Quinta-feira, 27 de Novembro de 2014

BEIJOS, BEIJOCAS E BEIJINHOS

The Lovers,1913-1914 - Marc ChagallThe%20Lovers,19

The Equestrian, Marc Chagall.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Marc Chagall – “The Lovers”,1913-1914                                                                  Marc Chagall – “The Equestrian”

 

 

Existe o beijo. Quente, voluptuoso, perdendo quem antes da boca o olhar uniu. Há um beijo especial em cada vida. Inesquecível. Imune à borracha temporal. É felicidade ter ao lado, meses e anos a fio, quem beija assim. Permanecendo «o beijo» intocado nos dias um a um, é laço que não engana - amor isento, na essência, de erosão.

 

Beijos. A este ou àquele. Ilusões estaladas. Amores que ficaram pelo caminho. Enganos. Beijos aos que são queridos por laços de família ou amizade são comuns. Fiéis. Dados e recebidos com gosto, mesmo se no instante não atentamos na benesse dos afetos partilhados. Beijos há esvoaçantes que enviamos por e-mail, sms ou telemóvel. Beijos voadores. Nem afloram o recetor.

 

Beijoca é outra coisa. Húmida, peganhenta na pele. Por aqui, ainda há beijocas. Só as mulheres para cima de muitos «entas» os dão. Dos pelos do buço espetados esperamos desconforto, mas para uma beijoca nunca estamos suficientemente preparados. As especialistas espalmam a boca na bochecha da vítima que enlambuzam. O embaraço é atroz. Apetece limpar a face no momento. Mas não. Durando a conversa de circunstância, é sentida a «coisa» a secar. Ouvir quem nos fala, nem pensar - não pela monumental seca do linguajar, mas pela falta de um lenço, de álcool ou água que nos livre daquilo que não deixámos de sentir. Os homens não beijocam, repenicam. Por vezes melhor que nós.

 

 

Beijinhos são etéreas formas de estar. Mal afloram a face. Gesto simbólico que nada quer dizer. Mas é bom distribuir e receber beijinhos como quem apanha confeitos numa boda ou festa popular. Beijinhos. “Até depois!”, “Dá-lhe beijinhos meus”. Porém, numa noite especial, fresca, entre lençóis perfumados com alfazema, iniciar um périplo de toques suaves dos lábios pelo corpo amado da cabeça aos pés, numa dolência apetecida é redimir os beijinhos. Fornecer-lhes significado. Doces arrepios numa noite em qualquer estação.

 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

publicado por Maria Brojo às 07:46
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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2012

RESUMO DUM AMOR DESCUIDADO

 

René Magritte, The Lovers, 1928

 

Chegara tarde: as horas extraordinárias no trabalho esticaram-se a mando do mandador. Sabia-a dormida. Outro serão entre paredes cujas manchas e frestas a mulher conhecia de cor ao meditar no casamento em que o seu homem era visita em vez de companheiro. Nem os fins-de-semana partilhavam pelo trabalho em turnos - nesta semana, calhara o dia.

 

Ao deitar-se sorrateiro, não acordasse na mulher a tristeza, também ele tentou embalar o sono afastando do pensar o quotidiano mal pago, a exploração que aos dois castigava. Adiar filhos, consequência. Talvez um dia a vida girasse. Talvez gravidez e família como o desejado. Talvez ganhasse o “euro milhões”.

 

Recusando Morfeu acolhê-lo nos braços, levantou-se. Na cozinha, fruta da época; pouca, que a soma do pré de ambos a mais não chegava. Retirou maçã luzidia, verde na cor; polpa suculenta, parecia. Aconchegado no sofá puído, olhava a maçã. Perfeita. Rodou-a na mão. Tomara que o seu pequeno mundo fosse assim macio e não tolhesse os sonhos que ele e a mulher haviam construído no início. E rolava a maçã. E a paz conquistou-o. O sono chegou com ela.

 

Ao acordar no sofá, já a mulher havia saído para as limpezas no banco - ‘ponto’ não ‘picado’ a tempo obrigava a desconto no salário mínimo. Seis da manhã, informou o despertador aos gritos. Era o duche, a carcaça mastigada à pressa, o café doméstico. No gingar do comboio, impôs-se o sonho vívido. Lembrava detalhes, não o todo. Maçãs como rostos, chapéus de coco, homens de fato e gravata negros pingando do céu, cachimbos. Bizarro, concluiu.

 

René Magritte parody

 

A concentração no trabalho manteve incólumes as imagens. Mais viu: beijo quente trocado com a mulher. Senão: rostos tapados e lábios sem contato direto. Beijo era, mas faltava a suavidade das marés nas bocas. Pela vida e culpa própria, resumo dum amor descuidado.

 

René Magritte

 

Nota: texto publicado aqui por inspiração deste do Diogo Leote.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:16
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Olá Tudo bem?Faço votos JS
Vim aqui só pra comentar que o cara da imagem pare...
Olá Teresa: Fico contente com a tua correção "frei...
jotaeme desculpa a correcção, mas o rei freirático...
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