Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

VINTE E QUATRO CÊNTIMOS

 

Autor que não foi possível identificar, Janet Hills

 

Cebolas a um euro e dez cêntimos. Dava voltas à rede averiguando ultraje na pele estaladiça. Nada. Tamanho médio e bem conservadas.

 _ Vão estas!

Ele aproxima-se e sussurra:

_ Aquelas são vinte e quatro cêntimos mais baratas!

Fizeram silêncio a condizer com o momento.

_ Que dizes?

_ Não sei, tu é que vês.

 Decidida:

_ Vão estas. Poupamos a diferença noutro lado. E é Natal. Para o ano, sabe Deus se por cá andaremos.

Ambos baixos. Ele mais do que ela, também na curvatura das costas. Enrolavam-se no pequeno mundo que importava. De tempos mais vistosos havia registo nalgumas das peças que vestiam. Usadas, não coçadas, antecipando hábitos económicos: para casa «marcha» a roupa de uso que permita abrir a porta sem rubor envergonhado. O cachecol dele, por exemplo, pura caxemira. O casaco comprido dela há muitos anos deixara as mãos da modista, mas fora feito à medida, via-se.

O agigantado carro promotor do consumo somente tinha o fundo repleto. Chocolates. Ovos. Canela. Açúcar. Leite. Óleo. Farinha e abóbora. Para a sopa ou para os fritos do Natal.

_ Chegam na sexta, não é?

Ele assentiu ao ruminar: o mês está difícil, mas como lhe brilham os olhos ao preparar a casa para receber os filhos e os netos... Merece tudo, ela. Boa mãe e companheira. Lembrou-a, mão na mão, ao subirem as escadas do Centro de Saúde. Como do outro pressentiam o hesitar do coração medido pelo cansaço... Cedeu. Legitimou na face uma lágrima. Tão cristalina como na infância traquinas quando era castigado ou na juventude poderosa derramada em África. A mulher escolhia o bacalhau. Ele tirou do bolso o lenço e secou a emoção; depois, assoou-se.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:10
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Olá Tudo bem?Faço votos JS
Vim aqui só pra comentar que o cara da imagem pare...
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