Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011

TAMBÉM AS PALAVRAS ERAM BAGAS RUBRAS

Coffin, Lorie Merryman

 

Deitou-se às três da madrugada. Tudo fizera com gestos silenciosos e andar felino não acordasse quem, há horas, dormia. Até os saber entregues ao sono, tendo saído família e amigos chegados aos quais dispensara mimos atentos, prescindiu de arrumos - os cristais, presente de casamento já lá iam vinte anos, alinharam-se na bancada da cozinha e, aberta a porta, somente o ronronar da máquina da louça ali era ouvido. Na sala, histórias, palavras de afecto eram bagas rubras à solta do arbusto invisível que as largava. E todos aparando todas. E ela, no momento, feliz.

 

Quando era a única acordada na casa/ninho, enquanto lavava os copos e um a um e os depositava, refulgindo, no tabuleiro coberto com pano limpo, quando limpou o chão com a toalhita «agarra lixo» e, após, com a húmida, quando no espaço a ordem era imaculada como soía, regressaram as saudades do homem que amava e não dormia na cama onde o marido sossegava cansaço. Sentimento de falta permanente. Sublimava-o pela entrega a um quotidiano cheio, eficaz, pelos cuidados com os filhos e o homem que com ela os fizera, com o apuro feito de amor empregue ao assar o peru na manhã do dia que já era passado.

 

A meio da assadura, chegou, silenciosa, mensagem ao telemóvel recolhido no bolso do avental. Esperou poder abri-la, lê-la duas, três vezes, estando sozinha. Respondeu com mais calor que o emanado do forno onde já voltara o peru. Ele casado como ela. Ele com filhos como ela. Ele, como ela, numa vida sem atritos. Nos telefonemas, nunca ao fim-de-semana ou depois das seis da tarde, durando encontros no motel com pouco desvio da estrada de Sintra, dois corpos num, dois espíritos em uníssono, também as palavras eram bagas rubras. Talvez a paixão sentida fosse, pela culpa ou por ser elo que não de sisal que o tempo vai puindo, reforço das famílias. Até um dia. Até ao nunca da liberdade/luz nos sonhos que guardavam intactos. Podem ser assim amores felizes.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:55
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