Domingo, 18 de Agosto de 2013

DA "ESTRELA", COISAS E LUGARES (II)

 

 

No perto, muito perto, do casarão na Estrada da Serra em Gouveia, frutos erguidos de caules que o Inverno e uma Primavera nevada haviam açoitado lembram os ciclos da Terra, os ciclos da vida de todos e de cada um.

 

 

De troncos vetustos, beleza ainda verde que aguarda duas semanas para ser colhida.

 

 

De janelas cimeiras do casarão, cumes da montanha que zoom aproxima.

 

 

Na vereda tantas vezes calcorreada, mais uma casa em ruínas que, fui informada pela Junta de Freguesia, ainda pertence à quinta do Prado sita em Aldeias. Deo gratias, porque integrada onde a casa do Prado ocupa o seu lugar ancestral e mais duas casas destelhadas em granito repousam, o IMI não fica acrescentado.

 

 

Deste modo, considero estar bem acompanhada no casarão de Gouveia. De um lado o Caramulo, de três outros a Estrela. O granito intervala os horizontes.

 

 

Descendo aos baixios de Gouveia e virando à direita, telhas e madeiras geram sombras apetecíveis em esplanada pertença da pérola da gastronomia local.

 

 

A simplicidade do genuíno aconchego no restaurante "Lá em Casa".

 

 

Na ementa, pratos regionais que chefe competente inventa. A fusão dos sabores, a estética do vindo à mesa, satisfazem palato e olhar.

 

 

Lombinhos de porco recheados com queijo da serra em seu molho de morcela, divino esparregado de gourgettes jamais provado em qualquer outra região do país. O disseminado cultivo local das gourgetttes é devido ao fenómeno da emigração em massa de gentes beirãs a partir dos anos sessenta.

 

A novidade e perfeita confeção das sobremesas é inexcedível. Eu, que não morro de amores por doçuras, ali não as perco como remate da refeição perfeita. A beleza com que são apresentadas também desperta o apetite. Porque lá fora o estio corria quente, nos regressos frequentes optei pelo 'sorbet de limão em vodka'. Talvez por não ingerir álcool, o sabor do delito foi nota de requinte que me concedi.

 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Detalhes da cidade de Gouveia acompanhados por magnífica banda sonora. Visita guiada que merece seguir.

 

publicado por Maria Brojo às 09:22
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Segunda-feira, 29 de Julho de 2013

FOI NO SÁBADO, PELAS DEZ, PORTUGAL ACIMA

 

Abel Manta, Fundação Calouste Gulbenkian

 

Do quase Sul, aceder à Estrela. Saindo da A1 para a IP3, basta percorrer vinte quilómetros para que o «lago» da Barragem da Aguieira altere o cenário da Beira Litoral, pré-anunciando outro – o da Beira Alta. Arvoredo misto progride até capitular perante o pinheiro bravo e alguns eucaliptos. Após via rápida até Nelas, estrada curvilínea, trânsito raro, segura a velocidade moderada. Mas bela, cheirosa, com sombras que entrecortam a «soalheirada» dos últimos de Julho. Num troço, o desgosto de incêndio em fase de rescaldo que bombeiros vigiam. E se era magnífico aquele pedaço! Daqui a quantas décadas, pressupondo optimismo, a área ardida regressará ao viço anterior? Novo pinhal talvez nunca se o solo foi exaurido de alimento até ao tutano.

 

Em Nelas, paragem garantida: magnífica cafetaria estende esplanada sob tílias e plátanos; para refeição de substância “Os Antónios” sito nas antigas adegas dum solar, outrora, propriedade dos Jesuítas. Gastronomia tradicional da região, gama de vinhos excelentes. No Inverno, lareira acesa convida a esticar a presença. Serviço atento, custo sensato. Tílias e mais tílias bordejam empedrado e alcatrão onde é fácil estacionar. Porquê interromper o trabalho do motor em Nelas? _ Dali em diante, muda o horizonte, surgirá a imponência da Estrela e das suas faldas que alojam as cidades de Seia e Gouveia. A primeira, industrial com magnólias a enfeitá-la; a segunda, tranquila e bela onde o património, pela riqueza, foi preservado e as hortenses floridas espreitam em qualquer recanto. Duma ou doutra, quinze quilómetros de distância entre elas, acesso directo e curto à montanha. O de Gouveia promete e cumpre a revelação do “Cabeço do Velho”, dos elevados penedos esguios das “Freiras” alinhados em procissão, do “Mondeguinho”, das “Penhas Douradas”, do “Vale do Rossim”. Para satisfazer a arte de bem comer, em Seia, o “Camelo” e o “Solar do Pão”; Gouveia oferece (re)conhecidos lugares e a «boda» no Albertino.

 

Corra estio excessivo, a Estrela e seus próximos arredores garantem frescura nas manhãs e no entardecer. Por tudo, destino sem estação pela abundância de parques e de aldeias históricas, romarias, praias fluviais, outras imitando as marítimas, a neve e os desportos de Inverno.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:20
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Segunda-feira, 1 de Agosto de 2011

DA A1 PARA A IP3

Abel Manta

 

Do quase Sul, aceder à Estrela. Saindo da A1 para a IP3, bastam vinte quilómetros para que o «lago» da Barragem da Aguieira altere o cenário da Beira Litoral, pré-anunciando outro – o da Beira Alta. Arvoredo misto progride até capitular perante o pinheiro bravo e alguns eucaliptos. Após via rápida até Nelas, estrada curvilínea, trânsito raro, segura a velocidade moderada. Mas bela, cheirosa, com sombras que entrecortam a tarde soalheira do último de Julho. Num troço, o desgosto de incêndio em fase de rescaldo que bombeiros vigiam. E se era magnífico aquele pedaço! Daqui a quantas décadas, pressupondo optimismo, a área ardida regressará ao viço anterior? Novo pinhal talvez nunca se o solo foi exaurido de alimento até ao tutano.

 

Em Nelas, paragem garantida: magnífica cafetaria estende esplanada sob tílias e plátanos; para refeição de substância “Os Antónios” sito nas antigas adegas dum solar, outrora, propriedade dos Jesuítas. Gastronomia tradicional da região, gama de vinhos excelentes. No Inverno, lareira acesa convida a esticar a presença. Serviço atento, custo sensato. Tílias e mais tílias bordejam empedrado e alcatrão onde é fácil estacionar. Porquê interromper o trabalho do motor em Nelas? _ Dali em diante, muda o horizonte, surgirá a imponência da Estrela e das suas faldas que alojam as cidades de Seia e Gouveia. A primeira, industrial com magnólias a enfeitá-la; a segunda, tranquila e bela onde o património, pela riqueza, foi preservado e as hortenses floridas espreitam em qualquer recanto. Duma ou doutra, quinze quilómetros de distância entre elas, acesso directo e curto à montanha. O de Gouveia promete e cumpre a revelação do “Cabeço do Velho”, dos elevados penedos esguios das “Freiras” alinhados em procissão, do “Mondeguinho”, das “Penhas Douradas”, do “Vale do Rossim”. Para satisfazer a arte de bem comer, em Seia, o “Camelo” e o “Solar do Pão”; Gouveia oferece o (re)conhecido “Júlio” e a «boda» no Albertino.

 

Corra estio excessivo, a Estrela e seus próximos arredores garantem frescura nas manhãs e no entardecer. Por tudo, destino sem estação pela abundância de parques e de aldeias históricas, romarias, praias fluviais, outras imitando as marítimas, a neve e os desportos de Inverno.  

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:09
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Domingo, 22 de Maio de 2011

MÍSCAROS E CARQUEJA

 

A rota de amor começara quase trezentos quilómetros antes. Companhia de viagem: música significante e deslumbre pelo novo acrescentado por via do langor exuberante da Primavera. Deslizando linhas do céu conhecidas, foi tempo de alegria. A Teresa C. amou o percurso mil vezes repetido com a Aguieira nas margens da IP3 - manto de água, espelho de povoados, ilhotas dispersas, barcos ancorados. Na chegada, o perto irrompeu majestoso pela simplicidade vetusta, pelo histórico acumulado. Encimando muitas, a casa aldeã.

 

 

Do outro lado da ponte, sobre a ribeira e lameiros/margens, o registo do lado fronteiro que até às faldas da montanha se escoa. Casario sem plano unificador, mas onde o granito ou impera na totalidade, ou em detalhes denunciadores da matéria-prima que foi rainha na região. O enriquecimento durante e no pós-emigração trouxe algumas, poucas, maisons. Do surto migratório, a consequência maior e danosa para a arquitectura tradicional foi o efeito mimético dos que não arredaram pé da aldeia pobre – quem pela tinta não disfarçasse o granito afirmava a real diferença económica com quem arrojou, nos primórdios, “a salto”, fronteiras outras.

 

 

Nas ruas alcatroadas, outrora de terra batida, os plátanos e espécies outras de árvores viçosas são borda. A floresta próxima cresceu. Ida a que fora horizonte alto. Incêndios em sucessivas levas substituíram as matas por carecas disfarçadas com giestas floridas. Amarelas dominam, as brancas escasseiam. É memória o prazer de, chegado meio de Outubro, na base dos pinheiros encontrar míscaros, guardá-los na sacola para mistura com pedaços de cabrito, pão, carqueja aromática que o lume e a perícia da cozinheira transformavam em ensopado.

 

 

O Inverno chuvoso e frio, os nevões, o assobio do vento mais afiado que lâmina, encharcou os campos. Daí o verde do musgo sobre pedra, hoje, alimentado de quase nada. Mas sabe onde ir buscar o nutriente principal, a água, que à beira não falta e a porosidade da rocha também guarda. 

 

 

Fim de tarde, hora da janta, é deixada para trás a aldeia/Aldeias. Ao estacionar na «vila» como ainda chamo à cidade, um de muitos chafarizes que vertem água do degelo na montanha. Simples, pelos limos e amarelecimento do granito por via metálica grita idade. Ao lado, trepam heras. Selvagens. Livres, conquanto o instinto sobrevivente as amarre à pedra.

 

 

No cimo do chafariz, alguma imponência pelo granito trabalhado onde os séculos deixaram marca. Não fossem as cicatrizes das feridas gravadas pelo tempo, parte do encanto e respeito desvanecer-se-iam. Assim, avançam intactos em cada dia corrente.

 

 

Casa, telhado, ferros, sacada sobre a ruela - Rua da Cardia chamam-lhe. Quem a vir tão preservada e adiante passar ignorará quem lá nasceu. Muitos o fazem. Os mais atentos não perderão pitada como o casal croata que por ali passeava. Parou, à máquina ordenou milhares de píxeis, nariz espetado ao alto. Cliques sucessivos. Eu com eles por gosto e para no SPNI mostrar.

 

 

A placa tudo diz. 

 

 

Cortando na primeira à direita, calçada espevitada que de saltos, para quem os ali tem por base, troça, uns passos e restaurante de truz. Granito dentro e fora. É o Júlio a quem já o Quitério reconhecia mérito e não dispensava. Por ali, encontrei realizadores de cinema, músicos, escritores e gentes tão anónimas como eu que do lugar fazem romaria. Prato escolhido? _ Ensopado de cabrito e míscaros, pois então!

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:03
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Segunda-feira, 3 de Maio de 2010

DA 'BARCA HERMÍNIA' À 'PEDRA BRANCA'

 

Pat Dugin

 

Diálogos mediados entre pergunta e resposta. Tantos arquivei que esperam merecida publicação! Exemplares pela escrita pensada. Emoções transcritas. Esta, uma das últimas.

 

João Nave:

_ Por curiosidade: e a 'Barca Hermínia', sabe onde fica?

 

Teresa C.:

_ A 'Barca Hermínia' não. Pena minha! E a 'Pedra Branca', conhece? Troca por troca: diz-me deste seu recanto e eu conto-lhe do meu.

 

_ Vamos lá. Com todo o gosto. O desafio foi seu. A caminhada vai ser dura. Inverno ou Verão? Tanto faz. O risco é semelhante: respirar até não poder mais.
No vale do Rossim, olhando lá para cima, subir até às penhas. Depois, na mesma direcção, caminhar numa linha recta entre o Vale do Rossim e o Cântaro Magro. Este planalto é porventura o local mais inacessível da Serra. Tentar ir um pouco pela esquerda, percebendo o vale glaciar lá em baixo. A certa altura, a meio caminho do Cântaro, nota-se uma depressão com paredes de granito. Daquelas paredes de pedra limpa e dura que só por lá se encontram. Não fosse um planalto e quase poderia ser a caldeira de um vulcão. No Inverno é mais fácil descer até lá abaixo; escolhe-se uma das enormes frestas entre as paredes de granito e rebola-se pela neve até ao fundo. No plano do fundo atapetado de verde encontra-se, encostada a uma das paredes, com uma enorme pedra a servir de tecto, uma construção com uma inscrição a encimar o que poderá ser uma porta: Barca Hermínia. Dizem que foi um doido endinheirado de Manteigas que, no princípio do século XX, foi para lá viver, sobrevivendo com os víveres que os seus criados lhe levavam regularmente de burro por caminhos estreitos na encosta do vale glaciar do Zêzere. Hoje, isto é, há trinta anos (teria uns 19 quando lá fui a última vez), era um poiso para os pastores. Doido, diziam os que tratavam da vidinha na Vila! Doido!

 

_ Desvendo-lhe um dos meu (re)cantos na Estrela. Do Rossim para as Penhas Douradas quando o sol as incendeia, pisando matos rasteiros e virgens para Norte, depois alguns metros de alcatrão, vê branco reluzente. Duas pessoas encavalitadas em altura chegam para o medir. Mais perto, depara-se-lhe quartzo cristalino. Rocha pura, construída por tetraedros de sílica (dióxido de silício, SiO2), espigam do todo pela geometria que lhes determinou o estado sólido, interrompido por prismas hexagonais ou colunares. Dureza 7 na Escala de Mohs majorada pelo diamante. Pela beleza e brilho e tamanho XL dos cristais, houve quem à custa de martelo e escopro a tivesse deformado. Atentado à beleza e à natura, agora proibido e vigiado. O regresso é mais longo que a ida, conquanto seja idêntica a distância: a subjectividade temporal enganada pelo desejo de ver o novo selvagem. Sendo Verão, convém ecrã solar ou é inevitável pela queimada e bolhas e farrapos descolados pela mortandade da epiderme.

Pode atingir a 'Pedra Branca' de automóvel. Não é o mesmo: perde oito km de entusiasmo e leveza do ar.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 06:36
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