Segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

A PRIMAVERA DO INVERNO

Jack in the Pulpit (1930) by Georgia O'Keeffe (1887-1986)

 

Passados dois terços do Verão, ainda os pavimentos suavam, já ela distinguia cobre nas folhagens das tílias e plátanos, o verde murcho nos fetos dos pinhais e que escurece copas frondosas. Não o verde quase negro à mistura com cinzento que pinta arbustos e árvores em Nova Iorque. É outro. Remete para o dos ciprestes destacados no ocre dos solos agrícolas da Toscânia onde apetece rolar na imensidão aveludada pelas sobras de palha das colheitas. E se ela não o compara ao dos sobreiros do Alentejo amado, tem uma razão: caules laivados de vermelho se a riqueza da cortiça lhes foi escamada e os deixou nus como ovelhas sem lã após tosquia.

 

Passados dois terços do Verão, já ela conhecia pelo relógio íntimo o descair mais cedo do Sol no horizonte com suavidade dourada e ígnea sempre crescida até ao arrumo para sono tranquilo. E chegava a noite fria dos grilos, dos pirilampos lampejando em dança de sedução que as fêmeas aguardam. E por ali ficava esquecida da janta. Por ali, rente ao chão e à alma, esperava o azul noite que a despiria.

 

Hoje, é do Outono a chegada. E lembra ser o Outono a Primavera do Inverno.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

O título "Les Feuilles Mortes" foi extraído do álbum “Montand Chante Prévert”. O poeta surrealista francês escreveu o guião do filme "Les Portes de la Nuit" (1946) dirigido por Marcel Carné, baseado no bailado "Le Rendez-Vous" de Roland Petit com música de Joseph Kosma. Dos dois primeiros versos da canção de Prévert, "Les enfants qui s'aiment s'embrassent debout/contre les Portes de la Nuit", viria o título do filme. Jean Gabin e Marlene Dietrich aceitaram protagonizá-lo, mas viriam a optar pelo filme, "Martin Roumagnac". Um jovem cantor francês foi, entretanto, apresentado por Edith Piaf. Yves Montand protagonizou o drama "Les Feuilles Mortes".

 

Nota 1 – O poema foi publicado após o desaparecimento de Jacques Prévert no livro "Soleil de Nuit".

 

Nota 2 – No vídeo à direita, Jean Vilar faz brotar duma harmónica a música inolvidável.

 

“Oh ! je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux où nous étions amis.
En ce temps-là la vie était plus belle,
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui.
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle.
Tu vois, je n'ai pas oublié...
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Et le vent du nord les emporte
Dans la nuit froide de l'oubli.
Tu vois, je n'ai pas oublié
La chanson que tu me chantais.

{Refrain:}
C'est une chanson qui nous ressemble.
Toi, tu m'aimais et je t'aimais
Et nous vivions tous deux ensemble,
Toi qui m'aimais, moi qui t'aimais.
Mais la vie sépare ceux qui s'aiment,
Tout doucement, sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Les pas des amants désunis.

Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Mais mon amour silencieux et fidèle
Sourit toujours et remercie la vie.
Je t'aimais tant, tu étais si jolie.
Comment veux-tu que je t'oublie ?
En ce temps-là, la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui.
Tu étais ma plus douce amie
Mais je n'ai que faire des regrets
Et la chanson que tu chantais,
Toujours, toujours je l'entendrai!”

 

publicado por Maria Brojo às 09:38
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Domingo, 22 de Setembro de 2013

PORQUE HOJE É OUTONO, MONTAND E PRÉVERT

 

 

 

 

 

 

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

"O título "Les Feuilles Mortes" é extraído do álbum “Montand Chante Prévert”. O poeta surrealista francês escreveu as palavras para o filme "Les Portes de la Nuit" de 1946 dirigido por Marcel Carné, baseado no bailado "Le Rendez-Vous" de Roland Petit do ano anterior com música de Joseph Kosma. Dos dois primeiros versos da canção de Prévert, "Les enfants qui s'aiment s'embrassent debout/contre les Portes de la Nuit", viria o título do filme. Jean Gabin e Marlene Dietrich aceitaram protagonizá-lo, mas, por fim, mudaram-se para outro filme, "Martin Roumagnac". Um jovem cantor francês foi, entretanto, apresentado por Edith Piaf. Yves Montand desempenhou, então, o papel no pessimismo do filme "Les Feuilles Mortes".

 

O poema foi publicado após o desaparecimento de Jacques Prévert no livro "Soleil de Nuit" de 1980."

 

No vídeo à direita, Jean Vilar faz brotar duma harmónica a música inolvidável.

 

“Oh ! je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux où nous étions amis.
En ce temps-là la vie était plus belle,
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui.
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle.
Tu vois, je n'ai pas oublié...
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Et le vent du nord les emporte
Dans la nuit froide de l'oubli.
Tu vois, je n'ai pas oublié
La chanson que tu me chantais.

{Refrain:}
C'est une chanson qui nous ressemble.
Toi, tu m'aimais et je t'aimais
Et nous vivions tous deux ensemble,
Toi qui m'aimais, moi qui t'aimais.
Mais la vie sépare ceux qui s'aiment,
Tout doucement, sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Les pas des amants désunis.

Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Mais mon amour silencieux et fidèle
Sourit toujours et remercie la vie.
Je t'aimais tant, tu étais si jolie.
Comment veux-tu que je t'oublie ?
En ce temps-là, la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui.
Tu étais ma plus douce amie
Mais je n'ai que faire des regrets
Et la chanson que tu chantais,
Toujours, toujours je l'entendrai!”

 

publicado por Maria Brojo às 07:50
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Sábado, 12 de Novembro de 2011

“TANTOS OVELHOS, MON DIEU!”

 

Gerald King

 

_ “Chuvava, chuvava, chuvava!” Lembro esta exclamação da querida Nadette que, mesmo após muitos anos em Portugal, jamais logrou conjugar verbos e substantivar em escorreito português. Junto às memórias “a minha piquenina toalha”, por isto querendo dizer a luva de banho em pano turco. Francesa, rosto com origem estampada, generosa e compreensiva até mais não poder. Era delícia recebê-la na casa principal da Beira e ouvir-lhe a surpresa perante “tantos ovelhos, mon Dieu!” E era simples, afável, terna, culta, todavia com a omnipresente dificuldade na pronúncia e vocabulário luso. Quando a família quebrava regras de polimento e ria desbragada, ria também e pedia correcção. Para lhe facilitarmos o quotidiano desejávamos falar-lhe em francês. Proibia. A vontade de se desafiar era maior. Respeitávamos.

 

Disciplinada, toda a numerosa família em França, religiosa das “Irmãs Auxiliadoras da Caridade” (Auxiliatrices de la Charité) na altura com casa somente em Setúbal – dali passaria para Famalicão e, mais tarde, Aveiro. Com a idade, voltou ao país de origem segundo as recomendações da 'Ordem' que, de acordo com os respectivos preceitos, as religiosas podem, assim o queiram e aproximados os oitenta anos, regressar à proximidade da família. Proximidade que não significa distância curta, mas o mesmo país. A opção pela ‘família religiosa’ aquando dos votos, obriga a obliterar a família biológica.

 

Por ser religiosa na mesma ‘Ordem’, com a mais velha das ‘meninas Brojo’ acontece o mesmo. Desde há ano e meio em Portugal, após anos muitos em França onde exerceu apostolado, não lhe é permitido ir para Lisboa viver onde toda a pequena família genética se concentra. Terá de permanecer em Coimbra, próxima da comunidade de Aveiro também por obscuras razões de partilha. E chora com os oitenta e um prestes a completar, sofridos por doença incurável e degenerativa, por ficar isolada em lugar onde arrisca ser visitada com tempo contado uma vez por semana, pela Palmira, irmã superiora da comunidade de Aveiro, sede única da ‘Ordem’ em terra nossa. Fica isolada da irmã, da sobrinha, dos outros afectos a quem se dá e lhe dão amor e tem possibilidades de a vigiar clinicamente. Alternativa: pedir dispensa dos votos ao Vaticano, abandonar a vida religiosa. Mas prefere o sacrifício doloroso a que é obrigada, a renegar um sim juvenil pelos imperativos incompreensíveis para com uma mulher que sempre foi dádiva, exerceu desde jovem apostolado em condições difícieis, e sempre disse: _ “Na vida que conta fui freira. Assim continuarei até Deus me levar.”

 

Desde 5 de Setembro, até hoje – intervalo de tempo de permanência na “Unidade de Saúde de Coimbra” -, jamais foi convidada(?) a visitar a comunidade portuguesa. Denuncio o acto cruel de a manter só, ciente da imoralidade que constitui.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

publicado por Maria Brojo às 00:25
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Segunda-feira, 1 de Novembro de 2010

DEVANEIOS AMANTES

Colecção "Outono nos Parques de Lisboa - 2010"

 

Descendo a calçada, o aroma dos eucaliptos é aviso de prazeres para sentidos todos. Ao fundo, portão amplo e veredas, a espaços, sombreadas. Arriscando a entrada, para quem não conhece o lugar, misto de Paraíso inventado, imprevisto, real nicho para epicuristas e amantes de devaneios.

 

Excêntrico que opte por desvio à direita, ultrapassará muro por via de aberturas intercaladas. Além dele, o arrumo vegetal diminui, soma irreverência e tempo ao tempo em que as árvores nasceram. É altura de abrandar o passo e detença na exuberância das mostras de vida.

 

Os cogumelos, firmados em tronco decepado há ror de anos, exibem-se ao sol como família/harmonia que goza as benesses da luz de Todos-os-Santos no seu dia. Sobreviventes, denodados, resistiram à secura e quentura estivais. Verta o céu águas mil, acordam num sobressalto não lhes passem ao lado as horas de serem o que dormidos ocultaram.

 

 

Já nos carreiros oficiais entremeados com pontes e cursos de água e madeiras nos passadiços que pés, sem rumo ou com ele, atravessam, é ordenado o espaço verde e dele as margens frondosas. Canta o musgo vibrante, o castanho-cobre, a água correndo dum lado para outro sem fonte ou fim vislumbrado. E os pombos de má fama, proveito equivalente, debicam frutos ressequidos por colher.

 

CAFÉ DA MANHÃ

 

 

publicado por Maria Brojo às 08:09
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