Segunda-feira, 16 de Setembro de 2013

PELOS E PELAGENS

 

Yul Brynner por Alessandro Pautass (Pop Art), Dona Surprenant – TwO Men Praying

 

O Estado, essa nublosa entidade que serve para tudo e para nada, demorou décadas a perceber o básico: pertence-lhe o prévio conhecimento dos montantes provindos dos rendimentos dos cidadãos. Assim não foi. Andou mal. Pôs-se a jeito. Esteve e está a pedi-las. Deu no que deu porque neste e noutros particulares o desleixo do Estado legitimou embustes por razão simples: não é dele o desembolso, o mau viver, mas dos pagantes usuais. Agora, arruinado, gasto e trôpego, procura tratamento que o remoce. Por enquanto, é botox de empréstimo, anorexia à custa dos trabalhadores que o servem, dos reformados, dos mais desfavorecidos na escada social atualmente resumida a par de degraus – ricos e pobres. Concretizando a brutal lipoaspiração das já secas carnes dos funcionários públicos, a credibilidade que lhe seria devida fosse entidade de bem somente não bate no fundo da Fossa das Marianas, em dimensão vertical envergonha o Everest, porque ir a pior não está descartado.

 

Raiz quiçá tão profunda como a da austeridade por ora vivida tem a questão pilosa, masculina em particular. De facto, a relevância do problema é fácil de aceitar: interditos aos machos humanos lacinhos, ganchos, travessões, totós e bandós, o cabelo é para eles mais que moldura do rosto, é montra publicitária – “olha para mim tão viril e cabeludo!” Daí a julgarem, vã mania!, que o engodo dos pelos é essencial ao sucesso, ao ar fresco e jovem, à respeitabilidade, ao engate, à performance sexual. E vigiam cada cabelo que ao acordar fica na almofada, na banheira no pós-duche, ou que a escova arrecada. Cabelo provocadoramente caído no lavatório, merece epitáfio: “Ó desgraçado, seu reles, mal-agradecido por tanta ampola e massagem. Fica sabendo: cabelos há muitos; eras somente mais um, ó palerma!” E é. E fica no lavatório. E dali não o tira quem, por cair, o vilipendiou.

 

Do cabelo deles, mais do que a abundância ou rarefação, observo o arrumo. Não me escapa o estilo Yul Brynner (tipo fuga para a frente de quem ao medo da careca julga dizer não) (…)

 

Nota: hoje, publicado aqui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 11:25
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Sexta-feira, 26 de Outubro de 2012

VERDADES E ENGANOS

 Autores que não foi possível identificar

 

Raiz quiçá tão profunda como a tragédia desta fiscalidade perversa que nos estrangula, tem a questão pilosa, a masculina em particular. De facto, a relevância do problema é fácil de aceitar: interditos aos machos humanos lacinhos, ganchos, travessões, tótós e bandós, o cabelo é para eles mais que moldura do rosto, é montra publicitária – “olha para mim tão viril e cabeludo!” Daí a julgarem, vã mania!, que o engodo dos pêlos é essencial ao sucesso, ao ar fresco e jovem, à respeitabilidade, ao engate, à performance sexual. E vigiam cada cabelo que ao acordar fica na almofada, na banheira no pós-duche, ou que a escova arrecada. Cabelo provocadoramente caído no lavatório, merece epitáfio: “ó desgraçado, seu reles, mal-agradecido por tanta ampola e massagem. Fica sabendo: cabelos há muitos, eras só mais um, ó palerma! E é. E fica no lavatório. E dali não o tira quem, por cair, o vilipendiou.

 

Do cabelo deles, mais do que a abundância ou rarefacção, prezo observar o arrumo. Não me escapa o estilo Yul Bryner (tipo fuga para a frente de quem ao medo julga dizer não), a criativa e irreal pelagem de jogador da bola (a par das respetivas pernas e rabos são mais eficazes que cartão de visita), o estilo manga-de-alpaca convicto, o de hipotecado diretor de PME, administrador de multinacional ou político. Nenhum tão revelador como o do peregrino que na noite erótica de Lisboa, a noite dos mil olhos, se compraz.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 08:59
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Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011

SEM TOTÓS E BANDÓS

Autores que não foi possível identificar

 

O Estado, essa nublosa entidade que serve para tudo e para nada, demorou décadas a perceber o básico: pertence-lhe o prévio conhecimento dos montantes mínimos provindos dos rendimentos dos cidadãos. Assim não sendo, quem anda mal é ele. Mais: ao bom estilo lusitano está a pôr-se a jeito, a pedi-las. E teve-as! O burocrata desleixado chamado Estado tem sobrevivido aos generalizados embustes por razão simples: não é dele o desembolso, mas dos pagantes usuais. Arruinado, gasto e trôpego, procura tratamento que o remoce. Por enquanto, é dieta e botox mais lipoaspiração que nos deixam exangues.

 

Raiz quiçá tão profunda como a da fiscalidade ineficaz, tem a questão pilosa, a masculina em particular. De facto, a relevância do problema é fácil de aceitar: interditos aos machos humanos lacinhos, ganchos, travessões, tótós e bandós, o cabelo é para eles mais que moldura do rosto, é montra publicitária _ Olha para mim tão viril e cabeludo! Daí a julgarem, vã mania!, que o engodo dos pêlos é essencial ao sucesso, ao ar fresco e jovem, à respeitabilidade, ao engate, à performance sexual. E vigiam cada cabelo que, ao acordar, fica na almofada, na banheira no pós-duche, ou que a escova arrecada. Cabelo provocadoramente caído no lavatório, merece epitáfio: _ Ó desgraçado, seu reles, mal agradecido por tanta ampola e massagem. Fica sabendo: cabelos há muitos, eras só mais um, ó palerma! E é. E fica no lavatório. E dali não o tira quem, pelo atrevimento da queda, o vilipendiou.

Do cabelo deles, mais do que a abundância ou rarefacção, prezo observar o arrumo. Não me escapa o estilo Yul Brynner (tipo fuga para a frente de quem ao medo da careca atempada diz não), a criativa e irreal pelagem de jogador da bola (a par das respectivas pernas e rabos são mais eficazes que cartão de visita), o estilo «manga de alpaca» convicto, o de hipotecado director de PME, administrador de multinacional ou político. Nenhum tão revelador como o do profissional que na noite erótica de Lisboa, a noite dos mil olhos, se compraz e faz vida.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 06:20
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Olá Tudo bem?Faço votos JS
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