Quarta-feira, 20 de Outubro de 2010

AS ÚLTIMAS MOICANAS

Santala, Tim O’Brien, Autor que não foi possível identificar

 

Metáfora perfeita. Não se chamam Cora ou Alice que precisam de Uncas, o último dos moicanos de Cooper, para encontrarem o pai. Foram traídas, certeza, pelas conjunturas que dizem macro das económicas e (inter)nacionais sem rosto do índio Magua. À mesma e como ele, raposas matreiras. Aqui a ficção é invertida: anulada versão romântica do destino das vítimas e dos desmandos exterminadores de humanos; final sem prever salvação das infelizes irmãs.

 

Das moicanas e moicanos orgulhosos da sua condição que restam e lutam e continuam sonho de décadas, sobram poucos. Até Dezembro, obrigados a decidir entre devoção e amanhã menos ladrão. Médicos e professores, de facto aqueles dos banais trabalhadores públicos melhor recompensados economicamente, entraram na carreira iludidos com garantias estatais. Mudados anos e vontades, confrontam-se com o óbvio: iniciaram a vida activa cedo demais. Tivessem reprovado anos a fio, limpo o pó aos assentos da faculdade durante período maior que o expectável, desobedecido aos valores familiares que clamavam responsabilidade, esforço pessoal e aos vinte e um, vinte e dois na idade caminho na vida activa, no hoje e na profissão estariam iguais aos colegas madraços. Interroga a consciência colectiva a validade dos princípios educativos orientadores. Mutáveis, é sabido; todavia, culpados da actual infelicidade de moicanos/filhos cumpridores é surpresa maldita.

 

Abandonarem a profissão/amor é desgosto quando o sangue pulsa vigorosamente, com ele o músculo cardíaco e os ideais de vida inteira. Futurar velhice longínqua que não faça jus à dignidade sempre comedida companheira d’anteontem, d’ontem e d’hoje é pesadelo. Por tudo, até 30 do mês último deste ano, opção: sacerdócio até aos 65 sem altar e toalhas terminadas com renda fina, ou pragmatismo duro como carne de boi que nem pressão de panela hermética atenra. Renegando o trabalho já, maior a recompensa mensal que o salário em 2011. Menos despesas, menos cuidados e a possibilidade de exercício privado.

 

Aflição maior é o reconhecimento das situações contadas serem relativas a privilegiados. E os outros? Os (des)empregados a tempo incerto? Os reformados e trabalhadores que vivem na miséria – chamar-lhe pobreza é afronta. “De contente dói o dente”? _ Verdade insofismável e dolorosa para as(os) últimas(os) moicanas(os).

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Cortesia de Açúcar C.

 

publicado por Maria Brojo às 07:51
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