Segunda-feira, 2 de Abril de 2012

NUM TEOR DE TRAMA


Walter Girotto

 

“Títulos de filme saíam das páginas brancas de finos cadernos, e as cores pousavam em pequenos bilhetes de letras gravadas. Era o ritmo das ondas que sempre diziam de memórias de crescidos deuses, até no latido quase silencioso de ruas ascendentes. Regresso e ida eram apenas monograma em prata de um dorso grafitado, afinal tão de vento em sua estreita face.

 

Dizia-lhe evidências que recusava, no modo cruel como odiava a passagem da sala, a humildade de protesto em recusa de veneração. As coisas não eram forçosamente o que lhe queriam mostrar. Vultos ilustres cabiam na pequenez de uma forma de ave, ovo abaulado num teor de trama. Dizia não, porque gostava de ser da outra face, do cerco de vidro ou pó de qualquer coisa que não trago.

 

Nunca as linhas se cruzaram com tanta força como nesse quarto distante de aldeia. Daí os nomes de mel e de tintura em pena, uma bacia e barcos parados num esmalte inútil. Ou as lanternas, limo ocioso num aroma vago de sabonete, acrescendo num vagar sem nome. Voltava muito a essas espessas tardes sem recreio, a Lua ainda no atraso de além do mirante, latidos e medos em cada esbracejar das folhas.”

 

Para o SPNI, Fernando York.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

publicado por Maria Brojo às 00:57
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Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

IMPERFEIÇÃO QUE A PERFEIÇÃO ACRESCENTA

Walter Girotto

 

Mulher atraente não precisa ser bonita. Ou esbelta. Ou angélica. Mulher atraente tem imperfeição que à perfeição acrescenta o “je ne sais pas quoi” que a outras falta. É feminina desde o peito do pé suavemente arqueado até ao progressivo enrolar da meia que da coxa desce lentamente. Quando se despe. Tem miolos laboriosos. Sustenta, activo, o intelecto. Não desdenha o humor. Solta gargalhada pronta. Ou sorri indefinida – complacência, gosto ou irónica leitura do que vê? Caminha com a coluna direita, conquanto se lhe adivinhe flexibilidade de junco. Ergue o queixo. Sem o apontar ao alto, mas de frente para o horizonte. Luzido o olhar. Ri e chora e hesita e nele reflecte o que vai dentro. Jamais estático, porque da acuidade dos receptores sensoriais faz uso harmónico com a atitude. Nunca banal. A vida exalada por cada poro. Frágil ou decidida consoante o momento. Que não esconde. E porque silenciando revela, atrai. Também pela sensualidade de quem aos cinco sentidos costumados parece somar outro. Invisível. Como campo magnético que às leis da Física desobedece – são inexistentes forças repulsivas.

 

Mulher atraente não tem facilitado o caminho. Se acresce exigência e prioridades alinhadas, as dificuldades aumentam. Dos atributos que dizem pertencerem-lhe, contam-lhe os homens. Uns bajulam. Mentem, portanto. Outros aspiram a bibelô que o dinheiro não compra. Presunçosos. Usam a mulher para aos demais crescerem na importância. Alguns querem-na pelo desafio. Pelo Evarest da escalada sedutora. Os restantes, e são estes que importam, vêem-na como pessoa. Amável. Arisca. Meiga. Maliciosa. Perspicaz. Plural. Generosa. Granítica.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:53
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Sábado, 26 de Março de 2011

“FUJAM QUE VEM P´RA AQUI!”

Walter Girotto, autor que não foi possível identificar

 

Postada em quase sossego, lia repetitivas, constaria depois, opiniões dos comummente designados ‘especialistas’ sobre a situação nacional. À terceira - fui obstinada -, concluí: ou o futuro do país é sina escrita de igual modo nas palmas das respectivas mãos, ou a “cartilha p’ró meu sucesso enquanto sábio ou «futurólogo» ou oráculo” enforma e despede do cérebro pensamento original. Adiante.

 

Na leitura, impôs-se a utilização de escrita segundo o novo acordo ortográfico. ‘Egito’, ‘direto’, ‘rutura’ e mais e mais e mais suprimiram consoantes mudas. O hífen desaparece. Interpela-me o modo como irei aprender contenção nas teclas ao escrever com alma fluente e sem ponderar a grafia de cada palavra que a transpira. Temor despiciendo por outras mudanças terem existido na língua portuguesa e assimiladas por habituação. Na ‘pharmácia’, exemplo simples, o «f» substituiu o «ph» sem levantamentos rebeldes das sinapses cerebrais que a história perpetue. Quem dera termos a constância ortográfica da língua inglesa de muitas décadas para cá! Pois se até os fruidores do american way of live a ela estão submetidos na ortografia… E se o nariz empinam para sair valorada a supremacia que detêm por esse mundo de Deus…

 

No início deste deambular, consta “postada em quase sossego”. O ‘quase’ tem justificação: amiga, directora duma escola secundária, telefona. Da fala semeada por risos, entendi substância que julgava, para o bem, perdida. Um senhor rondando os setenta anos, digno no vestir e na postura, solicita à funcionária/filtro da entrada entrevista com a Directora. Bem-mandada, pergunta o que o traz ali. E o senhor explica que tendo visto mais um episódio dos Morangos com Açúcar pelos netos adolescentes expostos a muitos perigos, anteontem, aluna roubou dinheiro à professora e acusou colega inocente. Não tendo a culpada sido reconhecida, desejava fazer denúncia punitiva.

 

A estória lembra primórdios da televisão em Portugal _ quando família assistia a tourada e o bicho portentoso, furibundo, ensaiava corrida captada de frente pelo operador de imagem, alguém prevenia “fujam que vem p’ra aqui!”

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

 

publicado por Maria Brojo às 07:53
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Sexta-feira, 17 de Setembro de 2010

DÓ, RÉ, MI EM XILOFONES SÍNCRONOS

Walter Girotto, Wmb Hoyt, Perrin Sparks, Yossi Rosenstein

 

Mudanças boas. Assinaláveis por quem não desiste de observar acções e reacções sem Física que as comande. O estar social alterou-se e se, no início, obrigou a atitudes engasgadas porque novas, no presente, adaptação interior feita, palavras e gestos fluem naturalmente. Começou pela inocente pergunta sobre o bem-estar da Luisinha, coincidindo o acaso em encontro a sós com o marido. Ele titubeava até, a contra-gosto, revelar que estavam apartados, divorciados, que o «nós» deles era passado. Não sendo amigo-do-peito, o interlocutor agastava-se contra a língua comprida que não censurara. Mas tinha desculpa _ era o começo da banalização do conceito de 'novas famílias', 'famílias disfuncionais' associadas a divórcios, porque o casamento regia famílias perfeitas, tocando dó, ré, mi em xilofones síncronos. Engano sabido, quando assinar papel era registo de propriedade pelo qual os nubentes esperavam acrescentar marquises e remodelar cozinha e sala e quarto, na modelação progressiva do parceiro/apartamento sem precisarem de autorização camarária e com o gostinho perverso da clandestinidade, olhada de fora a relação casada/casa. Mas os humanos não são propriedade/hipoteca para a vida. Ser equiparado a prevista marquise de alumínio a muitos não serve. E vêm quezílias de fundo quando o parceiro é impossível de remodelar para obedecer ao design previsto pelo cônjuge. E o sonho de contrato para a vida a troco de cavalos muitos em dois nos lugares da garagem e segunda habitação e filhos de pais com amuos mas que ficam juntos sempre e acima de tudo o que separa e destrói gosto, vai sendo triturado pela ilusão das felicidades urgentes, estas, sim, as 'tais'. Mas, vezes algumas, não, apenas novo apartamento com oculta lavandaria-projecto consubstanciada no arranjo progressivo do outro, ainda que suma espaço da cozinha/parceira.

 

Duas mulheres conversam. Podiam ser homens. Aproxima-se terceira amiga. Com riso vero, é dito:

_ Surpresa! Vou ser avó.

Abraço forte, beijo na face, resposta:

 _ De quantos meses está a Carolina?

_ O bebé deve nascer em Fevereiro.

_ Parabéns, minha querida. Beijinhos para a nossa menina.

_ Não te esqueças que fará 26 e vão longe os 14 em que a conheceste.

_ Já? Passa tempo e nós ficamos; renovam-se vidas. Que maravilha!

Por questionar se a Carolina casou. Que importa? Vai ser mãe a menina mulher e a família com ela. Gente feliz limpa de mofo.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 07:18
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Quarta-feira, 7 de Julho de 2010

INDÚSTRIA DA CULTURA

Walter Girotto e autor que não foi possível identificar

 

A indústria da cultura e do entretenimento gera milhões para os artistas populares e particulares, despende outros tantos para os subvencionados pelo Estado. Porque a economia portuguesa está rota como os porta-moedas do povo, a “Cultura” recebe menos 20% do que em 2009. Rebelam-se os custeados, alguns (re)agentes que dela se servem para amanhar cobres e nome e estatuto intelectual.  

 

Num país iletrado, razoavelmente abundante em graus académicos - nem por isso mais letrados os utentes dos diplomas -, fosse perguntado a qualquer da disponibilidade para encaminhar fracção do salário a favor da «coltura», ‘NÃO!’ enfático seria resposta. Surpresa?

 

Por constatação empírica, nos últimos dez anos, entre sete a oito ministros(as) da Cultura. Fio condutor nas opções? Invisível como marcha fotónica vinda do astro majestade ou de alternativa engendrada pelo homem. Eventos de renome, navegantes com méritos reconhecidos além fronteiras? Muito poucos. Destes, a quase totalidade desprovida de subsídios.

 

No bailinho dos financiamentos culturais, a maioria dos agraciados age como bem lhe aprova o querer. Não é oficialmente seguido o trajecto. Experimenta com o dinheiro de todos. Bota figura entre pares. Cativa ou exerce pedagogia pública? De raro, em raro, aparece um. Em vez de subsídios a esmo, seleccionar objectivos dentro e fora credores de respeito, estes sim, apoiados. Mais-valia é o excelente que a todos dignifica, traz gentes e divisas e lustra Portugal. Em vez do toma-lá-e-serve-o-que-puderes apadrinhado, melhor empregue seria o metal em papel na divulgação externa do mérito incontestado de acções culturais.

 

Porque nem todos os portugueses e turistas são consumidores de noites anónimas no rotulado In que envolve copo na mão, fosse o país conhecido por meia dúzia de excelências culturais além Lisboa, e o panorama seria outro. Viena atrai milhões pela música. Avignon pelo Festival de Artes Vivas que hoje começa. Fornos de Algodres é conhecido por via de quê?

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 10:17
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Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

VENDA NOS OLHOS, ESPADA NA MÃO

 

Walter Girotto

 

Na mistura actual, constam fugas de informação talhadas a bisturi, pressões exercidas sobres juízes da Procuradoria Geral da Républica, Eurojust à mistura. Fado, fatum? Ao completar cinco anos o processo “Casa Pia”, o mais caro e longo de sempre na Justiça que nos (des)regula, não resisto em transcrever o que bem li.

 

"Hugo Marçal está em vias de ser admitido a frequentar o curso de auditor de justiça do Centro de Estudos Judiciários. O nome do arguido no processo de pedofilia da Casa Pia vem publicado no Diário da República, entre centenas de candidatos a frequentar a escola que forma os juízes portugueses. Todavia, ao contrário dos outros, não prestará provas. Pelo facto de ser doutor em Direito - grau académico obtido em Espanha – está, por lei, «isento da fase escrita e oral» e tem «preferência sobre os restantes candidatos». Resultado: o advogado de Elvas está à beira de ser seleccionado para o curso que formará a próxima geração de magistrados!

 

O nome de Hugo Manuel S. Marçal surge na página 4961 do Diário da República - 2.ª série, com o número 802, na lista de candidatos a ingressar no CEJ. Se concluir o curso com aproveitamento e iniciar carreira nos tribunais - primeiro como auditor de justiça, depois como juiz de direito -, Marçal terá o privilégio de não ser julgado num tribunal de primeira instância."
 

Reflexão outra*:

_ “O justicialismo está para a administração da justiça, tal como a politiqueirice está para a actividade política, ou o pretenso moralismo para os fariseus. A medida está naquilo que nos falta: uma moral social, comunitariamente assumida pela autonomia da sociedade civil e pelos seus filhos mais queridos, a liberdade de expressão e a liberdade de pensamento.

 

A medida ou o padrão da torta vida que temos é a régua (de "regula", isto é, de "régua"), tal como norma vem de esquadro, e tal como a ideia que nos deve reger é a recta que traçamos numa folha em branco e que se aproxima do paradigma de recta que todos devemos trazer dentro de nós. Até o "ius", o latino "direito", veio da expressão "ius de rectum", porque ele normalmente fica torto, quando os pratos da balança se desequilibram pelas desigualdades que a vida traz, ao gritarmos «isto é meu».

 

Direito de "de rectum" é o que põe direito o "ius" torto pelos interesses da luta pela vida e da luta pelo poder, onde quem mais tem poderes mais faz pender para o seu lado o prato, o "lanx", da "bi lancia". E a deusa que a sustenta, com espadalhão maior e mais potente, ao colocar a venda nos olhos continua a ser a única que a endireita. Juiz é aquele que escreve direito por tantas linhas tortas...”

 

* "Sobre o Tempo que Passa" em 11-11-09

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

publicado por Maria Brojo às 07:58
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