Segunda-feira, 28 de Abril de 2014

PLÁGIO DESCARADO

Bo Bartlett

 

Homem que me perdoe, mas sedução é fundamental
Precisa de caráter e verdade transbordantes como vulcão
Que o olhar derrame lava e urgência
Misturar nos gestos tango e valsa lenta
Ter sorriso de que apeteça descobrir os mistérios e rir com eles
Possuir mais do que órgãos e pele
Que ao falar lembre poema de Larkin
Água límpida brotando do espírito
Fonte oculta de que apeteça beber
Espírito com olhos e nádegas
E mãos. Nunca húmidas
Serenas e ousando um regaço de mulher

O olhar tem de ser corajoso e denunciar pitada de luxúria
Puxar pontas da alma e passear no corpo da mulher
Com vagar
Postura ereta, jamais vergada ao peso da vida
Queixo direito assente em pescoço sólido capaz de afrontar borrascas
Costas largas sustendo manto invisível que envolva e inebrie a mulher

Sedução é simplicidade
Tem um quê de fugidia
Enigmática
É ave sem gaiola
Quer largueza de espaço perfumado com hortelã e poejos
Cheiro selvagem a terra viva no corpo da mulher
Aberto ao desejo
Sujeito à lua e marés
Arribado à praia e recuado, depois, ao mar
Eterno e efémero
Homem precisa ser revolto e fundear carícias
Suave ao lamber (...) 

 

Adaptado de “Receita de mulher” de Vinícius de Moraes

 

Nota: publicado integralmente aqui. 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 09:57
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Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011

VAGAMENTE PRIMAS

Autor que não foi possível identificar

 

A mãe era vagamente prima e não interessa se pelo lado do avô ou da avó. As duas filhas continuaram tão vagamente primas como a mãe, rotunda senhora sempre de negro vestida e com pêlos no queixo como a tia Rosa que, atenta à aparência, mais tarde usaria a «depiluva» ao vê-los espigar. Anos e anos antes, os pêlos das mulheres cresciam viçosos estivessem à vista ou não. Saias e vestidos roçavam a metade da barriga da perna - calças numa mulher era impensável como ir à rua em combinação – e dela permitiam ver a penugem, quantas vezes farta e escura. Para os homens era fetiche. Excitava-os imaginar o trepar das mãos até à catedral donde partiam. Descobrir a nave central e seus meandros. Nela, se derramarem.

 

As duas irmãs, vagamente primas, herdaram da mãe rostos sem graça, os abundantes pêlos no queixo e noutras partes que o visível denunciava, a coscuvilhice, o maldizer de tudo e de todos. No poleiro central onde viviam, davam fé de idas e vindas das gentes, a que horas, quantas vezes, do trajar, da postura, o que mais chegasse olhos adentro. E tricotavam lãs e o visto. Para aqueles três espíritos qualidades alheias iam às malvas; centrado o interesse do ser humano nos defeitos. Incongruente com o temperamento era a dedicação extrema a quem lhes caía no goto. Capazes de generosidade incomum, de mimar, de laços de ternura para toda a vida a que aliavam prendas domésticas, perspicácia e inteligência; neste particular, muito dotada a mais velha.

 

Verdade, verdadinha, é aquela trindade feminina reunir poucos amigos, sendo as vagamente primas mais temidas do que gostadas. Chegada a idade casadoira, pretendentes viste-los! Lá aparecia um corajoso de raro em raro que, de pronto, era investigado: quem era, donde vinha, que fazia, qual a história da família até à terceira geração antepassada. Tanto vasculhavam que, inevitavelmente, os «podres» apareciam; por tal o candidato despedido num ápice. Assim continuaram até passarem os trinta. A mais velha, focada, primeiro, na licenciatura, depois, na meteórica ascensão profissional, odiava homens e aturar um até que a morte os separasse era impensável. Já a mais nova aspirava a vestido branco e grinalda que fizesse deslizar a compasso da marcha nupcial no corredor do meio da Igreja de São Pedro. Mas onde encontrar homem com bravura suficiente para dela fazer noiva, esposa e mãe? Já o desespero assentara arraial no coração, quando surge um pasmado, silencioso, submisso, idade próxima, a quem nunca fora conhecida namorada. Saltaram a investigação minuciosa – naquela altura, a trindade desejava descendência e a continuar assim o estado dos dias, melhor era aceitar o homem como dador de esperma oficializado. E casou a mais nova das vagamente primas. Ao ficar grávida, depois ao nascer uma menina, foi o auge da felicidade. O acontecimento teve outra virtude: amaciou o estar das três mulheres.

 

A menina recém-nascida não podia fazer ideia mínima do que a esperava. Dizia o povo com razão:

_ Coitadinha! Irá ver-se da cor da abelha com aquelas três.

O pai nem era falado. A criança, alvo de amor absorvente, compostura isenta de senão, sempre muito enfeitada e vestida à moda de tempo que já não era, passeava pela mão da mãe na Praça, ia ao Central para ser exibida e gabada. Herdara das três mulheres a imperfeição dos traços excepto os pêlos no queixo. Aluna exemplar, licenciatura obtida com distinção, viria a casar e a ter par de filhos. Que seja sabido, também o marido não é visto, tal como acontecera com o sogro. Ambos distintos de missionários pelos meios e procriação autorizada.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:01
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