Quarta-feira, 9 de Novembro de 2011

S. MARTINHO ANTECIPADO

 

Anoitecera e chovia. Para trás, distância curta, duas mulheres irmãs, as meninas Brojo, ficaram na Unidade de Saúde de Coimbra. Por razões clínicas ali permanecem desde 5 de Setembro. Autónomas, orientadas no espaço e no tempo as mais das vezes, apetece trazê-las para casa. Interdição médica obstaculiza as harmónicas vontades familiares. “Não é possível”, “não pode”, “não deve” ouvido dos especialistas, é tradução de desgosto indizível. Corajosas, adaptaram-se, na outra, uma se apoiou, e são as meninas lindas do espaço como outrora o foram no povoado onde nasceram. Sorridentes, participativas, elegantemente arranjadas, têm palavras e gestos solidários para todos, mesmo para os que mal ouvem, gritam desvairados, circulam sem destino em cadeiras de rodas.

 

Vão para Lisboa reunirem-se à família. A “Casa de Repouso dos Leões” espera-as num T1. A filha e sobrinha única encarregada de esvaziar pertences de roupa, malas e calçado a casa da sua infância e adolescência – com vinte anos saíra para desígnio usual. Telefone, cabos ópticos desligados, frio de tremer ossos - recusa-se a ligar aquecimentos que lhe façam doer memórias do aconchego doutrora. Até sábado ou domingo, fará o luto dum tempo, dum espaço onde foi feliz dentro, a caminho do liceu, da faculdade, de regressos quentes à casa dos amores, hoje vazia até acender a luz do corredor. Por isso almoça e janta fora, não remexe o que a D. Lúcia deixou arrumado e asseado.

 

Saindo da esplêndida unidade onde dois amores irão jantar e dormir rodeadas de mil cuidados e atenções, a filha e sobrinha decidiu jantar numa

tasca próxima da casa de família. Recheio humano: um bêbado e dois à beira do mesmo, um dono surdo, uma mulher/esposa afável e boa cozinheira. Após a magra refeição insistentemente solicitada em dose mínima, o dono e a mulher devem ter considerado a mulher do canto mal alimentada. Paga a conta, cinco euros, trouxeram castanhas e jeropiga. Lágrimas corriam no meu rosto. Faltava a erva-doce que a mãe não esquecia, havia S. Martinho antecipado com desconhecidos, a sensibilidade de quem me pressentiu fragilizada, as primeiras castanhas do ano descascadas a só.

 

 

Nota: texto escrito com lágrimas involuntárias na face, enquanto hoje, ainda oito de Novembro em Chicago, um amor celebra aniversário. Parabéns ‘Branca de Neve’!

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 00:10
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