Terça-feira, 19 de Novembro de 2013

SÓ PARA HOMENS

 

 

   

Victor Brauner, 1923 - Adam & Eve                                                                 JT Morrow - Adam Eve

 

A etimologia da palavra Adão é significativa: origem hebraica e relacionada com adamá (solo encarnado) e com adom (encarnado e sangue). Súmula: caldo ebuliente. A tradição judaico-cristã e islâmica dizem-no o primeiro ser humano, espécie criada por Deus a par das urtigas e dos ouriços, subordinada ao desígnio de dominar a criação terrestre.

 

De Adão são contados os novecentos e trinta anos de vida. Na oitava geração, terá visto nascer Lameque, pai de Noé – o da barca pejada de animais, sobrevivente ao dilúvio. Um resistente.

 

Ao referir o Adão filósofo, subjaze a inquietude da qual decorre o idear, a reflexão sobre o mundo e o todo inerente. Por isso se interroga. Por isso o perturba a parra que lhe oculta as partes pudendas após a inevitabilidade do pecado original tendo uma Eva por perto. A esta é devida a insubmissão feminina. A serpente foi pretexto e meio para alcançar conhecimento e satisfazer a ânsia de sabedoria. Para Adão o mérito de progenitor competente da humanidade. A exclusividade do idear ficou pelo caminho – as descendentes de Eva partilham a função com entusiasmo e sem desfalecimentos.

 

Mas serve este para honrar as palavras masculinas. E que palavras!... Que descendentes Adão legou e do pensar original dão provas quotidianas!...

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:17
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Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2013

PANTALHA AO SERÃO

 

Vic­tor Brau­ner, Adão e Eva, 1923, 70 x 100 cm, ICEM, Tulcea

 

Fora, noite invernosa. Dentro, calor, luzes indiretas, coadas umas pelos abat-jour, outras por camuflagem de vidro discreta. Exotismos envasados. Banqueta pequena no ângulo reto do sofá. Vestimenta: pijama e meias de lã. Na hora de dormir, é o nada que garante, inteiro, o tato com a macieza dos lençóis. Antes, o serão. Sendo a mulher «papa-filmes», acomoda-se na banqueta rente ao ‘afegão’ sem que descure o amparo das costas pelo sofá. Mania de desprezar almofado e afofado em troca de couro gasto e ladeiro jamais alguém entendeu.

 

Ele imerso em trabalho de casa que a empresa não obriga, obrigando. Após o duche à chegada, protege-o roupão felpudo. Pés em chinelos turcos cor-de-ameixa. A darem com os lençóis e a capa do edredão. Minúcias que aprecia. Que ajudam e conjugam partilhar. Que também alegram o final do dia.

 

Ela, pantalha ligada, digere trindade de filmes no tempo costumado. O justo para a demora na coincidência de laço dos corpos e quenturas e gemidos trocados na rodilha das parcas horas até o despertador soar. Porque esganiçado, clarim de «alevanta magalas».

 

Mas ela via filmes. Por ser Inverno, não contemplando a ambiência neve, voltava o disco ao polímero antes de mostrar valia. Naquela noite precisa, deslizaram no ecrã uma Moore com moderado desfoque de botox mais o Nicolas Cage dirigidos pelo Norman Jewison no Moonstruck. Ela, desvanecida com o romance, com o branco do Little Italy nova-iorquino tresandando a famelgas mafiosas. Funcionários divinos seduzem clientes para restaurantes de charme tanto quanto o deles, lembrava. Não respondeu a pergunta enciumada feita pelo ele ao lado. A partir daí, a intervalos, erguia o olhar do monitor e assestava-o nela.

 

Neve segunda encontrou-a no The Big White estrelado por Robin Williams e Holly Hunter num Canadá que de tão branco só visto. Quando o rol técnico fluía, ele ainda não completara o homework. Ela serviu-lhe chá branco, “Pai Mu Tan” de Fujian, na chávena por ele preferida. Mimo, entretém que bem saberia. E soube. E bebericaram juntos.

 

Voltando ele às teclas, ela ficou-se pelo Canadá. Neve terceira: Fargo com a tragédia combinada do branco, morte e dinheiro. Más-línguas dizem The Big White imitação menor de Fargo. Ela perguntou-lhe o que achava: _ Que não, que era profunda a diferença: no Fargo, reinava ambição; na neve segunda, amor incondicional.

 

Espreguiçou-se. Foi à cozinha buscar maçã encarnada à fruteira. Sem a roer, falou com um dedo. Ele seguiu-o. A cumplicidade e o desejo e o quente e o ainda hoje suculento como a maçã na noite fizeram hino.

 

Nota: texto publicado aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:27
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