo António” e que contam meio século de união. Gostaria da festa sem ter gasto nela um cêntimo. Gostaria, se os saltos e o cansaço e as emoções permitissem, de anteceder as marchas populares no luminoso desfile na Avenida da Liberdade. Gostaria de contar a filhos e netos como fui estrela numa véspera do Dia de Santo António. Agradeceria ao finado Diário Popular que em 1958 inaugurou a tradição e à Autarquia de Lisboa que em 1997 a retomou após interlúdio desde 1974. Depois, sem remorsos nem pecado incutidos pela Santa Madre Igreja por copular na ilegitimidade, partilharia o leito com meu «esposo» dispensando lençol de cima durando o ato inaugural do aprovado ‘Enfim sós!’

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

publicado por Maria Brojo às 09:30
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Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2014

A PERCEPÇÃO DO PROIBIDO

 

 

  

Robert Mcginnis                                                                                Norman Rockwell

 

“Eu sou do tempo...” era começo de frase que, no «meu tempo» era exclusiva de avós e tias solteironas apoiadas em bengala encastoada com prata. À velocidade a que tudo por ora acontece, antecipada a idade para a proferir. Pela acrescida esperança de vida, muitos irão repeti-la a cada passo mais cedo.

 

Sou então do tempo em que as senhoras usavam combinação. Menina pequena, encantavam-me as rendas finas e os cetins brilhantes e sedosos. Lavadas com extremo cuidado numa solução de suave sabão de sedas. Tudo a rigor e com tempo. Secavam juntamente com outra roupa íntima, arredadas de olhares estranhos – não era de bom-tom exibir a olhos conspícuos tais mimos. Recato acima de tudo.

 

Na presença de pupilas inocentes emolduradas por caracóis presos com laços, as mães despiam-se até à combinação. Um beijo na bochecha e a sugestão com ordem implícita: “Não quer ir para o quarto brincar? A mãe vai arranjar-se para dormir.” E lá seguia eu corredor fora, interminável como ao tempo o via, cogitando na razão que me proibia vislumbrar mais pele além da que a combinação revelava.

 

Na combinação lia o símbolo de limites inultrapassáveis. A perceção do proibido. O corpo como mistério que não convinha desvendar. Fonte de normativos constrangedores. Sussurros findando e silêncio nascendo mal passos miúdos de criança eram ouvidos. Como se o longo fio das rendas imbricadas fosse medida da distância entre mães e filhas que só a ternura encurtava.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:03
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Terça-feira, 11 de Junho de 2013

DAQUI VAI RAÇA SEM DIA

Robert McGinnis

 

Sean Connery. Vintage sugerindo prova a preceito. Não um vinho rafeiro que satisfaça almôndegas. Nem um tinto alentejano, reserva de honesta adega, capaz de encher o palato e fazer valer uma sóbria entrada de salpicão e lâminas de queijo de Serpa. Que me desculpe o produto nacional, mas o Bond mais convincente de sempre pede um Louis Cristal Roederer de 88, ostras e cenário - degustação num final de tarde com alfazema e sombreado pelas tílias do centro de Saint Tropez (ali, os paparazzi não incomodam as gentes - fazem no porto a romaria).

 

James Bond, saído da pena do Heim von Ian Fleming, requeria excelência na sedução e sagacidade na atitude. Sean Connery ofuscou o pedido: reuniu corpo atlético bem servido de altura, olhar coruscante, sorriso raro e nunca escancarado, a pitada de distância que «terramoteia» a segurança feminina. Elas caíam-lhe nos braços, e ele, consumidor consciencioso, deixava-lhes no regaço a ilusão do homem perfeito, sexo perfeito, fuga perfeita. Por esta ordem. Certeza: maior que a cedência e beleza delas era a sabedoria dele. Quem resistiria? _ Não eu, Dio mio!...

 

As Bond Girls oscilavam entre extremos duma corda mantida vibrante pelo enredo. Perversas e funestas ou delicodoces e boazinhas até doer. Manipuladas sempre, quer pelos agentes do mal, quer pelo Bond, James Bond, zeloso espião ao serviço do ocidente. Manias e vícios – beber “vodka martini shaked not stirred” e arruinar a banca de baccara nos casinos.

 

O Bond via Connery deve ter feito mais pela divulgação do gin que todos os vendedores. Esta é a receita da bebida deixada pelo Ian Fleming no primeiro livro, Casino Royale: (...)

 

Nota: texto na íntegra aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 06:45
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Sábado, 3 de Novembro de 2012

BANALIDADES E POUCO MAIS

William E. Rochfort, Robert McGinnis, autor que não foi possível identificar.

 

Habituados a cinema bom e mau nos canais a ele dedicados, à revisão de antiguidades cinéfilas, ao enfia no leitor de DVDs o disco ótico selecionado, ao bem-bom de satisfazer urgência e na volta conferir movimento à imagem parada, vamos perdendo a memória da sala escura, dos noventa ou mais minutos de atenção exclusiva ao ecrã impressivo, da magia envolvente. Acontece aos melhores amantes da arte numerada como sétima.

 

Seja pelo olhar torto de quem nos desgoverna e conduziu (em destaque, a cultura), à pelintrice ou à indigência, seja pelo custo dum bilhete nos cinemas – superior à conta de refeição em muitos restaurantes também submetidos à penúria – os potenciais espectadores acomodados no sofá puído optam por filmes à la carte tendo alguns trocos no banco. Se não, pelos impingidos. Nalguns cinemas, nalgumas horas, nem duas dezenas de cabeças.

 

Quem interrompe o ciclo abúlico e cai na romaria da saudade, peregrina pelos calendários das exibições. Decide. Sai do casulo. Posta-se frente à bilheteira. Calhando a opção no recente Bond devido à pertença ao clube dos entusiastas da saga, a desilusão está arredada. Alguns temperos do Skyfall são: revivalismo, atualidade, futuro. Neste agente double 0 zero, passagem de testemunho do tradicional  shaken not stirred, agora visto mas impronunciado, para novos Q, M e Moneypenny.

 

Naomi Wolf escreveu:

Numa estranha mas adequada coincidência, o Presidente Barack Obama e o seu adversário republicano, Mitt Romney, realizaram o seu debate final – que se centrou na política externa – exatamente no mesmo dia em que o novo filme de James Bond, Skyfall, teve a sua estreia mundial em Londres. Apesar de 007, que comemora este ano o seu 50.º aniversário, ser uma marca mundial de origem britânica, a sua influência sobre o espírito político norte-americano – e esta influência sobre Bond – é óbvia.

 

Na verdade, a mais recente produção é uma parceria anglo-americana e o herói violento de ação de operações especiais que Bond tem corporizado, reflete os pressupostos dos EUA sobre a política externa e o Estado de Direito. O debate presidencial apenas reforçou o enredo dominante em tempo real: assassinar pessoas (inclusive cidadãos norte-americanos) unicamente por ordem do presidente, outrora considerado um crime de guerra, transformou-se numa série de aplausos.”

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 11:18
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Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

UMA CORJA!

Autor que não foi possível identificar

 

As redes sociais têm vantagens e perigos – neste particular, a novidade não existe. Das vantagens enumero acréscimo de saberes, notícias anteriores ao conhecimento geral, encontro de gentes amigas em lugar incerto pelas curvas da vida. Dos perigos, sabemos. Alvo comum: crianças e adolescentes. Daqui a necessidade de prevenção familiar – para os mais novos, filtros, utilizarem o computador sito na sala onde pais e filhos se reúnem ao serão. E para os adultos? _ Cautelas e bom senso.

 

De mulher precavida, perspicaz e pragmática, ouvi relato em que ocupou a condição de protagonista. Os factos aconteceram há poucos dias. Por lhe ser necessário devido ao trabalho que desempenha utilizar o Facebook, nomeadamente o chat, deu por ela a ser incomodada por estranho. Considerou surreal que alto personagem militar americano, identificado, entabulasse «conversa». Ignorou-o. A criatura insistiu. Com ambos os pés atrás, optou por responder tendo como fito desembrulhar a situação. Em catadupa, chegaram-lhe escritos de amor eterno, de paixão assolapada, de a querer conhecer em breve, casar, conquanto estivesse, dizia, em comissão num teatro de guerra ou de fingido consolidar duma qualquer paz. O discurso parecia coerente, os dados fornecidos compatíveis. Ela ria dos escritos e desesperava pela ausência de falhas.

 

À medida das conversas corridas, empatando respostas de modo que o indivíduo(?) julgasse tê-la no papo, a mulher investigava. Tudo parecia certo e não houve buraco de agulha em falta na pesquisa. Eis pedido extraordinário: que ela tratasse em Portugal das diligências necessárias para a vir conhecer com o pretexto de ser a sua futura respectiva. Havia dinheiro envolvido para a ‘saída do campo’, impunha-se transferência de verba para o sofredor militar.

 

Por este tempo, já a mulher entrara em contacto com outras. Provou o que intuíra: _ Uma corja! Desta, nigeriana com o objectivo de endrominar mulheres em todo o mundo. Hoje, tem ‘amigas’ espalhadas por continentes, algumas vítimas da esparrela, outras tão argutas como ela. Impõe-se denúncia.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 11:48
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