Terça-feira, 29 de Outubro de 2013

‘BELLE DE JOUR’ PALIATIVA

 

  

Oleg Shuplyak – hidden images paintings, Vincent van Gogh - Self-portrait, Vincent van Gogh - Sorrowing Old Man ('At Eternity's Gate'), Kröller-Müller Museum

 

Coincidiram no «espera-elevador». Senhor alto, cabelo ralo, airosamente penteado, vestido com brio, coluna ligeiramente obliquada, rosto sulcado por rugas próprias dos oitenta e alguns que conjecturou. Tresandava a tabaco. Para entreter a espera e após o ‘boa tarde’, ela tomou a iniciativa de frase curta que ao utente demonstrasse atenção.

_ Fuma. Eu também. Não devíamos.

_ Sem infrações não interessa viver.

_ Concordo. Marco qual?

_ Para qual dos quartos vai?

_ Para o de um familiar (porque estranha a pergunta, a mulher omitiu o destino).

À cautela, obliterava o ótico do elevador. De nada valeu. Tentou abraçar e beijá-la. Vendo-a fugidia como enguia, ele teve tempo, antes da escapadela por ela já congeminada, de dizer:

_ O meu quarto é o **. Visite-me. Regressa amanhã?

Nem respondeu. Marcou o zero – o destino era o 1 – e, subido o lance de escadas preciso, estupefacta, ria.

 

Demorou o necessário. Ao descer, lá estava ele.

_ Vai já? Estou no **. Até amanhã, então. Espero-a.

_ Bom jantar!

 

A história é picaresca, mas contém substância que vai muito além do precipitado/pejorativo «balhelhas». Alguém configura mulher com idade próxima deste homem atuar assim com visitante anónimo do clube de idosos onde permanece? Como lidam os avançados na idade, sós, com a libido e sexualidade? Configuro ser mais difícil no masculino do que no feminino – a formatação social impõe atitudes resignadas às mulheres que exclui os homens.

 

Tal como existem técnicas especializadas em múltiplas áreas, cabeleireiros, manicuras, pedicuras, atividades culturais e terapêuticas, esquivança ao problema não é solução. «Banco» de ‘belles de jour’ e de ‘beaux de jour’ suavizados mas competentes em conversas paliativas nas situações de teor análogo (senilidade, doença mental outra?) é escândalo intolerável?

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:57
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Sábado, 29 de Dezembro de 2012

UM SÓ

 

Moleskine - autor que não foi possível identificar

 

Conta anos, a desistência da listagem de mudanças pessoais para o novo ano. Escrita com letra miúda em blocos pequenos e modestos com linhas. Generalizada a Moleskine em 1997, a dos cantos arredondados e elástico, uso para outros fins – anotações ocasionais de leituras, de filmes, do filme que a vida é. Nada de pensares grandiloquentes como os de Vincent Van Gogh, Pablo Picasso, Ernest Hemingway, Bruce Chatwin e outros desde par de séculos atrás para diante.

 

Sem desmentido a graça duma Renée Zellweger no “Diário de Bridget Jones” ao alinhar, descabelada no íntimo e em vésperas de Ano Novo, projetos que dela fariam, supunha, mulher ideal segundo estereótipos sociais, para um Daniel Cleaver mulherengo, manipulador, para um Darcy formatado e sobranceiro. A desistência pessoal do rol aconteceu nessa altura. De tão ridícula a falência do ser perante comandos alheios, guardados foram os blocos e as listas dos bons propósitos anuais. Trocadas por críticas diárias. Com vantagem: o futuro é daqui a minutos, o amanhã começa agora. No tempo da resolução, desinteressante antecipar Darcy como romântico de arroubos apaixonados que aceitava a insegura Bridget tal qual.

 

Projetos de Ano Novo?

 _ Sim. Um só: economizar parte da renda mensal para ajustar contas com o fisco lá p’rós fins de 2013.

No resto?

 _ Recusar cristalização.

Este, antigo, sem merecimento para figurar aqui. Por isto, atrás escrito: “um só”.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:08
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Terça-feira, 20 de Março de 2012

O BEM QUE NOS TRAZ

 

Vincent Van Gogh

 

Hoje, no início deste ciclo da Terra, foi notícia ter sido identificado como pertencendo a Van Gogh um quadro florido que pousa num museu holandês. Pelo tamanho da obra que fugia às normas do artista, ficou isento de identificação. No entretanto, o pintor teria escrito a Theo, o irmão, contando que estava a pintar uma tela de maiores dimensões do que era seu hábito com dois lutadores. Analisada a obra, não é que os dois lutadores constavam sob as flores pintadas por cima? Na ausência de imagens da tela descoberta, uma com amendoeiras em flor lembra o facto. Excerto de uma carta que figura como imagem de Vincent Van Gogh ao irmão Theo também merece leitura.

 

A Orquestra Sinfónica Portuguesa e a TSF celebram a Primavera com um grande concerto ao ar livre oferecido à cidade. Hoje, dia 20 de março, pelas 13h, a orquestra interpreta  “A Sagração da Primavera”, de Stravinski, num palco junto à rotunda do Marquês de Pombal. Se assistisse, nem sabe o bem que lhe fazia!

 

Outro excerto duma carta de Vincent para Theo.

For myself, I can hardly decide which season I like best. I believe I like them all equally. Now he who has eyes to see it finds something beautiful and good in every kindn of weather, he finds the snow and the burning sun beautiful, the storm and the calm, the cold and the heat,  he loves every season and cannot spare one day of the year, and in his heart he is contented and resigned to things being as they are.

Winter is the snow with black silhouettes.
Spring is tender, green young corn and pink apple blossoms.
Summer is the opposition of blues against an element of orange, in the gold bronze of the corn.

Autumn is the contrast of the yellow leaves against violet tones. And it is a good thing in winter to be deep in the snow, in spring amid the grass.

In summer among the ripe corn, in the autumn deep in the yellow leaves.

Vincent.”

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

Vincent Van Gogh e Vivaldi colaboram para anunciar a Primavera. Bom dia!

 

publicado por Maria Brojo às 10:36
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Olá Tudo bem?Faço votos JS
Vim aqui só pra comentar que o cara da imagem pare...
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