Sábado, 4 de Abril de 2015

HALLELU YAH

Giorgio Brunacci  (1).jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Giorgio Brunacci

 

 

Hallelu Yah, «Louvai o Eterno», Aleluia! E olho e louvo o que vejo. Louvo o que não vejo e existe, impondo a razão madura ao empirismo que inicia no ser humano a arte do entendimento. Aleluia dobrado por tudo o que não sei e desafia. À conta da razão, louvar o Eterno é mais difícil.

 

 

 

Do planeta, do sistema solar, da galáxia, do universo, de tudo o que «é», conheço a precária condição. Mais ainda se do escrutínio racional fizer método, terminando(?) a dissecação na migalha menor do já infimamente pequeno. “O que é, não é”, sei, “o que é, parece,” também. Nos breves suspiros do Universo que duram dez vezes a história da humanidade, a eternidade para quem atende chegar aos oitenta anos, fica diluída a noção de tempo. Um «pfffff» de uma galáxia e lá se vai uma estrela, um cometa, ou redondeza (des)conhecida na lista dos planetas. Tudo precário. A eternidade como ilusão ou limite abstrato.

  

 

Que louvo então? A quem teço íntimas loas e desfio orações? Por que insisto em murmurar o rosário sem contas mover nas mãos? Por que preciso. Por que fui ensinada a acreditar. Por que escolhi acreditar. E de todas as razões esta: não há caos organizado de modo tão harmónico sem razão superior. Jamais foi notícia a criação aleatória de vida num perfeito ambiente laboratorial. E ao mergulhar na ciência, lembro a descrição do Eça de Queiroz selecionada pelo Carlos Fiolhais no ”Física Divertida:” Eça de Queiroz, num texto da Campanha Alegre, descreveu de maneira assaz hilariante a situação da marinha portuguesa em finais do século passado. Reza assim a sua crónica: «É uma marinha inválida. A D. João tem 50 anos, o breu cobre-lhe as cãs. O seu maior desejo seria aposentar-se como barca de banhos. A Pedro Nunes está em tal estado que, vendida, dá uma soma que o pudor nos impede de escrever. O Estado pode comprar um chapéu no Roxo com a Pedro Nunes - mas não pode pedir troco. A Mindelo tem um jeito: deita-se. No mar alto, todas as suas tendências, todos os seus esforços são para se deitar. Os oficiais de marinha que embarcam neste vaso fazem disposições finais. A Mindelo é um esquife a hélice.» A corveta Mindelo tem pois dificuldades em flutuar direita. Deita-se logo que é deitada ao mar. Corre, portanto, o risco de se afundar. De nada lhe vale a lei de Arquimedes, que diz que todos os barcos devem flutuar porque, logo que deitados à água, surge uma força vertical, de baixo para cima, que equilibra o peso do barco. Porque é que os navios, em geral, flutuam? Desde quando se sabe a razão de os navios flutuarem?

 

 

Se a isto é fácil responder no automático, fazendo deslizar o fio lógico chegaremos, como em tudo, à últimas das questões: por que somos. É na resposta que no meu íntimo dou que creio. Também por ela sorrio e me julgo uma mulher feliz. Aleluia!

 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

 

publicado por Maria Brojo às 08:00
link | Veneno ou Açúcar? | favorito
Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2014

HISTÓRIA DE (DES)ENCANTAR

 

John Hagan 5.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 John Hagan

 

Olhavam o céu encostados à grade da praia de Carcavelos onde a boca do túnel deita a língua de fora até ao paredão. A noite chegara há horas, enganava o momento –- seguinte ao jantar. Noites longas, curto o dia que por volta das quatro, estando farrusco o tempo, pisca olho ensonado ao horizonte onde o aguarda, para a deita, cama.

 

 

Num sítio sem história –- como se história viva fosse pertença de pedras ou de areia ou de betão -–, vestidos de negrume, miravam, espectantes, a calote salpicada de brilhos - mortos, vivos e o mais não sabido. A distância, devastadora pelos zeros se em quilómetros traduzida, é manga de ilusionista que engana o universo. Cavalgando a luz a 300 000 km.s-1, entre o óbito de uma estrela e o desligar da cintilação vista da terra, demora para cima de século e meio. O mesmo se houver universos com vida -– do jogo de probabilidades este particular não escapa! Vislumbrem-nos entes distantes e, congregados espantos no mundo deles por nós existirmos, talvez num código intrincado seja enviada carta e de nós o retrato à laia de cumprimento de boa vizinhança. Descoberta a cifra, deixar-nos-ão de boca aberta:– “ruas cheias de carruagens atreladas a cavalos, damas rabejando saias pelo chão, cavalheiros de casaca e com chapéu.” É que a imagem que de nós tiveram reportou-se a mais de cem anos atrás, por via da lonjura que a luz foi obrigada a cumprir.

 

 

Sombra única, o par ainda mirava o céu. Arrecadavam a serenidade de quem é casal. Por dentro, pela intimidade, pelo segredo cúmplice. Um deles conjugado, o outro não. Quem os visse invejaria a intensidade contida em cada gesto. A pressão das mãos. A distância anulada. Por dentro e por fora. Pela cidade, alguém pela falta do outro não dava –- o hábito é como lente de má qualidade que esborrata do outro a verdade. Casal eram eles. Quem lhes julgava deter a posse legitimada pelo carimbo oficial era companheiro de quarto, utente e sócio do histórico comum. Por isso querido. Por isso amigo. Por isso aceite. Até ao fim.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:25
link | Veneno ou Açúcar? | ver comentários (2) | favorito

últ. comentários

Olá Tudo bem?Faço votos JS
Vim aqui só pra comentar que o cara da imagem pare...
Olá Teresa: Fico contente com a tua correção "frei...
jotaeme desculpa a correcção, mas o rei freirático...
Lembrai os filhos do FUHRER, QUE NASCIAM NOS COLEG...
Esta narrativa, de contornos reais ou ficionais, t...
Olá!Como vai?Já passaram uns meses... sem saber de...
continuo a espera de voltar a ler-te
decidi ontem voltar a ser blogger, decidi voltar a...
Autor que não foi possível identificar: Andrew Atr...

Julho 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

pesquisa

links

arquivos

tags

todas as tags

subscrever feeds